Oferta Relâmpago: VEJA por apenas 7,99

2026: o ano em que a ação climática sai do papel ou perde tração

Centro de gravidade da agenda climática se desloca ainda mais para fora de Washington, sobretudo para a União Europeia, China e países emergentes

Por Ernesto Neves 2 jan 2026, 09h56 • Atualizado em 2 jan 2026, 09h57
  • Depois de uma década dominada por promessas, metas e anúncios grandiosos, 2026 surge como um teste decisivo para a política climática global. Não é mais uma discussão sobre ambição, mas sobre execução. A pergunta central deixou de ser “o que os países pretendem fazer” e passou a ser “quem consegue entregar”.

    Esse deslocamento ocorre num contexto político adverso.

    O retorno de Donald Trump à Casa Branca reforçou uma postura abertamente hostil à cooperação climática internacional, estimulando uma retração americana em fóruns multilaterais e enfraquecendo o efeito de liderança que os Estados Unidos exerceram em momentos-chave da última década.

    Com isso, o centro de gravidade da agenda climática se desloca ainda mais para fora de Washington, sobretudo para a União Europeia, China e países emergentes estratégicos.

    Ao mesmo tempo, 2025 caminha para figurar entre os anos mais quentes já registrados, segundo dados consolidados de instituições como a Organização Meteorológica Mundial e o Copernicus Climate Change Service.

    O contraste entre recordes de temperatura e a lentidão institucional ajuda a explicar por que 2026 ganhou um peso simbólico tão grande.

    Europa testa sua própria credibilidade

    Nenhuma região sente essa pressão de forma tão direta quanto a União Europeia. O bloco se apresenta há anos como referência regulatória global em clima, mas agora enfrenta o momento mais delicado de sua estratégia: transformar regras em efeitos reais.

    Continua após a publicidade

    O principal símbolo desse desafio é a entrada em vigor plena do Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM), o chamado imposto de carbono sobre importações intensivas em emissões, como aço, cimento e fertilizantes.

    A lógica é simples: produtos importados devem obedecer a padrões ambientais semelhantes aos exigidos pelas indústrias europeias ou pagar por isso.

    Na prática, o CBAM testa três coisas ao mesmo tempo.

    Primeiro, a capacidade da UE de proteger sua indústria sem provocar uma escalada comercial. Segundo, a disposição de parceiros comerciais, especialmente países em desenvolvimento, de aceitar regras ambientais impostas de fora. Terceiro, se o instrumento realmente induz políticas climáticas mais ambiciosas em outros países, como Bruxelas aposta.

    Sinais iniciais são mistos. Economias como a Turquia já discutem sistemas próprios de precificação de carbono para evitar perdas competitivas.

    Continua após a publicidade

    Em paralelo, países do Sul Global alertam para o risco de o CBAM funcionar como uma barreira disfarçada ao desenvolvimento, reacendendo tensões históricas entre clima e crescimento econômico.

    A transição energética acelera, mas de forma desigual

    Enquanto a política enfrenta atritos, o setor energético avança por outra lógica: escala e custo.

    Em 2026, grandes projetos de energia solar, eólica e armazenamento entram em operação em diferentes partes do mundo, reforçando uma tendência clara, a transição avança não apenas por consciência ambiental, mas porque se tornou economicamente viável.

    Megaempreendimentos solares no Egito e nas Filipinas, parques eólicos offshore no Mar do Norte e investimentos pesados em baterias mostram que a infraestrutura limpa já não é periférica.

    Segundo a Agência Internacional de Energia, o crescimento das renováveis hoje é mais rápido do que qualquer projeção feita há dez anos.

    Continua após a publicidade

    Ainda assim, a expansão é desigual. Gargalos em cadeias de suprimento, juros elevados e incertezas regulatórias continuam travando projetos em mercados menos estáveis.

    A transição, ao contrário do discurso homogêneo, avança em velocidades distintas, e isso tem implicações geopolíticas profundas.

    Transparência: o novo campo de batalha

    Outro eixo silencioso, mas decisivo, da agenda climática em 2026 é a obrigatoriedade de divulgação de dados ambientais. Depois de anos de relatórios voluntários e métricas inconsistentes, empresas em várias regiões passam a enfrentar exigências legais mais rígidas.

    União Europeia, Reino Unido, China, Austrália, Hong Kong e Singapura caminham para padrões mais abrangentes, incluindo emissões indiretas ao longo da cadeia produtiva, o chamado escopo 3. A ideia é simples: sem dados comparáveis e verificáveis, a transição vira marketing.

    Esse movimento, porém, enfrenta resistência crescente. O fenômeno das empresas evitando falar de clima para escapar de críticas ou processos revela um paradoxo: quanto mais central a agenda ambiental se torna, maior o risco jurídico e reputacional associado a ela.

    Continua após a publicidade

    Nos Estados Unidos, esse embate é ainda mais explícito. Leis estaduais da Califórnia sobre divulgação climática enfrentam batalhas judiciais, mostrando como o tema se tornou um campo de disputa política, não apenas técnica.

    O impasse dos combustíveis fósseis

    Talvez o ponto mais revelador do momento atual seja a dificuldade em avançar no debate sobre a eliminação gradual dos combustíveis fósseis. Apesar de mais de 80 países defenderem um roteiro claro para essa transição na COP30, realizada no Brasil, o consenso não veio.

    O tema retorna em 2026 em encontros internacionais e prepara o terreno para a COP31, na Turquia. A questão central permanece sem resposta clara: como conciliar segurança energética, estabilidade econômica e cortes rápidos de emissões?

    Países produtores temem perder receitas e influência. Países consumidores temem instabilidade de preços e choques sociais. O resultado é um jogo de empurra que adia decisões estruturais, mesmo quando os sinais físicos da crise climática se tornam cada vez mais evidentes.

    Tecnologia avança mais rápido que a política

    No setor automotivo, 2026 também marca avanços importantes, especialmente em baterias. Tecnologias como baterias de sódio e baterias de estado sólido prometem reduzir custos, dependência de minerais críticos e riscos operacionais.

    Continua após a publicidade

    Fabricantes chineses e europeus avançam rapidamente, enquanto governos ajustam metas e recuam em prazos mais agressivos para o fim dos motores a combustão.

    Esse descompasso entre inovação tecnológica e hesitação regulatória reforça uma tendência já conhecida: o mercado frequentemente se move mais rápido que a política, mas nem sempre na direção desejada sem incentivos claros.

    Um ano que revela prioridades

    No conjunto, 2026 não será lembrado como o ano das grandes promessas climáticas. Será lembrado, se muito, como o ano em que ficou claro quem estava disposto a pagar o preço da transição.

    A ação climática entrou numa fase menos idealista e mais pragmática. Menos discursos, mais fricção. Menos consenso moral, mais disputa por interesses. Como costuma acontecer nos momentos decisivos, não será a retórica que definirá o rumo, mas a capacidade de transformar regras em realidade.

    Publicidade

    Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

    Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

    Domine o fato. Confie na fonte.

    15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas.

    OFERTA RELÂMPAGO

    Digital Completo

    A notícia em tempo real na palma da sua mão!
    Chega de esperar! Informação quente, direto da fonte, onde você estiver.
    De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
    OFERTA RELÂMPAGO

    Revista em Casa + Digital Completo

    Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 7,50)
    De: R$ 55,90/mês
    A partir de R$ 29,90/mês

    *Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
    *Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês.