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Brasil é escolhido como sede para plano global contra lixo plástico

Iniciativa prevê investimentos de longo prazo, novas regras para embalagens e maior participação de empresas no financiamento da reciclagem

Por Valéria França Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 26 mar 2026, 12h38 | Atualizado em 26 mar 2026, 13h09

O Brasil foi escolhido como ponto de partida de um ambicioso plano internacional de enfrentamento da crise do plástico, que é um dos maiores desafios ambientais do século. Liderada pela inglesa Fundação Ellen MacArthur, a iniciativa transforma o país em projeto-piloto para a reestruturação da lógica de produção, consumo e reaproveitamento de embalagens. A proposta parte de um diagnóstico urgente: “milhões de toneladas de plástico seguem para os oceanos todos os anos e, no ritmo atual, pode haver mais plástico do que peixes até 2050”, disse Rob Opsomer, líder global de economia circular para plásticos da Fundação Ellen MacArthur, que esteve no Brasil recentemente.

Além do tamanho continental do Brasil, que já é um desafio, o país foi escolhido devido à liderança alcançada no governo de Luis Inácio Lula da Silva, no último ano, entre elas, a COP-30. O trabalho começa pelos municípios e só depois de demonstrada a eficiência, passa a ser escalonável para os estados. Trata-se de um processo que envolve diálogo com as empresas, cooperativas de catadores, recicladores e governos.

A ideia é instalar a tão falada (e pouco praticada) economia circular — um sistema que elimina resíduos desde a origem, mantém materiais em uso e reduz a pressão sobre recursos naturais.  A estratégia, segundo Opsomer, tem três eixos: eliminar plásticos desnecessários, redesenhar embalagens para facilitar a reciclagem e estruturar sistemas eficientes de coleta e reaproveitamento. Na prática, substitui itens de uso único com baixo valor — como canudos e embalagens descartáveis — por alternativas reutilizáveis, além de repensar o design de produtos, sim, porque eles influenciam muito na reciclagem.  Por exemplo, as garrafas transparentes rendem mais dinheiro aos recicladores do que as coloridas, porque custam menos para serem reaproveitadas. Por outro lado, é conhecido o poder das cores em chamar a atenção do consumidor. Enfim, uma garrafa vermelha se destaca mais do que uma translúcida. “Portanto, para que ninguém seja prejudicado nas vendas, é importante que todo o setor mude as regras”, explica o especialista, que já dá a ideia do tamanho do desafio. Já embalagens complexas, como as de salgadinhos com múltiplas camadas de materiais, seguem sendo um obstáculo técnico para a reciclagem. Para isso, será necessário conseguir um acordo entre empresários para que aconteça uma mudança geral.

No Brasil, o projeto será desenvolvido em parceria com a Clean Rivers e começa em nível municipal, com a meta de testar soluções replicáveis em escala nacional. A iniciativa envolve diálogo direto com empresas, governo, recicladores e cooperativas de catadores — peça-chave no sistema brasileiro de gestão de resíduos.

Um dos principais desafios é o financiamento. A reciclagem ainda enfrenta instabilidade econômica, já que seus custos variam conforme o preço do petróleo, que impacta o valor do plástico virgem. Para contornar esse problema, o modelo propõe a criação de um fundo permanente abastecido por contribuições das empresas, calculadas a partir do volume de produtos colocados no mercado.

O Brasil foi escolhido por seu avanço recente em regulação ambiental, incluindo metas para uso de conteúdo reciclado e incentivo a modelos de reutilização. No cenário global, a pressão também cresce. A Business Coalition for a Global Plastics Treaty reúne centenas de empresas que defendem um acordo internacional para reduzir a produção de plástico e harmonizar regras entre países. Com duração estimada entre cinco e sete anos e investimento de dezenas de milhões de dólares, o projeto pretende transformar o país em referência internacional. Se funcionar, pode oferecer um caminho concreto para reduzir a poluição plástica em larga escala.

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