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Divisão de florestas ameaça a biodiversidade

Pesquisa comprova a importância da unidade para a sobrevivência das espécies nativas

Por *Thiago Gonçalves Souza e Maurício Vancine
Atualizado em 14 mar 2025, 21h14 - Publicado em 14 mar 2025, 21h10

A perda e fragmentação de habitat é uma das principais ameaças à biodiversidade global. Um novo estudo liderado por pesquisadores brasileiros e americanos e publicado na revista Nature, revela que paisagens fragmentadas têm menos espécies do que áreas contínuas de floresta, tanto em escala local quanto regional. A pesquisa, que analisou mais de 4.000 espécies em 37 locais ao redor do mundo, reforça a importância de proteger grandes áreas de floresta para conservar a biodiversidade.

O que é fragmentação de habitat e por que ela importa?

A fragmentação de habitat ocorre quando grandes áreas de habitat natural, como florestas, são subdivididas em pedaços menores devido a atividades humanas, como agricultura, urbanização ou construção de estruturas lineares, como estradas e linhas de transmissão de energia. Esses fragmentos ficam isolados uns dos outros, dificultando a movimentação de indivíduos de diferentes espécies entre eles. O resultado é a perda de biodiversidade, já que muitas espécies não conseguem sobreviver em áreas menores e isoladas.

O debate SLOSS: Uma grande área ou várias pequenas?

Um dos debates mais controversos na conservação da biodiversidade é o chamado SLOSS (do inglês Single Large or Several Small), que questiona se é melhor proteger uma única grande área de habitat (single large) ou várias áreas menores (several small). Esse debate ganhou força na década de 1970, estimulado por ideias do ecólogo americano Jared Diamond que discutiu a melhor estratégia para preservar espécies em paisagens fragmentadas. Segundo Diamond, uma única grande área de floresta contínua seria a melhor estratégia para conservar a biodiversidade.

No entanto, outros cientistas, como Daniel Simberloff e Lenore Fahrig, argumentam que várias áreas pequenas podem, em muitos casos, serem mais eficazes para conservar a biodiversidade do que uma única grande área, pois tendem a aumentar a disponibilidade de condições ambientais para diferentes espécies. Desde os primeiros estudos publicados por Simberloff, os cientistas têm debatido constantemente qual a melhor estratégia para conservar a maior parte da biodiversidade.

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Fragmentação reduz biodiversidade em todas as escalas

Nosso estudo comparou a biodiversidade em paisagens contínuas (grandes áreas de floresta) e fragmentadas (vários pedaços menores de floresta). Analisamos três tipos de diversidade: alfa (número de espécies em um fragmento específico), beta (diferença na composição de espécies entre dois locais) e gama (biodiversidade total da paisagem) nesses dois tipos de paisagens

Nossos resultados mostraram que as paisagens fragmentadas têm, em média, 13,6% menos espécies em escala local (diversidade alfa) e 12,1% menos espécies em escala regional (diversidade gama) do que as paisagens contínuas. Além disso, vimos que apesar da diversidade beta (diferença na composição de espécies entre fragmentos ou pontos de coleta na floresta contínua) aumentar em paisagens fragmentadas, isso não foi suficiente para compensar a perda de biodiversidade em escala regional.

aumento da diversidade beta em paisagens fragmentadas não resgata a perda de biodiversidade em escala local ou regional. Isso significa que, embora os fragmentos possam abrigar diferentes espécies, a biodiversidade total da paisagem ainda é menor do que em uma floresta contínua, uma vez que a perda local supera e muito as mudanças entre os fragmentos (diversidade beta).

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Implicações para a conservação

O estudo tem implicações diretas para políticas de conservação. Ele reforça a importância de proteger grandes áreas de floresta contínua, que abrigam mais espécies e mantêm a biodiversidade em todas as escalas. No entanto, nós destacamos que isso não significa que os pequenos fragmentos devam ser ignorados.

Em muitos países, e especialmente na Mata Atlântica brasileira, restam poucas florestas grandes e intactas. Portanto, além de proteger as áreas contínuas, é crucial focar na restauração de habitats degradados e na conexão entre fragmentos mediante corredores ecológicos para aumentar a biodiversidade e resiliência dos ecossistemas (capacidade de se recuperar de perturbações como incêndios).

A restauração de florestas não só beneficia a biodiversidade, mas também ajuda a mitigar as mudanças climáticas, já que florestas saudáveis são importantes sumidouros de carbono. A frag.mentação não somente reduz a biodiversidade, mas também compromete a capacidade das paisagens de armazenar carbono. Portanto, a restauração florestal possui um papel crucial para a manutenção da biodiversidade e para minimizar os efeitos das mudanças climáticas.

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Nosso estudo resolve um debate de longa data na ecologia sobre se a fragmentação pode ser benéfica para a biodiversidade. Alguns cientistas argumentavam que a criação de habitats isolados poderia aumentar a diversidade beta, compensando a perda de espécies em escala local. No entanto, nossa pesquisa mostra que isso não ocorre na prática.

Este estudo reforça a necessidade de proteger grandes áreas de floresta e de restaurar habitats degradados para garantir a persistência das espécies. A fragmentação de habitat é uma ameaça real e crescente para a biodiversidade global, e a prioridade deve ser a criação de paisagens conectadas e resilientes, capazes de abrigar uma grande variedade de espécies e de fornecer serviços ecossistêmicos essenciais, como o armazenamento de carbono.

A mensagem é clara: para preservar a biodiversidade, pense grande.

*Thiago Gonçalves Souza, pesquisador da Universidade de Michigan e Maurício Vancine, pesquisador da pós-doutorado, da Universidade Estadual de Campinas

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