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Novos trabalhos científicos comprovam os estragos da epidemia do plástico

A produção global anual gira em torno de 500 milhões de toneladas, quantidade que encheria 50 000 caminhões grandes

Por Valéria França Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 22 mar 2025, 08h00

O plástico já foi um grande símbolo de modernidade. A partir dos anos 1970, a indústria petroquímica impactou fortemente a população ao oferecer embalagens e produtos descartáveis extremamente libertadores. A primeira grande mudança veio com o surgimento das garrafas PET — abreviação de polietileno tereftalato —, que substituíram os vasilhames retornáveis de vidro, cuja logística era custosa para a indústria e trabalhosa para o consumidor. Daí, vieram outros artigos revolucionários, como talheres, copos e sacolas descartáveis, peças de destaque nas gôndolas dos supermercados pela praticidade. Hoje, é difícil pensar em produtos que não venham, ao menos, envoltos em algum tipo de plástico. O excesso de oferta e demanda, contudo, virou um problema. O material demora até 500 anos para se decompor na natureza e, em média, apenas 10% é reciclado no planeta (no Brasil, escassos 1%). Profissionais de saúde e especialistas em controle ambiental não têm dúvida: o mundo vive a pandemia do plástico. Eis a constatação a partir de um lote de novíssimos estudos.

A produção global anual gira em torno de 500 milhões de toneladas, quantidade que encheria 50 000 caminhões grandes. A grande maioria é formada por materiais de uso único, despejados em aterros, rios e oceanos. A Organização das Nações Unidas (ONU) estimou, recentemente, que 150 milhões de toneladas de plásticos estão à deriva no mar. Parte do montante, no entanto, afundou: 14 milhões de toneladas residem nas profundezas, de acordo com a agência científica australiana CSIRO Oceans and Atmosphere, que realizou o primeiro levantamento deste tipo, em revelação incômoda.

arte microplásticos

A vida marinha é a primeira a sofrer com tamanha poluição. Uma pesquisa realizada na costa brasileira (veja no quadro) desenhou o drama: 85% das carcaças de 200 espécies de peixes apresentaram polímeros no intestino. Outros animais, como tartarugas, répteis e aves, também são vítimas de sacolas e sacos de embalagens, assim como de resíduos do desgaste do material, batizados de microplásticos, que medem de 5 milímetros a 5 micromilímetros. Essas partículas se misturam às águas, além de ficar suspensas no ar. “Em geral, são remanescentes de fibras de tecido, levadas pelo vento”, disse a VEJA Bárbara Rani-Borges, pesquisadora do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP), que está na Suécia para desenvolver um método de identificação e monitoramento de microplásticos nas células humanas.

É fácil intuir que o ser humano sofre dupla exposição, pela alimentação e pelas vias aéreas. Trabalhos internacionais já identificaram microplásticos no estômago, no intestino, na circulação sanguínea e, há pouco tempo, no cérebro humano, conhecido por ser o órgão mais blindado do corpo. Para atingi-lo, as moléculas precisam ultrapassar três barreiras hematoencefálicas, células superunidas que impedem a passagem da maioria dos elementos carregados pelo sangue. Recentemente, três pesquisadores da USP analisaram oito cadáveres de pessoas que moraram na cidade de São Paulo por pelo menos cinco anos. O grupo encontrou resíduos no bulbo olfativo, a primeira parte do sistema nervoso, aonde chegam as informações dos cheiros, conectados com os neurônios do fundo do nariz, que identificam, por exemplo, os odores. Eram partículas de tipos diferentes de plásticos: 44% de polipropileno, que é o polímero mais produzido no mundo. Trata-se de material translúcido e duro, moldado no calor, encontrado em embalagens e equipamentos médicos.

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RISCO - Tartarugas: animais marinhos confundem grandes sacos com comida
RISCO - Tartarugas: animais marinhos confundem grandes sacos com comida (Paulo de Oliveira/Biosphoto/AFP)

Qual é, enfim, o impacto desse estrago na saúde? “Temos evidências de que o material é inflamatório, cancerígeno e pode até mudar o DNA em animais”, disse a VEJA uma das autoras do estudo, Thais Mauad, patologista da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Os cientistas já sabem que a presença de microplásticos aumenta o risco de enfarte e acidente vascular cerebral (AVC) em 4,5 vezes. A constatação partiu de uma pesquisa realizada com 257 pessoas, que passaram pelo procedimento de desobstrução das artérias. De cada dez pacientes, seis apresentavam resíduos no sangue. Os pacientes foram acompanhados 34 meses após a cirurgia. Ainda há muito para descobrir, e não se trata de caminho sem volta, mas os cientistas alertam para uma obrigatoriedade: a diminuição da exposição aos materiais plásticos, dando preferência aos orgânicos, como tecidos de algodão, e embalagens que não sejam à base de petróleo, caso do vidro. Estima-se que, se a produção continuar na mesma escalada, até 2050, haverá mais plásticos do que peixes nos oceanos. É hora de virar o jogo.

Publicado em VEJA de 21 de março de 2025, edição nº 2936

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