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Curva de aprendizado

Seriedade e boas intenções não bastam para o governo

Por Murillo de Aragão 17 jul 2020, 06h00 | Atualizado em 4 jun 2024, 13h54
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A teoria da curva de aprendizado é uma forma de medir o desempenho de uma pessoa ou de uma instituição ao longo de determinado tempo. A ideia é que, quanto mais tempo passa, mais se aprende a fazer bem o que se está fazendo. O exemplo clássico é o de um empregado novo. Pouco sabe sobre a sua atividade, mas, à medida que o tempo vai passando, a prática o torna cada vez mais eficiente.

Como transportar tal situação para a política? Em governo que faz sucessor, caso de FHC, que se reelegeu, e de Lula, que, além de se reeleger, elegeu e reelegeu Dilma Rousseff, a transição de um mandato para outro transporta boa parte da experiência adquirida. Dilma é caso único. Além de desprezar os ensinamentos de seu patrocinador, não aprendeu nada em seu primeiro mandato e naufragou fragorosamente no segundo.

Temer, mesmo sem ter sido administrador, sabia as manhas da política e errou menos. Não conseguiu se comunicar bem e, dadas as realizações de seu governo, terminou pior do que poderia. Bolsonaro virou presidente com precária experiência administrativa e postura política anti-establishment. Rompeu com o presidencialismo de coalizão, nomeou quem quis e, em seu ano e meio de mandato, colecionou erros e acertos.

“Há um bom exemplo de comunicação, sem alarde: as ações do Ministério do Desenvolvimento Regional”

Nesta altura dos acontecimentos, em que estágio está a curva de aprendizado do governo Bolsonaro? Para simplificar um quadro complexo, vamos considerar três tipos de aprendizado. O primeiro é o dos que demoram a aprender. Não conseguem sequer implantar suas políticas e se perdem em debate estéril sobre ideologia.

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O segundo tipo é o daquele que aprende aos trancos e barrancos. Está nos carrinhos elétricos do parquinho de diversões e progride entre batidas e solavancos. O terceiro tipo avança com mais tranquilidade. Nesse grupo se destacam alguns ministros: Tereza Cristina (Agricultura), Tarcísio Gomes de Freitas (Infraestrutura), Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional) e Roberto Campos Neto (Banco Central). Tanto pelo preparo técnico quanto pelo conhecimento das regras onde atuam. Para funcionar melhor, o governo poderia olhar para exemplos dentro de seu próprio ministério. Caso a cultura do terceiro grupo prevaleça, o governo funcionará de maneira harmônica. Não é, porém, uma questão apenas de gerência e conteúdo. É de forma também.

Há uma área do governo, contudo, em que a curva de aprendizado é praticamente nula: a das comunicações. Paradoxalmente, o presidente Bolsonaro tem uma elevada popularidade — 50%, somando “ótimo”, “bom” e “regular” (lembre-se de que ninguém é reprovado na escola por ter desempenho “regular”). Sem saber se comunicar bem, o governo manteve a popularidade alta. Se se comunicasse de forma estratégica, melhoraria. Lá mesmo no governo há um bom exemplo de comunicação. Toda sexta-feira vejo nas redes sociais um vídeo do Ministério do Desenvolvimento Regional com o balanço semanal. Sem alarde, informa o que tem feito. Diante dos desafios que enfrentamos, o governo deve acelerar o seu aprendizado para ter sucesso na retomada da economia e no enfrentamento dos problemas sociais. Há seriedade. Mas não bastam boas intenções.

Publicado em VEJA de 22 de julho de 2020, edição nº 2696

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