‘Achei que ia ficar lá para sempre’, diz brasileiro resgatado de tráfico humano internacional
Luckas Viana, 31 anos, conta a VEJA como foi levado a Mianmar, onde trabalhou em 'fábrica de golpes' e era espancado por chefes chineses

“Eu tinha o antigo desejo de conhecer a Ásia. Já morava fora do Brasil, em Buenos Aires, há nove anos, quando um amigo mencionou uma proposta de emprego nas Filipinas. Na época, eu trabalhava como entregador de delivery e vi aquilo como uma chance de mudança. Fiquei um pouco desconfiado, é claro, mas uma pessoa entrou em contato comigo e me convenceu de que era uma oportunidade legítima na área de atendimento ao cliente. Eu já tinha experiência em telemarketing, e lá ganharia três vezes mais do que em empresas do Brasil.
Cheguei às Filipinas em outubro de 2023 e cumpria jornadas de cerca de 12 horas diárias. Passei por duas ou três companhias fazendo o mesmo serviço, atendendo clientes brasileiros de plataformas de cassino por meio de chat. No entanto, começaram a surgir polêmicas sobre os cassinos on-line, e muitas empresas fecharam ou demitiram em massa. Foi nesse momento que decidi ir para a Tailândia, um país que sempre me atraiu. Eu já havia até estudado tailandês. Fui muito feliz por lá, trabalhando como voluntário em um hostel em troca de hospedagem. Até que, em outubro do ano passado, surgiu uma nova chance de emprego, uma vaga semelhante às que eu já havia feito, com a promessa de um visto tailandês após seis meses. Passei pelo processo seletivo e fui aprovado. Fiquei animado para contar a novidade à dona do hostel, mas ela reagiu com preocupação, pois a cidade para onde eu estava indo, Mae Sot, era distante da capital e vivia um clima tenso. Não me importei, achando que nada de ruim poderia acontecer.
Um carro veio me buscar para me levar até a empresa, que ficava a muitas horas de distância. Tudo parecia normal; conversei com o motorista sobre música e criamos uma relação amigável. Depois de um bom tempo, ele parou em um posto e avisou que eu seguiria em outro veículo. A partir daí, troquei de carro mais duas vezes, até chegar a um lugar afastado, de estrada de terra, onde três homens me esperavam em frente a uma casa. Era tarde da noite, já estava muito escuro, e fui levado até a beira de um rio, onde um barco já aguardava. Ali, percebi que algo estava errado. De repente, ao chegar à cidade do outro lado, comecei a ver placas em birmanês e me dei conta de que não estava mais na Tailândia. Havia cruzado a fronteira de Mianmar.
Quando entrei em mais um carro, conduzido por um motorista chinês que nem falava inglês, tive meu celular e passaporte confiscados. Senti muito medo, sem ter a quem pedir ajuda, e só consegui enviar minha localização para um amigo. Vi pessoas armadas nas ruas. Andamos por horas, dando voltas em montanhas, e entramos em um complexo completamente isolado, no meio do nada. Lá ficava a empresa. Já na recepção, tive problemas ao questionar ficar sem o celular. Começou uma briga, e fui atingido por uma arma de choque. Caí, sangrei bastante e fiquei com uma cicatriz no rosto.
Demorei a entender o que exatamente eu teria que fazer. Eram cerca de 60 funcionários de várias nacionalidades, e eu tinha a impressão de que ninguém entendia o que estava acontecendo. Minha função era me passar por um perfil de uma mulher tailandesa que conversava e conquistava homens europeus com mais de 50 anos. O objetivo era aplicar um golpe e pegar o dinheiro deles. Na hora da extorsão, os chineses assumiam o controle. Eu só precisava fazer com que eles se apaixonassem por mim. Pedia a Deus todos os dias para que as vítimas não caíssem no golpe, mas ao mesmo tempo precisava que enviassem dinheiro para bater a meta.
Quando não atingíamos o objetivo, éramos punidos física e psicologicamente. As penalidades mais comuns eram ficar em pé com um galão de água nas costas por duas horas ou fazer inúmeras flexões. Às vezes, éramos chutados ou espancados com pedaços de cano e bambu. Vi uma menina apanhar mais de cinquenta vezes seguidas. Se a meta fosse batida, tínhamos direito a dez minutos no celular aos domingos, mas sempre vigiados. Durante os quatro meses que fiquei preso lá, consegui ligar cinco vezes para minha mãe, sempre com conversas curtas e superficiais. Trabalhava pelo menos 15 horas por dia, com muitas horas extras, e me sentia completamente exausto.
Em um momento, pensei que era melhor morrer do que continuar ali. Os chineses me disseram que eu nunca seria libertado. Me sentia ansioso, sem conseguir me concentrar, e ficava tonto de tanto usar o computador. Chorava muito trancado no banheiro, sentindo uma solidão imensa. Junto com meus colegas, planejamos uma fuga no início de fevereiro, mas fomos pegos, algemados e espancados. Logo depois, chegou o grupo Karen, uma espécie de exército budista de Mianmar, para nos resgatar. Eles estavam em contato com a ONG The Exodus Road e o governo tailandês. Fiquei feliz e receoso, só acreditando que estava livre quando saí dali. Eles tiraram nossas algemas, e corremos para fora. Eu estava mancando porque havia sido espancado dias antes. Fomos levados para um abrigo, e só ali caiu a ficha de que eu poderia voltar para casa. Fizeram até uma festa para nós, na qual cantamos, comemos e tomamos cerveja. A embaixada brasileira foi a primeira a aparecer para o resgate. Foi muito emocionante voltar para casa, e estou aos poucos me restabelecendo. Ainda é difícil acreditar que estou aqui, vivo. Parece um sonho.”