Biografia de dom João VI ajuda a derrubar de vez a imagem de ingênuo do monarca
Rei trouxe a corte de Portugal para o Brasil e desenvolveu a colônia
A figura de dom João VI (1767-1826), por muito tempo relegada ao anedotário como um monarca indeciso, medroso e glutão, ganha contornos inéditos e profundidade com o lançamento da biografia D. João VI: a História Não Contada. Escrita pelo pesquisador e escritor Paulo Rezzutti, a obra, que chega simultaneamente às livrarias do Brasil e de Portugal no início de março, engorda uma série de novos trabalhos que propõem um ajuste de contas com o passado. Fruto de investigação iniciada em 2019, o livro mergulha em documentação primária inédita de arquivos nacionais e estrangeiros para desconstruir a imagem do rei “bobo da corte” e revelar um governante que, apesar das hesitações, foi o único soberano europeu a manter a coroa e a liberdade frente à expansão napoleônica, enxergando na América não um refúgio temporário, mas o futuro de sua dinastia.
O ponto de partida para a revisão histórica é o enfrentamento dos mitos consolidados, a começar pela célebre frase atribuída a Napoleão Bonaparte: “Foi o único que me enganou”. Embora repetida à exaustão em livros e conversas informais, Rezzutti esclarece que a sentença jamais constou no Memorial de Santa Helena ou em qualquer registro do imperador francês. Trata-se de uma construção posterior, possivelmente surgida no início do século XX. No entanto, a inexistência da frase não anula a veracidade do fato histórico: enquanto monarcas da Espanha e da Áustria viram seus impérios desmembrados e suas famílias humilhadas ou aprisionadas pelas tropas francesas, dom João realizou uma manobra estratégica sem precedentes. Ao transferir a corte para o Rio de Janeiro em 1808, ele não apenas salvou a Casa de Bragança, mas redefiniu a geopolítica do Atlântico Sul.
A decisão de cruzar o oceano, muitas vezes retratada como uma fuga desesperada e covarde, é apresentada na obra como uma escolha pragmática. Documentos históricos revelam que a ideia de transferir a sede do reino para o Brasil já era debatida por conselheiros reais muito antes da ameaça napoleônica, dada a relevância econômica da colônia, que superava a da metrópole. Ao optar pela América, dom João evitou que o Brasil caísse nas mãos da Inglaterra, risco real caso permanecesse em Lisboa.
Outro aspecto que a biografia ataca frontalmente é a caricatura física e comportamental do rei, especialmente a lenda de que ele consumia quantidades absurdas de frango diariamente. A imagem do rei devorando coxas de galinha com as mãos engorduradas, perpetuada no imaginário nacional por meio de filmes, como o excelente Carlota Joaquina, Princesa do Brazil, de Carla Camurati, nasce de uma má interpretação dos registros da Real Ucharia, a despensa real. “A quantidade de frango que ia para o rei era imensa”, diz Rezzutti, o autor. “Mas o alimento sustentava toda a estrutura serviçal ao seu redor, e não apenas o estômago de dom João.”
A obra também ilumina a faceta de estadista do personagem, frequentemente obscurecida pela sua aversão a tomar decisões rápidas. Podia ser moroso e ouvia a todos antes de agir, mas, uma vez tomada a decisão, a sustentava com ímpeto. “Ele preferia escutar o que todo mundo tinha a dizer, ia enrolando todo mundo e, no fim, fazia o que queria”, diz o pesquisador. Foi sob sua gestão que o Brasil viu nascer a indústria, com a fábrica de pólvora e de ferro; a imprensa; o ensino superior de medicina e instituições científicas como o Jardim Botânico e o Museu Real. Enquanto sua mãe, dona Maria I, era contrária à vacinação, ele foi um entusiasta da ciência, promovendo a imunização contra a varíola em sua própria família e entre os súditos.
A relação conturbada com a esposa, Carlota Joaquina, também é revisitada sem o viés do escândalo fácil, mais afeito a memes de redes sociais do que a enciclopédias. Embora o casamento fosse um desastre pessoal e político, com a rainha conspirando para tomar o poder, dom João manteve a instituição de pé. Mesmo diante de traições, tentou preservar a unidade familiar e dinástica, garantindo que seus descendentes continuassem a reinar nos dois lados do Atlântico.
A biografia não se furta a mostrar as sombras do período, como a manutenção da escravidão e a repressão a movimentos liberais, mas busca equilibrar a balança histórica. Ao final, emerge a figura de um governante que, entre a pressão de Napoleão e a tutela britânica, conseguiu o improvável: manter a integridade de um império ultramarino em decomposição e lançar as bases de uma nação independente. O “Rei Velho”, como era chamado carinhosamente por parte da população, pode não ter sido o herói de espada em punho, mas sua pena e sua paciência desenharam o mapa do Brasil contemporâneo. Convém, portanto, vê-lo de outro modo, no avesso do lugar-comum.
Publicado em VEJA de 30 de janeiro de 2026, edição nº 2980






