Cientistas descobrem ave no Acre que é dócil e lembra o dodô
Espécie vive isolada no topo da Serra do Divisor, tem comportamento incomum e já preocupa pesquisadores pela alta vulnerabilidade
Pesquisadores confirmaram a descoberta de uma nova espécie de inhambu, a sururina-da-serra, registrada apenas entre 300 e 500 metros de altitude na Serra do Divisor, no Acre. A identificação encerra anos de suspeitas iniciadas em 2021, quando gravações de canto feitas na região não correspondiam a nenhuma espécie conhecida.
A ave se destaca pelo canto longo — um dos mais complexos da família — e por características físicas específicas, como máscara cinza-azulada, peito ferrugíneo e corpo compacto. É uma descoberta rara: a última vez que um inhambu florestal totalmente novo foi descrito no Brasil foi há cerca de 80 anos.
Outro traço chamou atenção dos pesquisadores: a sururina-da-serra não demonstra medo de pessoas. Ela permite aproximação a poucos metros, comportamento incomum em aves terrestres da Amazônia. Como quase não há predadores no topo da serra, a espécie nunca desenvolveu respostas de fuga, o que levou à comparação com o dodô, extinto no século 17 e igualmente ingênuo à presença humana.
Por que a espécie já está em risco?
A ave depende de um ambiente muito específico, com vegetação altimontana, solos arenosos e alta umidade — um tipo de micro-habitat que existe apenas no ponto mais alto da Serra do Divisor. Isso a torna extremamente sensível às mudanças climáticas. Se a temperatura subir, o “andar” ambiental ideal para a espécie tende a se deslocar para cima, mas não há altitudes maiores disponíveis. Ou seja, ela não tem para onde ir.
Além disso, incêndios florestais, entrada de animais domésticos e projetos de infraestrutura na região, como estrada e ferrovia, aumentam a pressão sobre um habitat já reduzido. A população é estimada em pouco mais de dois mil indivíduos, e qualquer alteração brusca pode afetar toda a espécie ao mesmo tempo.








