Economia prateada ganha espaço e muda o mercado de trabalho no Brasil
País segue uma tendência de países desenvolvidos: à medida que a população envelhece, há mais pessoas com 60+ que seguem no mercado de trabalho
Em maio de 2025, o bilionário Warren Buffett surpreendeu uma plateia lotada de investidores e todo o mundo dos negócios ao anunciar sua aposentadoria. Buffett comandou seu conglomerado de investimentos, a Berkshire Hathaway, desde 1965, quando tinha 34 anos, até dezembro último, aos 95. Seu parceiro de longa data e vice-presidente da Berkshire, Charlie Munger, morreu aos 99, em 2023, sem nunca ter se desligado da empresa. Engana-se, porém, quem pensa que Buffett parou de trabalhar. O nonagenário passou a presidência da Berkshire em 2026 para um até então vice-presidente, Greg Abel, um “jovem” de 63 anos, e agora segue como presidente do conselho de administração, frequentando o escritório central, na cidade de Omaha, nos Estados Unidos. “Não quero ficar em casa vendo novela, meus interesses ainda são os mesmos”, disse em entrevista ao The Wall Street Journal no ano passado.
A Berkshire sempre foi referência em gestão e investimentos. A longevidade da carreira e da disposição de seus líderes também acabou por se tornar exemplo de um fenômeno global que está se tornando mais frequente: a presença crescente das pessoas mais velhas no mercado de trabalho. É uma consequência inevitável e até necessária do aumento da idade da população. “O envelhecimento populacional cria uma série de implicações para a economia, porque a mão de obra também envelhece, mas, para crescer, a economia precisa dessa mão de obra”, diz Janaína Feijó, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas. Nos países desenvolvidos já é um fenômeno consolidado. Um estudo da União Europeia mostrou que a participação das pessoas com mais de 60 anos dobrou de 2004 a 2019, de 4,5% para 9% dos trabalhadores.
O mercado de trabalho brasileiro também vive o seu processo de envelhecimento. No Brasil, os 60+ já são 16% da população. De 2012 a 2024, o número de brasileiros no topo da pirâmide etária (que, aliás, já deixou de ser exatamente uma pirâmide) subiu de 22,7 milhões para 35,2 milhões, alta de 55%. Um estudo feito por Feijó na FGV mostra que o contingente acima dos 60 de fato trabalhando cresceu 70% no mesmo período, de 5 milhões para mais de 8 milhões. É mais do que mero aumento demográfico e aponta que há outras forças colaborando para mais dessas pessoas trabalharem. Como resultado, a participação dos idosos entre os que estão ocupados subiu de 5,6% em 2012 para 8,2% em 2024. Os números foram compilados por Feijó com dados do IBGE.
O quadro de pleno emprego que o Brasil vive atualmente e a tradicional dificuldade de contratar que isso traz estão entre as razões que levam empresas a estenderem seus critérios de contratação. “As empresas estão mais abertas”, resume Mórris Litvak, presidente da Maturi, empresa de seleção e recrutamento de pessoal acima de 50 anos. Ele acompanha de perto a inclusão de pessoas mais experientes no mercado laboral faz dez anos, quando fundou sua consultoria. Para Litvak, ainda há etarismo nas relações de trabalho, mas isso tem mudado e deve evoluir nos próximos anos, afinal, o brasileiro envelhece e as empresas precisam acompanhar essa mudança. “Eu preciso me preparar para essa realidade, é a tal da economia prateada”, diz ele.
A pesquisa da FGV mostra que, entre as ocupações em que a participação dos “prateados” mais cresce, há um pouco de tudo. Elas vão de profissionais com nível superior, como engenheiros e médicos, e em que o país sofre de uma falta crônica de pessoal qualificado, às tarefas mais básicas do comércio e dos serviços, como vendas, atendimento e até os ambulantes informais. São todas atividades em que a presença de pessoas acima de 60 mais que dobrou desde 2012. “Os empresários têm tido muita dificuldade de encontrar gente para funções que eram tipicamente o primeiro emprego, como vendedores ou caixa, e estão buscando em outras faixas etárias”, diz André Sacconato, economista da FecomercioSP, a federação dos comerciantes do estado de São Paulo.
A rede de supermercados Assaí é um exemplo disso. A atacadista tem 90 mil funcionários funcionários no país. Desses, mais de 11 000 têm 50 anos ou mais. Apenas em 2024 foram em torno de 3 000 contratações a partir dessa faixa etária. Assim, a presença de pessoas 60+ na companhia chegou a 1,6% do total. “A característica marcante (desse funcionário) é o engajamento com o trabalho”, diz Tamaly Amorim, gerente de RH e diversidade da rede, que desde 2012 trata com atenção a contratação dos mais experientes.
Felizmente, enquanto as empresas buscam resolver um problema, do outro lado, é crescente a oferta de veteranos dispostos a trabalhar. O prolongamento da vitalidade ajuda. No Brasil, a expectativa de vida ao nascer, que era de 62 anos em 1980, chegou a 76 em 2023. E, se a pessoa chega aos 60, o que significa que sobreviveu à mortalidade infantil e a mortes violentas típicas dos jovens, a sobrevida sobe para 82. “Esquece, vou morrer em sala de aula”, diz Otto Nogami, que completou 71 anos em novembro. Hoje, além de dar aulas no Insper e na FEA-USP, Nogami participa de conselhos de empresas. A vida profissional ativa rivaliza apenas com uma paixão. O economista corre três vezes por semana no Parque Ibirapuera, em São Paulo. Em março, estava em Tóquio para disputar uma maratona. Estava frio e chovendo. “Foi terrível, mas completei, em cinco horas e meia.”
Outro fator que colabora para que idosos saudáveis adiem a aposentadoria definitiva tem a ver com a própria economia. “Mesmo que eles já tenham o rendimento da aposentadoria, o custo de vida corrói o poder de compra de qualquer pessoa”, afirma Feijó, da FGV, mencionando a esticada nos preços de itens especialmente pesados para o orçamento desse público, como saúde e aluguel.
Seja qual for a razão, o país agradece. Uma população com cada vez menos jovens e mais velhos gera uma série de novos problemas, e prolongar a estadia das pessoas no mercado de trabalho é uma das poucas maneiras de vencer a demografia. O gigantesco rombo da Previdência é um dos principais desafios. Outro problema é o simples encolhimento da força de trabalho, em especial em um país que envelhece rapidamente e muito antes de ficar rico como o Brasil, isso porque são principalmente os braços humanos que movem a produção. “Essa inserção já começou, mas ainda de maneira muito individual e desorganizada”, diz Sacconato, da FecomercioSP. “É importante que o poder público e o setor privado organizem formas de estimulá-la, porque se trata de um problema que só vai ficar pior.” Uma boa notícia é que já existe muita gente se mexendo.
Publicado em VEJA, janeiro de 2026, edição VEJA Negócios nº 22







