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Fúria, compaixão e projetos de lei: as reações à chocante morte do cão Orelha

Além da mobilização das redes e nas ruas — houve protestos em várias capitais —, o caso mobilizou o estado

Por Isabella Alonso Panho Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO , Bruno Caniato Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 6 fev 2026, 06h00 • Atualizado em 6 fev 2026, 13h32
  • Na primeira segunda-feira do ano, um cão comunitário, cuidado por moradores do entorno da Praia Brava, bairro de alto padrão de Florianópolis, foi encontrado embaixo de um carro, agonizando, vítima de uma brutal agressão. Orelha, como era chamado, não pôde ser salvo. A repercussão pela barbaridade ganhou tração meteórica ao longo dos dias. Celebridades, ativistas, políticos e pessoas comuns se uniram em uma campanha pedindo punição, indignação justa que se entrelaçou a gritos de justiçamento e à exposição virtual dos nomes, fotos e dados de quatro adolescentes suspeitos do crime. Passado um mês, a Polícia Civil concluiu um conturbado inquérito, indiciando e pedindo a internação de um dos garotos, de 15 anos, reconhecido pelo moletom e boné que usava no dia 4 de janeiro, quando foi flagrado por câmeras de segurança. Três adultos também foram indiciados por coação de testemunhas.

    O episódio desencadeou uma onda que foi da compaixão à fúria nas redes sociais. Apenas entre 22 e 29 de janeiro, houve mais de 2 milhões de publicações sobre Orelha no X, Instagram e Facebook, segundo monitoramento da Nexus — a hashtag #JustiçaPorOrelha dominou o debate, ao lado de termos como “monstros”, “vermes” e “psicopatas” atribuídos aos suspeitos. O pico das discussões ocorreu em 27 de janeiro, data da primeira entrevista coletiva da polícia, quando as postagens geraram 83 milhões de impressões (alcance de usuários), superando a repercussão da caminhada do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) rumo a Brasília, encerrada dois dias antes.

    BARBARIDADE - O cão comunitário da Praia Brava (SC): agonizando embaixo de um carro após uma brutal agressão
    BARBARIDADE - O cão comunitário da Praia Brava (SC): agonizando embaixo de um carro após uma brutal agressão (./Reprodução)

    O justiçamento virtual causou estragos. As famílias dos investigados chegaram a obter uma ordem judicial para obrigar as plataformas a remover os conteúdos com as fotos dos suspeitos, sob pena de multa, algo que não chegou a surtir efeito prático porque suas imagens seguiram sendo compartilhadas por gente que pedia punição. A circulação de fake news respingou em quem nada tinha a ver com o caso. Um hotel em Santa Catarina e um adolescente em Minas Gerais passaram por linchamentos virtuais por usarem o sobrenome de um dos suspeitos. Na internet, é fácil achar gente insatisfeita com a conclusão da polícia, clamando por vingança. “A rede social é uma arena. Nós, policiais, trabalhamos com fatos. A internet trabalha com versões”, diz o delegado Alessandro Barreto, especializado em crimes digitais.

    Em ano eleitoral, a morte de Orelha mobilizou políticos que viram na causa animal a bola da vez para fazer campanha. VEJA encontrou 72 projetos de lei sobre proteção animal apresentados na Câmara, Senado e Assembleias de segunda 2 até a última quarta. Patrocinadas por parlamentares de todas as alas partidárias, as propostas têm como principal foco o endurecimento de penas por maus-tratos a animais — em boa parte, há sugestões de alteração do Estatuto da Criança e do Adolescente para aumentar punições e reduzir a maioridade penal, um debate que ganhou corpo nas redes sociais. “A legislação é excessivamente branda. Atos infracionais análogos a crimes graves raramente resultam em internação, o que gera sensação de impunidade”, diz o deputado federal e delegado Bruno Lima (PP-SP), ativista da causa animal. Outras ideias incluem um cadastro nacional de abusadores de animais e a tipificação do crime de “zoossadismo digital”, quando a tortura é transmitida em perversas lives em canais obscuros na internet. Diversas dessas proposições já nasceram carimbadas como “Lei Cão Orelha”.

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    A defesa do adolescente indiciado terá de aguardar os próximos passos, do Ministério Público, mas continuará sustentando a inocência. “Temos mais perguntas do que respostas, e também queremos saber quem matou o cão Orelha”, diz o advogado Alexandre Kale. A defesa afirma que as imagens que flagraram o adolescente indo à praia não mostram o cão e que o rapaz não mencionou essa saída à polícia por “esquecimento”. Segundo os advogados, o adolescente teria passado o tempo todo em companhia de uma amiga, que também aparece nas imagens, conversando sobre um problema amoroso. Na volta de uma viagem à Disney, o jovem teve seu moletom e boné apreendidos — os mesmos que aparecem nas gravações —, considerados como prova pela polícia.

    INVESTIGAÇÃO - O adolescente indiciado, com uma amiga: moletom, boné e celular ajudaram a polícia
    INVESTIGAÇÃO - O adolescente indiciado, com uma amiga: moletom, boné e celular ajudaram a polícia (./Reprodução)

    Infelizmente, casos como esse fazem parte do cotidiano. Em 2020, por exemplo, um homem decepou com facão as patas traseiras do pit bull Sansão em Minas Gerais. O episódio deu origem a uma lei, que elevou a pena de maus-tratos a animais de até um ano para até cinco anos de detenção. Apesar do barulho, o agressor não passou um dia preso: a condenação foi substituída por serviços comunitários e multa de quatro salários mínimos. Na lei brasileira, só vai parar atrás das grades quem pegar penas de mais de oito anos — por isso, quem mata um animal raramente perde a liberdade.

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    Além da mobilização das redes e nas ruas — houve protestos em várias capitais —, a morte de Orelha mobilizou o estado. A Polícia Civil analisou mais de 1 000 horas de filmagens e usou softwares estrangeiros para recuperar arquivos apagados e acessar a localização dos suspeitos. Entre a leniência da lei com a vida dos animais e o grito das redes, o andamento do processo precisará responder a várias perguntas, o que não deve acontecer no ritmo do clamor popular. Que o caso possa levar a leis mais adequadas e a uma maior consciência da sociedade, para que tal barbaridade não se repita.

    Publicado em VEJA de 6 de fevereiro de 2026, edição nº 2981

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