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Maior roubo de arte do Brasil completa 20 anos de constrangimento e sem culpados

Obras de Picasso, Monet e Salvador Dali faziam parte do acervo do Museu da Chácara do Céu, no Rio

Por Valmir Moratelli Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 25 mar 2026, 09h00
  • No carnaval de 2006, durante o desfile do bloco das Carmelitas, que arrastava uma multidão pelo boêmio bairro de Santa Teresa, no Centro do Rio, um bando armado invadiu o Museu da Chácara do Céu e levou quatro pinturas assinadas por Pablo Picasso, Salvador Dalí, Claude Monet e Henri Matisse, avaliadas em mais de US$ 50 milhões (mais de 250 mil reais). Acontecia ali o maior roubo de arte da história do Brasil e uma das páginas mais constrangedoras da crônica policial brasileira, já que o roubo permanece sem solução até hoje. Ninguém foi preso. Nenhum dos quadros foi recuperado.

    A escolha do período do Carnaval não foi por acaso, já que o desfile do bloco propiciava condições ideais para a ação. Quase cem mil pessoas bloqueavam as ruas, o que impossibilitou a perseguição aos assaltantes. O museu, que havia liberado os funcionários mais cedo, contava com seguranças desarmados, que foram rendidos e obrigados a desligar o circuito interno de TV. O museu, que é privado e guarda obras de pintores renomados, não contava com um sistema de alarme moderno ligado a uma central policial. Outra falha: os ladrões não tiveram dificuldade alguma em arrancar as pinturas das paredes e fugir entre os foliões.

    A investigação tornou evidente o amadorismo da polícia em investigar crimes dessa natureza. No livro A arte do descaso, Cristina Tardáguila descreve a ineficiência da investigação, que beirou o descaso. Não existia, por exemplo, delegacia especializada em crimes contra o patrimônio cultural, apesar do extenso histórico de obras de arte roubadas de museus e igrejas históricas no país, cabendo à polícia ambiental do estado uma investigação tão específica. Os visitantes que passaram pelo local no dia do roubo nunca foram procurados para prestar depoimento, impressões digitais também não foram colhidas no museu. Para completar, os alertas às polícias de fronteiras não relacionavam a descrição das obras roubadas.

    Quando chamada à investigação, a Polícia Federal conseguiu localizar o motorista de uma kombi que havia supostamente sido forçado a transportar os ladrões. A justiça autorizou o grampo no telefone do motorista, mas o mesmo não pode ser feito porque a central de escutas da época estava sem agentes para operar o sistema de escuta. Sem provas concretas, o Ministério Público pediu pelo arquivamento da denúncia contra o suspeito.

    Como o crime completou 20 anos em 24 de fevereiro, os crimes de roubo e de uma possível receptação estão legalmente prescritos. Ou seja, ainda que alguém confesse o roubo e a receptação, não pode receber qualquer tipo de punição. Hugo Novais, sócio do escritório Novais Advogados Associados, explica que o crime de roubo qualificado, previsto no art. 157 do Código Penal, pode atingir pena máxima de até 15 anos de reclusão. “Considerando que os fatos teriam ocorrido em 2006, e ausentes causas de interrupção ou suspensão do prazo, é possível que tenha ocorrido a prescrição da pretensão punitiva estatal. O mesmo raciocínio pode alcançar eventual crime de receptação praticado na mesma data, observados os respectivos prazos legais”, explica.

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    Ele ainda esclarece que a prescrição penal não implica aquisição da propriedade por usucapião. Esta exige “posse mansa e pacífica, exercida com intenção de dono” e, em determinadas modalidades e boa-fé — um entendimento consolidado pelo Superior Tribunal de Justiça. “Bens de origem ilícita não geram direito à aquisição da propriedade no Brasil”, diz Hugo.

    Avaliadas em mais de 50 milhões de reais, as obras roubadas A Dança, de Picasso, Os Dois Balcões, de Dalí, Marinha, de Monet, e Jardim de Luxemburgo, de Matisse, eram tombadas pelo Patrimônio Histórico.

    Chácara do Céu -
    Chácara do Céu – (Reprodução/Twitter)
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    FALTA DE SEGURANÇA EM MUSEUS

    Gregorio Martins, guia turístico especializado em história e cultura carioca, destaca a dificuldade e a falta de apoio ao turismo cultural no Rio de Janeiro. A começar pelos horários complexos de funcionamento: alguns abrem apenas algumas horas por dia, outros em dias alternados, dificultando desde planejamentos até o acesso, já que alguns ficam distantes e nem sempre o trânsito da cidade ajuda. Outra reclamação constante são os museus que fecham para longas reformas, sem datas previstas de reabertura. Ou quando abrem, apenas parte do acervo disponível para visitação. “O próprio Museu Chácara do Céu, vítima do roubo há 20 anos, atualmente limita a visitação a apenas dois espaços com exibição de quadros, ou com exposições rotativas”, diz.

    Outra crítica de Gregório é o mau uso dos espaços, muitas vezes áreas imensas com um único elemento exibido para leitura. São exibições onde o visitante vai apenas para ler. Segundo ele, a situação dos museus no Brasil, com raras exceções, carece de infraestrutura e gestão mais moderna. “A falta de suporte aos guias, como no Museu Imperial de Petrópolis, é um problema. É impossível comprar ingressos antecipados on-line, como se faz para visitar a maioria dos museus do mundo. O guia precisa comprar dezenas de forma presencial. O contato com a instituição também é difícil, o telefone que atende o Museu é de Brasília e nem sempre tem alguém à disposição para atender”, lamenta.

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