SNI monitorou manifestações políticas que tiveram a participação de Fernanda Torres
Artistas que apoiavam o movimento pela volta das eleições diretas no país eram vigiados pelos agentes do Estado

O extinto Serviço Nacional de Informações (SNI) monitorava a participação de artistas nas manifestações em prol da Direta-Já na década de 80. Fernanda Torres foi um dos alvos dos arapongas. Na época, o SNI e a Polícia Federal produziram pelo menos cinco relatórios citando a atriz, estrela de Ainda Estou Aqui, ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro, que retratou a luta de Eunice Paiva, esposa do ex-deputado Rubens Paiva, morto nas dependências de um quartel militar em 1971.
Os primeiros relatórios de inteligência nos quais constam o nome da atriz são de 1984, quando ela tinha apenas 19 anos de idade, mas já havia estrelado novelas como Baila Comigo e Brilhante, da Rede Globo. Um relatório da PF sobre a inauguração do comitê Jovem Pró-Tancredo Neves incluiu a atriz na lista de artistas que integravam o movimento que pedia eleições diretas.
Em 1986, SNI também produziu um relatório sobre um programa de rádio e televisão do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) que fazia referência a um artigo de jornal que citava os artistas que participariam da produção. O primeiro nome da lista era o de Fernanda Torres. Os arapongas anexaram o texto que dizia que ela e Alceu Valença ressaltariam na TV que não pertenciam ao partido, mas que defendiam o direito da legenda à existência.
Relatório do SNI sobre as Diretas-Já cita trecho do discurso de Fernanda Torres
O nome da atriz foi citado novamente em outro relatório de 1987 sobre uma manifestação pelas Diretas- Já em Brasília. O documento relata que uma caravana de artistas e intelectuais que participaria do evento, incluindo Fernanda Torres, tinha o potencial de atrair grande público. “As passagens aéreas dos elementos acima citados foram pagas, segundo os organizadores, pelo ‘Comitê Pró-Diretas’”, diz trecho do relatório.
Em outro documento, de 1988, o SNI reproduz o pedido feito por Fernanda Torres na manifestação da capital: “Queremos pedir pelas diretas já”, disse ela. O mesmo relatório destaca que o então sindicalista Lula foi um dos oradores do evento. Os arapongas registaram a seguinte observação: “Lula, como sempre o mais radical, sarcástico e deselegante dos oradores, declarou que, se ‘o Sarney resolver disputar os votos nas urnas, não encherá nem um penico’”.