Empresa desiste de complexo industrial que ameaçava observatórios no Atacama
Decisão evita impactos de luz artificial, poeira e vibrações em uma das áreas mais importantes do planeta para observar o espaço
A empresa AES Andes anunciou que desistiu de construir um grande complexo industrial perto do Observatório Paranal, no deserto do Atacama, no Chile. A decisão foi celebrada por astrônomos do mundo inteiro porque o projeto colocava em risco um dos locais mais importantes do planeta para observar o céu.
O observatório é operado pelo European Southern Observatory, conhecido pela sigla ESO. Trata-se de uma organização científica formada por 16 países da Europa, em parceria com o Chile, que constrói e opera alguns dos telescópios mais avançados do mundo.
O complexo industrial, chamado INNA, previa a produção de hidrogênio e amônia verdes. Apesar do caráter “sustentável” do projeto, estudos técnicos mostraram que sua proximidade com os telescópios poderia causar danos permanentes às condições naturais da região.
Os riscos não estavam ligados à poluição tradicional, mas a fatores que parecem pequenos para quem não é da área, como luzes artificiais à noite, vibrações no solo, poeira no ar e alterações na estabilidade da atmosfera. Para telescópios extremamente sensíveis, isso é suficiente para prejudicar observações do espaço profundo.
Que telescópios existem ali?
Na região de Paranal ficam alguns dos instrumentos astronômicos mais importantes do mundo.
O principal é o Very Large Telescope (VLT), formado por quatro telescópios gigantes que podem trabalhar juntos. Ao lado dele funciona o Very Large Telescope Interferometer (VLTI), um sistema que combina a luz desses telescópios para enxergar detalhes ainda mais finos no Universo.
A poucos quilômetros dali, no Cerro Armazones, está sendo construído o Extremely Large Telescope (ELT), o “Telescópio Extremamente Grande”, que quando ficar pronto será o maior telescópio óptico do mundo.
Também na área será instalado o braço sul do Cherenkov Telescope Array Observatory, um conjunto de telescópios dedicado a observar raios gama vindos do espaço.
Todos esses equipamentos dependem de um céu naturalmente escuro e estável.
Por que o Atacama é tão valioso para a ciência?
O deserto do Atacama reúne condições muito raras. A altitude elevada, o ar extremamente seco, quase nenhuma nuvem durante o ano e a ausência de luz artificial fazem dali um dos melhores lugares da Terra para observar o cosmos.
Essas condições não podem ser recriadas em outro lugar. Se forem comprometidas por iluminação, poeira ou vibração constante, a perda é considerada irreversível para a pesquisa astronômica.
O que acontece agora?
A empresa informou que decidiu priorizar outros projetos de energia renovável e que não seguirá adiante com o INNA. O observatório aguarda agora a confirmação formal de que o projeto será retirado do processo de avaliação ambiental do governo chileno.
O episódio reacendeu um debate importante, a necessidade de criar áreas de proteção mais rígidas ao redor de observatórios científicos. Astrônomos defendem que projetos industriais e energéticos podem existir, desde que mantenham uma distância segura desses locais.
A mobilização envolveu cientistas, autoridades e a população, dentro e fora do Chile, em defesa do chamado “céu escuro”, um patrimônio natural essencial para que a humanidade continue observando e entendendo o universo.






