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Estudo explica por que seguimos os líderes desde sempre

Mesmo em sociedades primitivas, as pessoas sempre escolherem copiar quem se destaca, um movimento que andou com a evolução humana

Por Ligia Moraes
21 fev 2026, 08h00 •
  • Os poderosos em todo o mundo têm sido tão desastrados, à esquerda e à direita, em meio à permanente polarização, que a noção de liderança também foi arrastada para a sarjeta. É uma pena, porque os comandantes de fato — que levam equipes a portos seguros, com sensatez e firmeza — deveriam ser sempre celebrados, como os executivos de empresas que prosperam ou os chefes de bateria das escolas de samba, para ficar com dois exemplos saudáveis. É de bom tom, portanto, na recuperação de uma figura fundamental para a sociedade — o chefe — trilhar a origem do personagem, que brotou entre os humanos desde os primórdios, antes mesmo de existir uma civilização.

    Um estudo recente feito por uma equipe da Universidade Estadual do Arizona (ASU, na sigla em inglês), nos Estados Unidos, publicado na revista científica Nature Communications, sugere que a solução, digamos assim, de concentrar influência em poucos indivíduos já existia nos primeiros grupos de caçadores-coletores, que não seriam assim tão igualitários como faz pressupor o lugar-comum. E adeus à ingênua ideia de que desigualdades acentuadas da postura de indivíduos tenha surgido posteriormente, com a agricultura e as sociedades mais complexas. Um lote de descobertas arqueológicas, estudos etnográficos e agora pesquisas psicológicas demonstra que a influência — quem as pessoas ouvem, copiam e seguem — vem lá de trás. Soa um tanto óbvio, mas não é o que se ensina, não é o que sabemos, em um daqueles interessantíssimos casos de trabalhos científicos que abrem janelas. “Em algum momento do nosso passado, os humanos se tornaram dependentes da cultura”, anota Thomas Morgan, antropólogo evolucionista da ASU, um dos — sim — líderes do estudo. “Não resolvemos problemas sozinhos, precisamos trabalhar em equipe e aprender uns com os outros. Nesse contexto, pessoas realmente habilidosas, inteligentes ou carismáticas são valiosas. É como um mercado de talentos e, se você tem uma habilidade, pode usá-la para alcançar status.”

    IDEIA RECONSTRUÍDA - Grupos “igualitários” de caçadores-coletores de tempos primitivos: já havia ali indivíduos proeminentes e mais influentes
    IDEIA RECONSTRUÍDA - Grupos “igualitários” de caçadores-coletores de tempos primitivos: já havia ali indivíduos proeminentes e mais influentes (Gorodenkoff/Getty Images)

    Um simples teste de psicologia coroou o trabalho, e então ele foi aprovado e aplaudido. Em experimentos com 800 voluntários organizados em pequenos grupos, os pesquisadores pediram que os participantes identificassem qual cor aparecia com mais frequência em uma imagem. Depois de dar sua resposta, cada um era obrigado a copiar a escolha de outro integrante do grupo. Duas informações estavam disponíveis: o histórico de acertos de cada pessoa e quantas vezes ela já havia sido copiada pelos demais. O resultado foi rápido e consistente. Em poucos minutos, um ou dois participantes passaram a concentrar a maior parte das decisões coletivas. A desigualdade se formava sem conflito, apenas pela atenção, pela troca de olhares, por alguma intuição humana, demasiadamente humana — como, em firme suposição defendida pelos especialistas, se fez desde sempre.

    As hierarquias de prestígio são muito distintas das regras de dominância observadas, por exemplo, em primatas. Nada a ver, para ficar com um nome do século XIII, com o estilo do “líder” mongol Gengis Khan, que expandiu seu império na Ásia Central pela violência, pelo sangue, no estúpido avesso da sedução pela palavra. Em vez de apelar ao “quero, estou mandando”, na agressão verbal, o líder de verdade, sem aspas, chega ao topo porque os outros o consideram habilidoso, experiente e bem-sucedido — e querem ser liderados. Do ponto de vista evolutivo, essa tendência faz sentido. Prestar atenção em pessoas evidentemente práticas geralmente nos ajuda a aprender mais rápido e a tomar decisões melhores. Ao longo de milhares de gerações, os humanos que seguiram bons exemplos provavelmente sobreviveram e prosperaram. Mas descobrir quem seria um bom líder é um problema complexo, e os humanos não resolvem problemas sozinhos — fazemos isso em grupo. Portanto, monitoramos não apenas o quão boas as pessoas são, mas também quem os outros estão seguindo.

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    MAU EXEMPLO - O mongol Gengis Khan, do século XIII, que crescia à base de violência: na força, não
    MAU EXEMPLO - O mongol Gengis Khan, do século XIII, que crescia à base de violência: na força, não (Josse/Leemage/Corbis/Getty Images)

    As descobertas ajudam a explicar padrões que vemos em todos os lugares: em locais de trabalho, na política, na hora do recreio escolar, dentro de casa e nas redes sociais, é claro. Na internet parte-se do pressuposto de que, se muitos seguem alguém, deve haver um bom motivo — e haja carnaval de influencers. O excesso de informação, em um mundo tão efêmero como o dos cliques na tela do smartphone, quebra de algum modo a bonita sinfonia de aproximação, de conhecimento, que leva à criação de gente que sai na frente. Se a autoridade foi validada por tantos, lá vou eu também, e o risco de erros cresce exponencialmente.

    Mas nem sempre há o pior dos mundos, porque pessimismo faz mal. “Quanto mais pessoas seguem um indivíduo, mais influente essa pessoa se torna. Se aqueles que têm influência possuem informações úteis, é possível escolher com quem aprender”, diz Robin Watson, da Universidade de Lincoln, que também participou do levantamento da ASU . Resumo da ópera: siga o líder, é bom tê-lo, mas evite armadilhas. O prestígio é um atalho, uma forma de economia mental. Como não temos tempo para analisar tudo, a atenção coletiva é uma pista de quem vale a pena ouvir — mesmo nas redes sociais. No avesso do que uma vez exclamou o dramaturgo e cronista Nelson Rodrigues (1912-1980): nem toda unanimidade é burra.

    Publicado em VEJA de 20 de fevereiro de 2026, edição nº 2983

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