O efeito colateral do sucesso do filme ‘Tubarão’ para uma espécie inteira
Lançado há cinquenta anos, ele detonou uma caça a essa família de animais e manchou de forma quase irreversível a reputação deles

Faça um teste. Leia essa reportagem de VEJA ouvindo os repetitivos acordes iniciais da trilha sonora do clássico Tubarão, de Steven Spielberg, lançado há cinquenta anos. Dum dum… dum dum… mi fá… mi fá…, na genial invenção de John Williams. Dá medo — é de arrepiar —, e foi esse um dos efeitos duradouros da aventura que inaugurou a era dos blockbusters, com mais de 470 milhões de dólares de bilheteria, em valores atualizados, e fez de um fiapo de história uma obra-prima de suspense. Em um aspecto, contudo, o estrondoso sucesso resultou em consequência inesperada: transformou uma espécie inteira em vilão.
O autor do romance que deu origem ao filme, Peter Benchley (1940-2006), disse ter se inspirado em um incidente pessoal para criar a história do tubarão-branco, batizado de Bruce, que aterroriza a fictícia ilha de Amity. A narrativa, que ganhou vida pelas mãos de um jovem Spielberg, a partir de um roteiro escrito em parceria com o próprio Benchley, acabou por instilar pavor generalizado e irrefreável desses peixes carnívoros, transformando-os em párias dos oceanos.
Tubarão e filmes e séries baseados na obra original reforçaram a imagem do animal marinho como um “devorador feroz de humanos”, “assassino” e “cruel”. O estereótipo reduziu o bicho a um conjunto de certezas, no imaginário popular, que não corresponde à realidade da natureza. A espécie, na maioria de suas variações, tem relação amigável com os seres humanos, embora não se deva desdenhar, por exemplo, dos agressivos tubarões-tigre do litoral pernambucano. Os tubarões, insista-se, não são os antagonistas irracionais que Spielberg e Benchley costuraram. Pouco se importam com banhistas, são apenas curiosos e, ao contrário do que se acredita, não têm fome de carne e sangue de gente como a gente. Os ataques são raros e, quando ocorrem, muitas vezes são resultado de confusão visual, em que surfistas são enxergados como se fossem focas.

Deve-se, a rigor, respeitá-los e não temê-los. As características biológicas dos tubarões, como o crescimento lento, gestação longa e poucos descendentes, tornam-nos especialmente vulneráveis à pesca excessiva. Atualmente, 36% das espécies de tubarões e raias estão ameaçadas de extinção. “É preciso esforço superlativo para continuar a protegê-los, dado serem guardiões dos mares, fundamentais para o ecossistema”, diz Gareth Fraser, professor de biologia evolutiva na Universidade da Flórida.
A imagem negativa contribuiu para uma matança crescente, especialmente na pesca esportiva. A atividade pesqueira industrial massacra entre 70 e 100 milhões de tubarões ou cações por ano. A prática de finning (corte de barbatanas) é impulsionada pelo alto valor comercial das nadadeiras no mercado asiático, com os indivíduos frequentemente jogados de volta ao mar para morrer. A descaracterização da carne de tubarão, vendida como “posta de cação”, esconde do consumidor o que de fato está à venda, proibido.

Ao retratá-los como ameaças constantes, o público desenvolveu a falta de empatia, o que levou a uma diminuição do apoio aos esforços de conservação da espécie. O tubarão, enfim, pagou a conta de Bruce, a figura mecânica desenvolvida por craques de efeitos especiais de Hollywood, quando a atividade ainda engatinhava. O próprio Benchley passou a vida, depois do estrelato, tentando corrigir o equívoco. “Uma versão atualizada do filme não poderia apresentá-lo como vilão”, chegou a dizer. “Ele teria de ser mostrado como a vítima, por serem muito mais oprimidos do que opressores.”
O correto, tudo somado, apesar de sustos que não podem ser ignorados, e de tragédias que ocorreram e continuam ocorrendo, é vê-los como predadores de topo da cadeia alimentar, com uma função vital: retirar peixes doentes e debilitados de circulação, de modo a garantir a saúde dos chamados “estoques pesqueiros”. Sem eles, o oceano pode adoecer e morrer. Da próxima vez que você ouvir aquela toada tenebrosa de John Williams, saiba que é apenas o marco de uma ficção genial, coisa de cinema.
Publicado em VEJA de 27 de junho de 2025, edição nº 2950