“Ser mulher na ciência é lidar com desafios”, diz vencedora do USERN Prize
Fabiana Corsi Zuelli é a primeira brasileira a receber uma das principais honrarias para jovens cientistas do mundo

A pesquisadora Fabiana Corsi Zuelli recentemente alcançou um feito inédito ao se tornar a primeira brasileira a receber o prêmio global da Universal Scientific Education and Research Network (USERN). A honraria internacional é destinada a cientistas com menos de 40 anos que tenham realizado estudos de impacto significativo, proporcionando contribuições científicas e humanitárias. A conquista da pesquisadora de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, é ainda mais notável considerando que ela superou mais de 90 mil indicações, sendo seu projeto selecionado por um conselho composto por mais de 600 cientistas, incluindo laureados com o Prêmio Nobel.
Seu trabalho investiga como fatores biológicos, especialmente ligados ao sistema imunológico, e ambientais contribuem para o desenvolvimento de transtornos psicóticos. A partir dessa compreensão, a pesquisadora busca novas abordagens terapêuticas que possam beneficiar pacientes que não respondem aos tratamentos convencionais. Em entrevista a VEJA, Fabiana fala sobre suas descobertas, o impacto da imunopsiquiatria na psiquiatria moderna e a importância da representatividade feminina na ciência.
Em seus estudos, você avalia a interação entre fatores ambientais e predisposições biológicas no desenvolvimento das psicoses. Você poderia nos explicar o que isso significa?
As psicoses são transtornos mentais graves caracterizados por delírios e alucinações, que afetam profundamente a vida social e profissional. A maior incidência ocorre no final da adolescência e início da vida adulta, um período crucial de desenvolvimento pessoal e profissional. As possíveis causas da psicose são multifatoriais, envolvendo interações complexas entre predisposição genética e fatores ambientais. Estudos indicam que eventos traumáticos na infância, como abuso e negligência, e o consumo frequente de maconha podem triplicar o risco de desenvolver psicoses. Minhas pesquisas exploram esses mecanismos, investigando processos inflamatórios e imunológicos associados à doença, com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento de intervenções terapêuticas mais precisas.
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Como suas descobertas podem influenciar o desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas?
Aproximadamente um terço dos pacientes com psicose não responde adequadamente ao tratamento convencional com antipsicóticos, especialmente no que diz respeito aos sintomas negativos, como embotamento afetivo e desmotivação. Durante meu doutorado, no Reino Unido, participei de um estudo que investiga a eficácia de uma abordagem combinada: antipsicóticos associados a um fármaco que modula a resposta imunológica. Esse é o maior ensaio clínico randomizado e estratificado em imunopsiquiatria e é um excelente exemplo de medicina de precisão, em que as características biológicas são estudadas para o delineamento de terapias mais personalizadas, direcionadas e adaptadas às necessidades específicas dos indivíduos. Além disso, destaco a importância de políticas públicas que conscientizem a população sobre fatores de risco modificáveis, como traumas na infância e consumo de substâncias psicoativas.
Quais avanços você prevê na área de imunopsiquiatria nos próximos anos?
Por muito tempo a psiquiatria foi entendida como uma doença mental, desconectada do corpo. Mas, os avanços científicos durante as últimas décadas, como a identificação de células imunes no cérebro, mudaram substancialmente o entendimento dessa relação ao considerar saúde física e mental como entidades interligadas. No futuro, prevejo uma abordagem mais sofisticada de medicina de precisão, com terapias personalizadas baseadas na análise de biomarcadores imunológicos, genéticos e ambientais. Tecnologias como imunofenotipagem e inteligência artificial também permitirão identificar padrões complexos e aprimorar intervenções terapêuticas.
E como garantir que os avanços científicos alcancem populações mais vulneráveis?
Nossa pesquisa em Ribeirão Preto resultou na criação de um ambulatório especializado no atendimento a indivíduos em primeiros episódios psicóticos, oferecendo suporte clínico gratuito e capacitação para profissionais do SUS. Modelos semelhantes, já consolidados em países como Reino Unido e Austrália, poderiam ser ampliados no Brasil, garantindo que o conhecimento científico seja aplicado na prática clínica e beneficie um maior número de pacientes.
O que motivou seu interesse por essa área tão específica?
Desde criança, eu brincava de cientista com os materiais de laboratório do meu pai, biomédico, e essa foi uma grande influência para a carreira científica. Outra motivação pessoal foi o fato da minha tia, já falecida, ter sido diagnosticada com esquizofrenia. Convivi com o sofrimento de alguém próximo ter esse transtorno mental grave e com o fardo do cuidador (minha mãe) nesse contexto. Desde então, sempre quis contribuir para melhorar a qualidade de vida das pessoas que enfrentam esse transtorno debilitante, desenvolvendo estratégias que poderiam aliviar seu sofrimento e oferecer esperança.
Sendo uma pesquisadora brasileira e mulher, e considerando o destaque da sua pesquisa nacional e internacionalmente, como você enxerga os desafios de representatividade na ciência?
Ser mulher na ciência é lidar com desafios diários de representatividade, e enfrentar barreiras históricas e sociais. Muitas mulheres ainda precisam conciliar as demandas da carreira acadêmica com as atividades domésticas ou maternidade, que quando sem apoio, dificultam o progresso. Embora as mulheres sejam maioria na pós-graduação, ainda são minoria em cargos de liderança acadêmica, prêmios científicos e citações. Essa desigualdade não é falta de competência, mas sim de barreiras estruturais e sociais. Tenho plena consciência dos desafios que as mulheres enfrentam na ciência, mas acredito firmemente que nosso trabalho, perseverança e paixão têm o poder de transformar as barreiras. Como disse Marie Curie ‘Nada na vida deve ser temido, apenas compreendido. Agora é a hora de compreender mais, para que possamos temer menos.’