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Alexandre Schwartsman

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Economista, ex-diretor do Banco Central

A gentileza de estranhos

A volta da inflação à meta dependerá da moeda americana

Por Alexandre Schwartsman 20 fev 2026, 06h00 • Atualizado em 20 fev 2026, 10h49
  • Em minha última coluna tratei de como o Copom, o Comitê de Política Monetária, toma suas decisões, notando um ponto crucial: como ainda não inventaram um jeito de a taxa de juros afetar a inflação que já aconteceu, o comitê precisa sempre manter seu foco sobre a inflação futura. Não é tarefa fácil, acreditem. Fazer previsões é sempre um negócio complicado.

    Dentre vários fatores que afetam a inflação futura dois têm particular relevância: as expectativas de inflação e o estado do mercado de trabalho. Como boa parte dos preços é reajustada infrequentemente, sua formação é diretamente afetada pelo que se espera da inflação. No caso dos salários, sua definição, caso esperemos que a inflação seja 10% nos próximos doze meses, será muito diferente de quando se antecipa inflação de 1%. Salários (e preços) hoje sobem mais quanto mais elevada for a expectativa de inflação.

    À luz disso, não faz sentido a ideia, por vezes ventilada, de que a meta de inflação supostamente muito apertada seria responsável pelo juro muito alto. Se o governo anuncia que a meta de inflação será mais alta, dificilmente tal informação não contaminará as expectativas, o que faria preços e salários aumentarem ainda mais. Isso dificultaria a tarefa do BC e não ajudaria a reduzir as taxas de juros, pelo contrário. Note-se, ademais, que a taxa de juros não é alta desde que a meta de inflação foi fixada em 3%. Era alta quando a meta era 8%, 5,5% ou 4,5%, o que nos faz desconfiar que outros fatores estejam por trás desse fenômeno.

    “Em um ano, a desvalorização do dólar frente ao euro foi de 12%, quase igual à observada ante o real”

    Outro ponto de influência é o mercado de trabalho. Dadas as expectativas, a inflação tende a crescer quando mais baixa está a taxa de desemprego com relação ao seu valor de “equilíbrio” (a taxa “natural” de desemprego) e vice-versa. A queda abrupta da inflação durante a pandemia resultou em larga medida da forte elevação do desemprego no período.

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    O atual estado do mercado de trabalho no Brasil não poderia ser mais distinto. A taxa de desemprego, já ajustada à sazonalidade, caiu para pouco mais de 5% no final do ano passado, ante quase 15% no terceiro trimestre de 2020. O rendimento médio do trabalho, segundo o IBGE, cresceu a cerca de 9% no ano passado e quase 10% no final do ano, sugerindo disputa acirrada por mão de obra.

    Como a produtividade, exceção feita à agricultura, não cresce, tais aumentos se tornam pressões sobre preços finais. Onde não há competição externa, aparecem na inflação. O aumento de preços de serviços atingiu 5,9% no passado. Já no caso dos serviços que mais utilizam trabalho o aumento chegou a 6,8% em 2025 ante 5,5% em 2024.

    O êxito na redução da inflação em geral, de 4,8% para 4,3%, resultou em larga medida da valorização do real frente ao dólar. Parcela disso veio da taxa de juros, mas a parte do Leão veio mesmo foi da perda de valor global do dólar: em dezembro de 2024, 1 euro comprava 1,046 dólar; um ano depois, o mesmo euro comprava 1,174 dólar, desvalorização de 12%, praticamente igual à observada aqui (12,7%). Assim, a convergência da inflação para a meta — prevista para o final de 2027 pelo BC — dependerá crucialmente do que acontecer com o dólar.

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    Sem a gentileza do dólar, a inflação dificilmente voltará à meta, certamente não em 2026.

    Publicado em VEJA de 20 de fevereiro de 2026, edição nº 2983

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