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Alexandre Schwartsman

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Economista, ex-diretor do Banco Central

A inflação não é só comida

A aceleração de preços reflete uma economia superaquecida

Por Alexandre Schwartsman Atualizado em 7 fev 2025, 14h46 - Publicado em 7 fev 2025, 06h00

A inflação em 2025 deve mais uma vez superar o topo do intervalo de tolerância da meta de inflação. Pior, deve ficar ainda mais alta do que a registrada no ano passado, quando o limite já foi violado, atingindo algo entre 5,5% e 6%. O governo acredita que a piora da inflação é resultado da elevação do preço dos alimentos a partir de meados de 2024, o que explica a busca um tanto frenética por medidas que possam moderar os preços. Embora seja verdade que o aumento dos custos desses produtos tenha se refletido na inflação medida pelo IBGE, um olhar mais cuidadoso nas entranhas do índice revela que o problema é bem mais profundo do que supõe a vã filosofia do Ministério da Fazenda.

Se fosse verdade que a inflação se elevou apenas pelo efeito dos alimentos, esperaríamos que o IPCA livre do impacto desses produtos tivesse se mantido estável, ou mesmo diminuído, na segunda metade de 2024. Não é o que os números revelam: a inflação de tudo que não é comida se elevou de 3,9% para 4,2% no período.

Outras medidas de inflação, que buscam “limpar” o índice de efeitos temporários e localizados, revelam fenômeno similar: depois de atingir um mínimo no segundo trimestre de 2024, aceleraram nitidamente nos seguintes. Destacamos o desempenho dos serviços, itens que são mais sensíveis à demanda interna e menos afetados pelo dólar. Também se aceleraram no segundo semestre, atingindo perto de 6% nas leituras mais recentes.

“Um olhar mais cuidadoso nas entranhas do índice revela que o problema é mais profundo”

Não se trata, portanto, de um problema localizado, mas de fenômeno disseminado e persistente, que tem se mantido no começo de 2025. Tal comportamento, em particular no que se refere a serviços, sugere uma economia superaquecida, isto é, utilizando seus recursos, capital e trabalho, de forma mais intensa do que a consistente com estabilidade de preços, definida como inflação próxima à meta.

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O exame mais detalhado da atividade econômica aponta para o aumento do consumo como o principal motor da demanda interna. Dando um passo atrás, notamos que o maior motivo para o crescimento do consumo foi a elevação das transferências do governo, no caso pensões e aposentadorias, o Benefício de Prestação Continuada, o abono salarial e seguro-desemprego (todos impulsionados pelo aumento do salário-mínimo acima da inflação) e, por fim, o novo Bolsa Família. Nos dois últimos anos, tais transferências aumentaram 180 bilhões de reais.

O sobreaquecimento da economia e a aceleração da inflação decorrem diretamente da política de aumento do gasto público, o mesmo que o presidente resolveu chamar de “investimento”, embora não adicione em nada à capacidade produtiva do país, apenas ao consumo. A bomba estourou no colo do BC, a quem cabe evitar que a inflação se desvie persistentemente da meta. Daí a necessidade de voltar a elevar a taxa Selic para moderar o crescimento e trazer o IPCA de volta.

Note-se, contudo, que as próprias projeções do BC apontam para inflação superior a 5% neste ano e na casa de 4% nos doze meses terminados em setembro de 2026, o “horizonte relevante” (dezoito meses) do Copom. Vale dizer, o BC parece satisfeito em manter a inflação no intervalo superior de tolerância.

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Comete, assim, o mesmo erro de Alexandre Tombini há pouco mais de dez anos. Por algum motivo não conseguimos aprender com nossa própria história.

Publicado em VEJA de 7 de fevereiro de 2025, edição nº 2930

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