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Alexandre Schwartsman

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Economista, ex-diretor do Banco Central

O legado do ministro da Fazenda

Seu modus operandi consiste em jamais assumir os B.O.s

Por Alexandre Schwartsman 23 jan 2026, 06h00 • Atualizado em 23 jan 2026, 11h19
  • Uma antiga piada conta a história de um dirigente que, ao assumir, recebeu do antecessor três cartas para serem abertas em momentos de crise. Quando eclodiu a crise, a primeira carta dizia: “Culpe os inimigos externos”. Passou o aperto, mas nova turbulência sobreveio e foi necessário abrir a segunda carta, que aconselhava: “Culpe seu antecessor”. Ajudou por um tempo, mas outra crise forçou a abertura da terceira carta, que aconselhava: “Escreva três cartas”.

    Obviamente menciono a piada no contexto da virtual despedida do ministro da Fazenda, que pode (ou não) vir a ser candidato a um cargo eletivo, dependendo não da sua vontade, mas, como de hábito, dos planos do presidente, objeto de uma lealdade canina. Não sei se recebeu as cartas de seu antecessor, embora sua postura no cargo sugira que sim. Por exemplo, em entrevista recente, Haddad não apenas afirmou que o aumento da dívida na sua gestão resultou do juro elevado (o inimigo externo), não do déficit, como reclamou de ser julgado pela piora das contas públicas, que teria herdado do governo anterior (o antecessor). Nenhuma é verdade.

    Dados publicados pelo BC nos permitem decompor as origens do crescimento da dívida. De acordo com eles, os déficits do atual governo contribuíram com ao menos 3,3 pontos percentuais do PIB para o aumento do endividamento público. Digo “ao menos” porque não se pode esquecer que a taxa de juros elevada que incide sobre a dívida resulta também do comportamento das contas públicas.

    “Há sempre algum culpado a sabotar os planos infalíveis para colocar as contas públicas em ordem”

    Por um lado, o incentivo ao consumo advindo das transferências federais obriga o BC a trabalhar com juro mais alto para compensar o efeito desses gastos. Por outro, o próprio aumento da dívida implica juro mais alto para compensar os investidores do risco crescente associado a esse fenômeno. A conclusão é clara: maiores gastos são, sim, responsáveis pela dívida mais alta.

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    Também não é verdade que o governo tenha herdado situação calamitosa. Segundo a Instituição Fiscal Independente (órgão apartidário do Senado Federal), em 2021 e 2022 o governo registrara modestos superávits estruturais, devidamente transformados em déficits pela atual administração. E não por acaso: dados da Secretaria do Tesouro Nacional, subordinada ao ministro, revelam aumento de 316 bilhões de reais das despesas federais entre 2022 e os doze meses encerrados em novembro de 2025 (de 18% para 18,8% do PIB).

    Aliás, na mesma entrevista, o ministro responsabilizou a direção anterior do BC pelos problemas do Banco Master. Curioso, dado que sete dos nove integrantes da diretoria foram nomeados pelo atual governo, incluindo o diretor de fiscalização e o presidente da instituição, ambos presentes desde 2023. Não decorre daí qualquer ilação sobre sua responsabilidade, mas a constatação de que não falamos de “antecessores” ou “inimigos externos”, pelo contrário.

    Tais fatos ilustram com clareza o modus operandi do ministro. Em hipótese alguma qualquer problema pode ser de sua responsabilidade: há sempre algum culpado a sabotar os planos infalíveis para colocar as contas públicas em ordem, mas nunca o ministro. Seu principal legado foi jamais assumir seus B.O.s, algo que, posso garantir, não se ensinava no mestrado em economia da USP. Deve ter aprendido em outro lugar.

    Publicado em VEJA de 23 de janeiro de 2026, edição nº 2979

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