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Harley-Davidson e o motoqueiro fantasma do comércio global

No comércio internacional, muitas das melhores intenções, como gerar empregos, resulta na perda de mercados externos e o inferno da falta de competitividade

Por Marcos Troyjo
30 jun 2018, 23h52 • Atualizado em 30 jul 2020, 20h24
  • Marcos Troyjo 

    Pelo pouco que sei de uma versão do personagem “Motoqueiro Fantasma”, anti-herói de história em quadrinhos, sua trajetória começa com um pacto com o demônio. Movido pela boa intenção de curar o pai de uma enfermidade grave, o Motoqueiro vende a alma.

    No comércio internacional, muitas das melhores intenções — gerar empregos e impostos locais, fomentar empresas inovadoras, proteger propriedade intelectual, punir concorrentes desleais — firmam um pacto com o protecionismo e o intervencionismo. O resultado não pode ser outro: perda de mercados externos, altos custos internos e o inferno da falta de competitividade.

    A tradução da doutrina “America First” para o âmbito do comércio, com a imposição de tarifas unilaterais por parte de Washington à importação de aço e alumínio, feriu gravemente uma empresa norte-americana icônica — a Harley-Davidson.

    Há alguns meses, o presidente dos EUA, Donald Trump, recepcionou altos executivos da companhia num jantar na Casa Branca, saudando-os como “exemplo do sucesso industrial Made in USA”.

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    Num duríssimo comunicado ao mercado na última segunda (25), a legendária fabricante de motocicletas informa que em represália às tarifas erguidas por Trump, a alíquota de impostos incidindo sobre a importação europeia de motos subiu de 6% para vertiginosos 31%. Reparem: o aumento representa o mesmo patamar de 25% que os EUA passaram a sobretaxar no comércio de aço.

    A União Europeia (UE) configura-se como segundo destino de vendas da Harley-Davidson, inferior apenas ao próprio mercado interno norte-americano. Nos EUA, a fatia de mercado da marca encontra-se estagnada — e na Europa há ainda a perspectiva de que o teto que a Harley pode alcançar está bem distante.

    Com a incorporação da sobretaxa da UE ao produto final, cada Harley-Davidson exportada dos EUA à Europa fica em média US$ 2.200 dólares mais cara. Repassar isso para o preço ao consumidor literalmente significa destruir competitividade e rede de concessionárias.

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    Para não mencionar que maiores alíquotas sobre importação de produtos siderúrgicos implicam custos mais altos para as fábricas da Harley-Davidson localizadas no próprio território norte-americano.

    Um detalhe curioso: a Harley-Davidson origina-se como empresa e mantém sua sede no Wisconsin, estado natal e por onde foi eleito Paul Ryan, presidente da Câmara dos Deputados — e pertencente ao mesmo Partido Republicano de Trump.

    Ryan disse anteontem que as tarifas unilaterais foram uma “má ideia”, e que ” melhor maneira de ajudar consumidores, trabalhadores e empresários nos EUA é a abertura de novos mercados, e não o erguimento de barreiras ao próprio mercado dos EUA”.

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    Outro detalhe importante: se tudo isso emerge com a tentativa de proteger empresas e promover o renascimento industrial nos EUA, vale destacar que o setor de aço hoje representa apenas 0,1% do valor total das companhias norte-americanas negociadas em bolsa.

    Além do que, se por um lado Trump negociou uma reforma tributária mais leve para as empresas norte-americanas, por outro agora as onera. Explico-me: tarifas exercidas em retaliação a barreiras levantadas por Washington a outros países funcionam em essência como impostos sobre a renda das empresas.

    O exemplo da Harley-Davidson mostra que os EUA não estão apenas às portas de desmantelar o Nafta (Acordo de Livre Comércio da América do Norte), precipitar uma guerra comercial com a China, mas se encontram também num mutuamente destrutivo jogo de soma zero comercial com a UE, que em seu conjunto ostenta um PIB maior que o dos EUA.

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    Concentrar-se em tarifas tem efeito muito limitado. O comércio entre países ricos já desfruta de tarifas bastante baixas. Segundo a OMC (Organização Mundial do Comércio), a tarifa média de importação nos EUA é 2,4%; no Canadá, 3,1%; e por aí está também a média da EU — sendo que a tarifa média no Japão é menor que a norte-americana. Tudo isso gera uma enorme perda de tempo, dinheiro e energia corporativa.

    O futuro de uma verdadeira liberalização comercial — e integração econômica — está no estabelecimento de padrões comuns nos campos da legislação trabalhista, ambiental, patentária e de como os governos realizam compras e assim intervêm na economia.

    Com tuítes e outras declarações desde o anúncio da Harley-Davidson em transferir plantas industriais para a Europa, Trump acusou a empresa de acenar uma “bandeira branca” cedo demais.

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    Com isso o presidente dos EUA parece ter perdido aliado importante em suas guerras comerciais, que, lembremos, ele sugeriu serem “boas e fáceis de ganhar”.

    E já que estamos tratando de motos, o título em português de “Easy Rider” (o filme clássico de 1969 em que Peter Fonda pilota uma Harley-Davidson com o sugestivo nome de “Captain America”) é perfeito para classificar o que até agora tem sido a política comercial de Trump: “Sem Destino”.

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