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Balanço Social

Por Andréia Peres Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Um olhar diferente para as desigualdades do Brasil

Sem preparo nas cidades, chuvas trazem caos, mortes e prejuízos

Nas últimas três décadas, o país teve 3.464 vítimas fatais e um rombo superior a R$ 151 bilhões causados por desastres como inundações e tempestades

Por Andréia Peres 10 fev 2026, 07h30 •
  • Desde o início do ano, os alarmes da Defesa Civil de chuvas intensas, com risco de inundações e raios, têm sido cada vez mais frequentes. Um alerta importante que, infelizmente, vem sendo ignorado pela maioria dos municípios brasileiros.

    Hoje, apenas 5,3% dos municípios possuem Planos Diretores de Drenagem e Manejo de Águas Pluviais, segundo estudo recente do Instituto Trata Brasil.  A combinação de descaso com a ocorrência de eventos climáticos extremos é a tempestade perfeita, com perdão do trocadilho.

    “Os municípios devem elaborar e implementar esses planos para mapear riscos, identificar áreas vulneráveis e propor soluções integradas que minimizem os impactos na vida do cidadão”, diz Luana Siewert Pretto, presidente executiva do Instituto Trata Brasil, em entrevista à coluna.

    A ausência de sistemas de drenagem adequados agrava os impactos de tempestades, resultando em alagamentos, deslizamentos e prejuízos econômicos e sociais. De 1991 a 2023, o Brasil registrou 25,9 mil desastres desse tipo, 74% deles relacionados a chuvas intensas. Ao todo, foram 3.464 mortes e prejuízos superiores a R$ 151 bilhões, de acordo com estudo do Instituto Trata Brasil.

    O ideal é que haja um planejamento integrado, antes que o pior aconteça, e que esse planejamento leve em conta, além do escoamento direto, a infiltração dessa água da chuva. “Precisamos levar em consideração soluções baseadas na natureza, como jardins filtrantes”, afirma a especialista, citando o exemplo de Curitiba, em que há parques que já são projetados com bolsões de drenagem.

    Na maioria das cidades, as inundações se somam a outra tragédia: os baixos percentuais de coleta e tratamento de esgoto. O esgoto bruto se mistura com a água da chuva, completando o desastre.

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    Doenças como a leptospirose têm aumentado nos últimos anos e se tornado epidêmicas em períodos chuvosos, principalmente nas capitais e áreas metropolitanas. Em 2024, foram registrados 4.142 casos, mais que o dobro de 2021 (1.804), de acordo com os últimos dados consolidados do Ministério da Saúde.

    FALÊNCIA HÍDRICA

    Além de mortes, doenças e transtorno nas cidades, as inundações causam, muitas vezes, rompimento de adutores, interrompendo também o abastecimento de água.

    Com as mudanças climáticas, há ainda outro fenômeno perverso: mais tempestades e menos daquelas chuvas perenes, que garantem no dia a dia a sustentabilidade da bacia hidrográfica.

    “A tendência é termos restrição de oferta de água de 3,4% na média do ano. Está diminuindo o volume médio de água dos nossos rios”, alerta a especialista, citando outro levantamento feito pelo instituto, no final de 2025.

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    Segundo relatório lançado em janeiro de 2026 pelo Instituto para Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas, o abastecimento de água entrou numa era de falência, após décadas de uso excessivo, poluição e perturbações causadas pelas mudanças climáticas. Usando analogias financeiras, o relatório afirma que muitas sociedades não só gastaram em excesso sua renda anual de água renovável como também esgotaram suas reservas de longo prazo.

    RACIONAMENTO DE ÁGUA PODE SUPERAR 30 DIAS

    No Brasil, o cenário é cada vez mais crítico, avalia Luana Pretto. De um lado, inundação com chuvas torrenciais. De outro, a falta de chuvas perenes que acaba gerando dificuldades de abastecimento.

    O avanço das temperaturas e a redução do número de dias de chuva tendem a intensificar a aridez de diversas regiões. Na média das cidades brasileiras, o racionamento deve chegar a 12 dias por ano. Em regiões onde o número de dias de chuva já é menor, como em partes do Nordeste e do Centro Oeste, espera-se que os racionamentos superarão 30 dias, com consequências graves para a saúde e a qualidade de vida da população.

    ELEIÇÕES 2026

    Estamos na metade do prazo de universalização do saneamento básico previsto no Marco Legal para 2033. Vai dar tempo? Depende. Como tudo no Brasil, o saneamento também é desigual. A situação varia muito de região para região e de estado para estado. “Temos estados, como São Paulo, onde a meta é antecipar a universalização, e estados como Piauí e Pará, em que a meta já está para 2040 porque, como prevê a lei, não há capacidade financeira para que aconteça antes disso”, diz a presidente do Instituto Trata Brasil.

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    Para Luana Pretto, é importante que deputados e senadores assumam já nas suas campanhas deste ano o compromisso de não postergar o prazo da universalização. “Temos que fazer cumprir essa meta e aplicar penalização a quem não se mexeu até agora. Se deixarmos postergar, a lei vai cair em descrédito total”, avalia.

    No que diz respeito ao governo federal, a cobrança deve ser por recursos, especialmente para áreas vulneráveis e para áreas rurais. “Temos que pensar em subsídios para isso também. Há locais que são muito pobres e que, se não houver subsídio, o saneamento não vai acontecer”, analisa a especialista, lembrando a importância que o programa de cisternas teve no acesso à água no semiárido, no início dos anos 2000.

    Em relação aos governos estaduais, a principal reivindicação deve ser um plano de governo que coloque o cumprimento do Marco Legal como meta. “É o mínimo”, diz Luana Pretto. Para isso, o plano de governo deve ter metas intermediárias e final, além de avaliar a capacidade econômico-financeira.

    Dada a urgência do tema, as eleições deste ano serão cruciais para o cumprimento ou não do Marco. Uma demanda que deve estar no topo das preocupações do eleitor e pautar também os debates eleitorais.

    Jornalista e diretora da Cross Content Comunicação. Há mais de três décadas escreve sobre temas como educação, direitos da infância e da adolescência, direitos da mulher e terceiro setor. Com mais de uma dezena de prêmios nacionais e internacionais, já publicou diversos livros sobre educação, trabalho infantil, violência contra a mulher e direitos humanos. Siga a colunista no Instagram.

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