O crescimento do crime organizado e o seu impacto nos jovens e no país
O país tem hoje 88 facções criminosas, que impactam desde o comportamento da juventude até a economia formal

No final de semana, maratonei a aclamada série britânica Adolescência, exibida pela Netflix, uma das produções mais fortes que já assisti. Adolescência aborda as consequências avassaladoras que as redes sociais podem ter nos adolescentes e de como os seus emojis e linguagem cheios de significado acabam impactando no seu comportamento a ponto de provocar uma tragédia.
No Brasil, soma-se a isso um outro submundo que também está corroendo as instituições e mudando a cultura e o comportamento dos jovens: o crime organizado. Embora estejamos falando de fenômenos e escalas diferentes, as facções também têm levado a impactos comportamentais importantes, especialmente entre as populações mais vulnerabilizadas. E, a exemplo do que acontece com as redes sociais, também estão passando despercebidos por nós.
FACÇÕES INFLUENCIAM A CULTURA E O COMPORTAMENTO
“Essas organizações têm se caracterizado por fazer uma espécie de simbiose com a cultura”, alerta David Marques, coordenador de projetos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em entrevista à coluna. As facções, segundo ele, passam, muitas vezes, a controlar e a determinar o que se pode e o que não se pode fazer nos territórios, de que forma as pessoas devem se vestir, se portar ou lidar com determinadas situações que vão exercer cada vez mais uma influência sobre a juventude.
Em algumas comunidades, há relatos de proibição de cultos afro, como o candomblé, e mesmo de roupas brancas pelas facções. “Há uma série de elementos, que são elementos culturais e sociais [como gestos e tatuagens] que passam a ser influenciados pela existência dessas organizações no território e acabam influenciando diretamente a vida das populações que são residentes nessas áreas”, diz o especialista.
Na coluna de 4 de fevereiro deste ano, falei de como a ampliação da presença do crime organizado na região da Amazônia brasileira impactou tanto a violência urbana quanto a de gênero, aumentando os crimes contra a mulher.
David Marques lembrou à coluna do homicídio de um jovem de 20 anos, ocorrido em fevereiro no Amazonas. O rapaz foi morto em uma comunidade em Manaus após ter tirado uma foto na qual faz um gesto que os criminosos interpretaram como um sinal de uma facção rival. Mais um desdobramento dramático desse fenômeno.
Atualmente, ao menos 23,5 milhões de pessoas – mais de um a cada dez habitantes do país – vivem em áreas com a presença de facções criminosas ou milícias, segundo estimativas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. De acordo com o Ministério da Justiça e Segurança Pública, o Brasil tem 88 facções criminosas, cujo impactos e riscos vão além da cultura e do comportamento dos jovens.
A EXPANSÃO DE MERCADOS DO CRIME ORGANIZADO
Num estudo recente, divulgado em fevereiro deste ano, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública mapeou, pela primeira vez, o impacto econômico do crime organizado no país. Intitulado Rastreamento de Produtos e Enfrentamento ao Crime Organizado no Brasil, o estudo apresenta um diagnóstico da contaminação da economia formal pelas facções.
Segundo estimativas da pesquisa, considerando os mercados ilegais de ouro, bebidas, combustíveis e lubrificantes, e o de tabaco/cigarros o crime organizado movimentou R$146,8 bilhões anualmente a partir de 2022
Os crimes virtuais e os furtos de celulares geraram uma receita ainda maior para o crime organizado: R$186 bilhões, de julho de 2023 até julho de 2024. Já a receita com o tráfico de cocaína fica na casa dos R$ 15 bilhões.
“O Brasil tem uma posição estratégica nessa cadeia transnacional da droga e um mercado consumidor muito grande”, pontua o especialista. “Com o acúmulo de capital, a diversificação das estratégias de lavagem de dinheiro passa a ser necessária e essas organizações também diversificam as suas atividades criminosas em direção a mercado específicos”, explica.
De forma geral, essas atividades ilícitas se entrelaçam e formam um ecossistema que ultrapassa o narcotráfico e o contrabando tradicionais. “Existem ganhos muito significativos com relação a esses outros mercados, com um risco mais baixo de prisão e de responsabilização”, aponta David Marques. Segundo ele, contrabando de cigarro e venda ilegal de ouro e de bebidas, por exemplo, ainda ocupam um espaço menor na agenda de trabalho das instituições de controle do que o tráfico de drogas.
RISCOS PARA O MERCADO FORMAL E PARA AS INSTITUIÇÕES
O crescente poderio econômico dessas facções cria riscos importantes para o mercado formal e para as instituições de forma geral. “Essas organizações não vão recolher impostos e ameaçam, inclusive a existência de empresas legalizadas nos mercados em que elas atuam”, diz Marques, que também chama a atenção para o poder econômico “potencialmente corruptivo” de instituições, como prefeituras. Essas organizações criminosas, muitas vezes, conseguem, segundo ele, alcançar contratos públicos, como já vem sendo investigado e denunciado pelo Ministério Público em diversas cidades.
Outros perigos iminentes da expansão do crime organizado apontados por ele são o controle territorial sobre produtos e serviços, como fornecimento de internet ou energia, e o potencial empregatício dessas facções, principalmente das camadas mais jovens e mais pobres da população que “muitas vezes são levadas e empurradas a fazer parte desse tipo de dinâmica criminal”.
Segundo o relatório, esses grupos financiam suas operações ilegais enquanto consolidam domínio político e econômico local. Em áreas com baixo controle estatal, monopolizam serviços essenciais, como transporte e segurança, ampliando ainda mais sua influência.
Na Amazônia, em que número de cidades com a presença de facções criminosas cresceu 46% entre 2023 e 2024, segundo estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o crime organizado tem avançado em territórios indígenas e quilombolas, colocando, de acordo com o especialista, “pressão nas populações mais vulnerabilizadas, como jovens indígenas e quilombolas, para ingressar nessas facções”.
Para se ter uma ideia do tamanho do potencial econômico dessas organizações, hoje, 40% do mercado de cigarros no Brasil é composto por produtos ilegais, o que gerou, em 11 anos, um prejuízo fiscal estimado pelos pesquisadores em R$94,4 bilhões. Em relação aos combustíveis, as fraudes no setor geram perdas fiscais de até R$ 23 bilhões anuais, com 13 bilhões de litros comercializados ilegalmente em 2022 – suficientes para abastecer toda a frota do Brasil por três semanas.
Para o especialista, a solução passa pela qualificação do ambiente prisional brasileiro, que tem sido o berço dessas organizações criminosas desde os anos 1970. Outro ponto importante citado por ele é uma estrutura de governança que reúna diversos setores, incluindo segurança pública, sistema de justiça, saúde, meio ambiente, Receita Federal, COAF, Casa da Moeda, entre outros, num enfrentamento com perspectiva mais nacional. Também é necessário aumentar o nível de controle e rastreamento de produtos para garantir que o produto que está chegando na mão do consumidor é de origem legal, lícita.
Além de maior articulação entre agências públicas e de Estado, as soluções propostas pelo estudo incluem ainda a criação de sistemas integrados de monitoramento, e o fortalecimento da governança interinstitucional no campo da fiscalização, regulação, segurança, justiça e defesa nacional.
No México, o crime organizado já é o maior empregador do país. No Brasil, o aumento do poderio econômico e social dessas organizações, especialmente na Amazônia, preocupa os especialistas.
“Os índices de desenvolvimento socioeconômico da região são consideravelmente mais baixos do que no restante do país, o que torna a intensificação da presença do crime organizado e do narcotráfico na região mais significativo e um risco maior para a juventude”, avalia o especialista.
Não há, como vimos, soluções simples e rápidas para enfrentar esse problema e, infelizmente, segundo David Marques, a resposta do Estado brasileiro tem sido, historicamente, esse enfrentamento militarizado e bélico das organizações criminosas que só fazem crescer e multiplicar.
* Jornalista e diretora da Cross Content Comunicação. Há mais de três décadas escreve sobre temas como educação, direitos da infância e da adolescência, direitos da mulher e terceiro setor. Com mais de uma dezena de prêmios nacionais e internacionais, já publicou diversos livros sobre educação, trabalho infantil, violência contra a mulher e direitos humanos.