O impacto ambiental e social do fast fashion
O consumo desenfreado traz consigo fortes impactos socioambientais negativos, com grandes prejuízos para o planeta

No final do ano passado, assisti ao Os sonhos de Pepe, sobre o ex-presidente uruguaio Pepe Mujica. É um documentário que vale muito a pena ser visto, especialmente pela reflexão que traz sobre esse modelo destrutivo atual de desenvolvimento e consumo. No filme, dirigido pelo cineasta uruguaio Pablo Trobo, Pepe reflete menos sobre política e a sua trajetória e mais sobre o consumo excessivo e o seu impacto na vida das pessoas e do planeta. Segundo ele, no Uruguai, um país com 3,5 milhões de pessoas, são importados anualmente 27 milhões de pares de calçados. Quem precisa de tanto sapato? O que estamos fazendo com o planeta? E com as nossas vidas?
“Inventamos uma montanha de consumo supérfluo, e é preciso jogar fora e viver comprando e jogando fora. E o que estamos gastando é tempo de vida”, resume Pepe, em Human, uma coletânea de vídeos disponível na internet.
Hoje, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), a média de consumo de roupas por pessoa é 60% maior que 15 anos atrás e cada peça dura a metade do tempo que costumava durar no passado.
Seja no Uruguai, seja no Brasil, a lógica do fast fashion incentiva essa cultura de hiperconsumo e descarte, elementos incompatíveis com o futuro do meio ambiente. Um tema polêmico que gera discussões cada vez mais necessárias e literalmente acaloradas.
Segundo o primeiro número da revista ESG Insights, lançada hoje (25/2) pela Cross Content Comunicação, o consumo desenfreado muitas vezes traz consigo fortes impactos socioambientais negativos, que acompanham todos os passos da cadeia de produção e consumo. Deixa um rastro de poluição associado à fabricação e ao tingimento dos tecidos. Subjuga trabalhadores em condições precárias e subumanas. E se consuma na difícil tarefa de lidar com tantos resíduos – comumente, roupas com pouco uso desprezadas pelos clientes sedentos de novidades; outras tantas, peças que vão diretamente para o descarte, por conta de excesso de estoque não vendido.
PLANETA EM RISCO
A indústria da moda é a segunda mais poluente do mundo, apenas atrás da indústria petrolífera. Todos os anos 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis são produzidos globalmente, segundo a pesquisa Pulse of The Fashion Industry, da Global Fashion Agenda e do The Boston Consulting Group.
A produção de roupas gera entre 2% e 8% do volume global de emissões de carbono. Já o tingimento têxtil é o maior poluidor de fontes de água do mundo, segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).
“Um panorama que se complica cada vez mais com a intensificação de modelos como o fast fashion e o ultra fast fashion”, aponta a jornalista Bárbara Vetos na revista. “Produção em excesso, consumo acelerado, baixa qualidade e exploração da mão de obra. O resultado: descarte indevido e comprometimento do meio ambiente.”
Na dinâmica do fast fashion, as roupas beiram o descartável. As coleções são lançadas quase diariamente e as peças são substituídas a todo momento. Segundo levantamento da empresa de software de varejo norte-americana ShareCloth, a indústria de moda produz 150 bilhões de peças anualmente em todo o mundo. Pelo menos 30% delas jamais serão vendidas – sendo incineradas ou descartadas de outras formas indevidas.
O Atacama é um dos principais símbolos do descarte incorreto de roupas. Ao longo dos últimos 15 anos, o deserto, um dos principais cartões-postais do Chile, tem sido alvo de degradações ambientais e acumula cerca de 60 mil toneladas de resíduos têxteis todos os anos. A montanha de roupas ocupa 300 hectares da região. É tão grande que pode ser vista do espaço. O lugar é considerado um cemitério a céu aberto, com peças vindas dos Estados Unidos, da Europa e da Ásia.
Segundo dados da revista, disponibilizada gratuitamente no site ESG Insights (o primeiro site brasileiro dedicado ao tema), de 15 setembro de 2017 a 21 de fevereiro de 2025, mais de 90 mil toneladas de resquícios têxteis foram acumulados nos aterros sanitários, apenas na cidade de São Paulo. O cálculo é atualizado semanalmente pelo residômetro têxtil, do Instituto Sustentabilidade Têxtil e Moda (Sustexmoda). No Brasil, só 20% das 170 mil toneladas de roupas produzidas anualmente são recicladas ou reaproveitadas, estima o guia prático Moda sustentável, do Sebrae.
TRABALHO ESCRAVO
Além do impacto no meio ambiente, outro lado sombrio dessa moda é a exploração da mão de obra, que, para dar lucro, precisa produzir muitas peças em pouco tempo. De acordo com dados do Dossiê Escravo, nem pensar! – trabalho escravo e migração internacional (Repórter Brasil, 2024), de 2010 a 2023, 677 pessoas foram escravizadas no setor têxtil no Brasil – 472 estrangeiros e 205 brasileiros. A maioria em áreas urbanas, especialmente na cidade de São Paulo. Entre os estrangeiros resgatados do trabalho análogo à escravidão entre 2010 e 2023 a maioria é boliviano (43%), paraguaio (21%) e haitiano (16%). Em geral, eles não conhecem seus direitos e as leis que os protegem ou têm dificuldade de identificar aquela relação como análoga à escravidão.
Em menos de uma década o ESG, sigla em inglês que significa Ambiental, Social e Governança, foi de um tema que atraia a atenção de poucos para algo mainstream – e agora parece voltar a ser de interesse de apenas alguns, avalia a revista ESG Insights. Enquanto isso, o planeta esquenta… Na nova era Trump, o temor é que a tendência seja rapidamente descartada e lembrada como uma moda passageira. Todos nós temos muito a perder com isso.
* Jornalista e diretora da Cross Content Comunicação. Há mais de três décadas escreve sobre temas como educação, direitos da infância e da adolescência, direitos da mulher e terceiro setor. Com mais de uma dezena de prêmios nacionais e internacionais, já publicou diversos livros sobre educação, trabalho infantil, violência contra a mulher e direitos humanos.
A coluna não será publicada no dia 4/03/25, feriado de Carnaval. Voltará no dia 11/03.