O impacto da falta de investimento em educação profissional nos jovens
Enquanto a taxa de desemprego da população geral é de um dígito, a dos jovens há anos se arrasta nos dois. A formação para o trabalho é um dos gargalos

Nos últimos anos, as políticas públicas têm se voltado mais fortemente para o apoio à primeira infância, etapa que vai até os 6 anos. Um investimento, sem dúvida, indispensável, mas não suficiente para garantir um presente e um futuro melhor para o país.
Os jovens são hoje as principais vítimas de violência e os mais atingidos pelo desemprego. Dramas que já vêm cobrando o seu preço. Enquanto a taxa de desemprego da população de 30 a 59 anos é de um dígito (5,8%, em 2023), a dos jovens há anos se arrasta nos dois dígitos.
Dos 48,5 milhões de jovens de 15 a 29 anos, 30,9 milhões estão na força de trabalho. Destes, 11,9 milhões (38,5%) são informais, e outros 4,4 milhões (14,1%) estão desempregados. Um sinal de que as políticas públicas de educação, formação para o trabalho e inclusão produtiva não estão sendo suficientes para amparar essa parcela da população.
“O ensino médio não prepara para o mundo do trabalho e 80% dos jovens não vão para a universidade”, lamenta Ana Inoue, superintendente do Itaú Educação e Trabalho, em entrevista exclusiva à coluna.
A especialista critica a dissociação do ensino médio, última etapa universal do ensino, da educação técnica profissional e a falta de um itinerário formativo, que permita que os jovens sigam nas suas carreiras, optando – ou não – por entrar numa universidade. Inoue também defende uma articulação maior dos cursos técnicos com as universidades na composição desses itinerários formativos.
“Na Universidade Federal do Sul da Bahia, governo e secretaria da Educação oferecem um curso técnico de cacau e chocolate. Esse curso técnico tem continuidade dentro da universidade, que montou um curso superior [o Curso Superior de Tecnologia em Produção de Cacau e Chocolate] para acolher esses jovens que fizeram o curso técnico”, exemplifica.
Para a superintendente do Itaú Educação e Trabalho, “a educação profissional pode e deve ser entendida como um pedaço do desenvolvimento profissional das pessoas que precisa ter canais de continuidade porque o século 21 vai exigir isso”.
NÃO HÁ UMA AVALIAÇÃO REGULAR DE QUALIDADE DOS CURSOS TÉCNICOS
No Brasil, 11% dos estudantes com idade entre 15 e 24 anos fazem cursos profissionalizantes. Um percentual inferior à média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que varia de 35% entre os estudantes de 15 a 19 anos a 65% entre aqueles com 20 a 24 anos.
Relegada a um segundo plano, a educação profissional foi vista durante muito tempo como uma educação de segunda classe. Criada em 1909 pelo presidente Nilo Peçanha, as chamadas Escolas de Aprendizes Artífices nasceram para “habilitar os filhos dos desfavorecidos da fortuna com o indispensável preparo técnico e intelectual”.
Resquícios dessa visão ultrapassada permanecem ainda hoje, mas o cenário, felizmente, já começa a mudar. “A importância que a educação profissional está ganhando é recente”, afirma a especialista. Inoue cita a criação da Diretoria de Avaliação da Educação Profissional e Tecnológica do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), por meio de um decreto, em setembro de 2024, como um sinal importante dos novos tempos.
Com a criação dessa diretoria, teremos, segundo ela, dados objetivos como matrículas, cursos, vagas e também avaliações da qualidade da educação profissional no Brasil. Um universo complexo, composto de cursos técnicos de nível médio, regulamentados, e também por cursos de curta duração, não regulamentados, sobre os quais ainda não há informações oficiais.
Atualmente, de acordo com informação do Inep à coluna, “existem diversas avaliações organizadas e coordenadas pelas redes e instituições de educação profissional e tecnológica, mas ainda não há uma avaliação de qualidade dos cursos técnicos sistematizada e regular, organizada nacionalmente”.
Segundo o estudo O Futuro do Mundo do Trabalho para as Juventudes Brasileiras, de 2023, há falhas na formação dos jovens para o mundo do trabalho. Para a grande maioria das organizações questionadas (67,6%) faltam cursos de qualificação profissional e de formação adequados para o acesso dos diferentes perfis de jovens; 82,3% afirmam ainda que os empregadores não conseguem contratar jovens com as qualificações que necessitam para as vagas ofertadas.
O estudo também chama a atenção para a necessidade de promover formação em carreiras que tenham projeção de crescimento nos próximos anos, como as ligadas à economia verde ou à economia criativa.
Nos dias 19 e 20 de fevereiro, em São Paulo, o Itaú Educação e Trabalho vai realizar o evento Trampos do Futuro: arte, cultura e educação, cuja inscrição é gratuita. A ideia é discutir com os jovens as profissões do futuro e as formas que temos hoje de inserção e preparação para o mundo do trabalho, um cenário cheio de desafios, como as mudanças climáticas, eventos extremos e novas tecnologias.
“Oitenta por cento dos jovens não têm nenhuma política de formação profissional dedicada a eles. Precisamos pensar sobre qual deve ser essa política e as possibilidades”, diz Ana Inoue. Uma discussão, sem dúvida, urgente e necessária, que começa a ser feita agora no Brasil e deve incluir também as juventudes – no plural mesmo, dada a diversidade de vivências. É preciso correr. Estamos ainda muito atrasados.
* Jornalista e diretora da Cross Content Comunicação. Há mais de três décadas escreve sobre temas como educação, direitos da infância e da adolescência, direitos da mulher e terceiro setor. Com mais de uma dezena de prêmios nacionais e internacionais, já publicou diversos livros sobre educação, trabalho infantil, violência contra a mulher e direitos humanos.