Além do IMC: Estudo propõe reformular o diagnóstico da obesidade
Pesquisa 56 especialistas de diferentes áreas médicas e endossado por 75 organizações no mundo propõe novos critérios para reconhecimento da doença

De cada 100 adultos que formam a população global, 42 estão acima do peso — são quase 1,4 bilhão de pessoas que ultrapassaram o nível recomendável e mais 810 milhões que já estão obesas, de acordo com um levantamento de 2024 da ONG World Obesity Federation, baseado em dados de 2020. Dentro de dez anos, serão 54% do total, com impacto de 4 trilhões de dólares por ano, entre despesas com saúde e perda de produtividade. No Brasil, um estudo publicado no ano passado por um grupo de pesquisadores liderados por Eduardo Nilson, da Fundação Oswaldo Cruz, indica que atualmente 56% dos adultos estão acima do peso — em 2044 serão 75%, incluindo 83 milhões de obesos.
Ainda assim, o mais comum no ambiente médico é que a obesidade seja tratada como um fator secundário, capaz de desencadear outras doenças, como diabetes e hipertensão. E o diagnóstico costuma se apoiar basicamente em um indicador, o índice de massa corporal (IMC). No entanto, uma comissão de 56 pesquisadores se propõe a mudar radicalmente esse cenário, com a proposta de uma nova definição para a obesidade, que pode levar a diagnósticos mais precisos e tratamentos para as pessoas que já têm suas rotinas dificultadas pelo acúmulo de gordura no corpo.
Resultado de quatro anos de trabalhos, o artigo que consolida essa proposta foi publicado em março na revista The Lancet Diabetes & Endocrinology. E já conta com o endosso de 75 organizações médicas de referência global. Pode, inclusive, levar a ajustes nas estimativas do número de obesos, que atualmente também são baseadas no IMC. “O que propomos é uma definição que vai além da correlação entre peso e altura e permite priorizar os casos que devem ser tratados”, afirma o médico Ricardo Cohen, único brasileiro (e sul-americano) entre os coautores das definições.
“Agora, sugerimos diferenciar a obesidade pré-clínica, que representa um fator de risco mas ainda não compromete a rotina, da obesidade clínica, que precisa ser tratada de imediato”, diz Cohen. Ele tem mais de 10 000 cirurgias no currículo e é presidente mundial da Federação Internacional de Cirurgia da Obesidade e Distúrbios Metabólicos, além de coordenador do Centro de Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, de São Paulo.
Doença crônica
A proposta do comitê de pesquisadores é utilizar o IMC como ferramenta de triagem, somada a outros critérios, como a medição da circunferência da cintura, a relação entre a cintura e o quadril e entre a cintura e a altura, além do cálculo direto da gordura corporal, realizado por meio de exames de densitometria óssea, capaz de apontar desequilíbrios na distribuição de massas gordurosas — e, assim, apontar fatores de risco, como o acúmulo de gordura em torno de órgãos cruciais para a saúde, como fígado, coração ou pulmões.
A pesquisa recém-publicada também lista dezoito sintomas capazes de apoiar a identificação de casos de obesidade clínica — entre eles, falta de ar, insuficiência cardíaca, dor nos joelhos ou nos quadris e dificuldade para urinar. Assim, é possível apontar os casos em que o excesso de peso representa um risco real para a saúde e já compromete atividades diárias básicas, como tomar banho, vestir-se ou dormir.

As pessoas que recebem esse diagnóstico passariam então a ser consideradas portadoras de uma doença crônica. Como explica Cohen, trata-se de uma mudança de abordagem importante. “Até agora, a obesidade era considerada um fator de risco modificável. Há um grande estigma sobre a doença, como se a pessoa tivesse culpa de estar acima do peso.”
Tratamentos não faltam. Segundo Cohen, a recomendação “se mexa mais e coma menos” não se aplica, sozinha, a quem já tem obesidade clínica. Aliás, todos precisam fazer atividade física e se alimentar bem, independentemente do peso. “Para os doentes diagnosticados, existem recursos mais eficientes, dos novos medicamentos injetáveis à cirurgia bariátrica. E há mais de trinta novas opções em desenvolvimento.”
Publicado em VEJA, março de 2025, edição VEJA Negócios nº 12