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Coluna da Lucilia

Por Lucilia Diniz Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Um espaço para discutir bem estar, alimentação saudável e inovação

A delicada arte da troca

Nesse exercício contínuo e inevitável, cedemos e ganhamos

Por Lucilia Diniz Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 25 jul 2025, 06h00 • Atualizado em 25 jul 2025, 14h55
  • De repente, uma palavra tomou conta do noticiário e das conversas: negociação. Ao impor tarifas que estremeceram relações comerciais em todo o planeta, o presidente Donald Trump trouxe à tona um conceito tão antigo quanto fundamental para a vida humana. Embora agora esteja em evidência por causa dessa questão diplomática global, negociar é um exercício contínuo e inevitável para todos nós.

    Aliás, a origem do termo já indica sua importância. “Negócio” vem do latim nec otium — que significa literalmente “não ócio”. Ou seja, negociar é aquilo que nós, assim como os antigos romanos, fazemos quando não estamos descansando ou contemplando a vida e o mundo das ideias, mas atuando na esfera prática, por meio de algum intercâmbio — de bens, valores, favores. Sem negociação não existe horizonte possível para resolver a vida cotidiana.

    Nem tudo são flores no ato de negociar. Em determinadas situações, uma mesa em que se debate um acordo pode parecer mais com um encontro entre pessoas que falam línguas desconhecidas sem o auxílio de um intérprete. Quando falta a habilidade de entender as motivações e os desejos nas entrelinhas e a disposição para escutar o outro e construir pontes, é impossível avançar.

    De fato, os romanos tinham razão. É preciso “negar o ócio”: o sucesso vem da dedicação ativa e contínua. É verdade que existem pessoas com um talento nato para negociar, capazes de “vender gelo a esquimó”. Cresci em uma casa cheia delas. Como a mais nova de seis irmãos, tive tempo para observar, no cotidiano, as negociações que se desenrolavam no ambiente familiar — e, também, as que os mais velhos iam desenvolvendo profissionalmente.

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    Os que não nascem com essa capacidade muitas vezes a adquirem ao longo da vida, seguindo o exemplo de grandes homens de negócios, sejam eles pessoas próximas ou figuras públicas. Outros, no entanto, mesmo a duras penas nunca chegam lá. Isso pode ser um problema, pois para tudo é preciso ter jogo de cintura.

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    “Sem negociação não existe horizonte possível para resolver a vida cotidiana”

    Quem convive no meio empresarial tem a oportunidade de receber lições diárias de negociação. Mas negociar vai muito além do universo comercial: é um componente essencial na rota para o equilíbrio emocional e físico.

    Estamos sempre negociando alguma coisa com nós mesmos, seja na hora de decidir entre um momento de descanso e um compromisso afetivo, seja quando buscamos harmonia entre o prazer à mesa e os exercícios que queimam as calorias.

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    A negociação é uma prática diária também no âmbito familiar; por meio dela, definimos desde responsabilidades domésticas até limites com os filhos ou netos. Curiosamente, quando envolve crianças, quase sempre cedemos um pouco mais, fazendo vista grossa. É o afeto negociando espaço com a disciplina.

    Certa mesmo é uma coisa: não há trégua. Passamos a vida aprendendo e reaprendendo a arte delicada da troca. Cedemos aqui para ganhar ali. E é justamente nesse vaivém que descobrimos um dos segredos mais valiosos do bem-­estar: o equilíbrio da balança. Afinal, negociar bem não é apenas alcançar o que se quer, mas conquistar paz com o que se deixa pelo caminho.

    Publicado em VEJA de 25 de julho de 2025, edição nº 2954

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