
Olhe ao redor. Quantas coisas ao alcance da sua vista são 100% naturais? Mesmo sem saber o cenário exato de onde cada um me lê, acho bem provável que quase tudo à sua volta tenha algum traço da mão do homem. Para sobreviver, o homem precisou entender a natureza — e se entender com ela.
Vivemos uma aparente contradição. Apreciamos a tecnologia e dependemos de seus avanços. Ao mesmo tempo — e talvez por isso mesmo —, poucos resistem ao apelo de que “natural” seja bom, enquanto o produzido pelo homem é visto como perigoso. Mas será que existe mesmo um contraste entre o que é supostamente primitivo e puro e o que é elaborado e sintético?
Hoje parece inquietante que tenhamos carne cultivada em laboratório, frangos e bovinos geneticamente modificados, milho híbrido para resistir a pragas e outras intervenções feitas para aumentar a produtividade e satisfazer as demandas de um mundo em constante crescimento. Mas vale lembrar que essas inovações não brotaram do nada. Elas são decorrentes da evolução de nossa relação com a natureza.
Há milênios agimos sobre os produtos de origem natural. Antes de todas essas novidades, domesticamos vegetais com cruzamentos e enxertos sucessivos, para melhorar seu sabor e sua resistência: a abobrinha, o tomate e diversas outras plantas em seu estado selvagem eram bem diferentes.
A ciência, aliás, não só modifica a natureza, mas se vale dela. Vêm do mundo natural muitos ativos que utilizamos em medicamentos comerciais. O Ozempic, por exemplo, foi desenvolvido a partir do estudo do veneno do lagarto chamado monstro-de-gila. Os cientistas descobriram nele um hormônio capaz de tornar a digestão mais lenta, permitindo ao réptil ficar longos períodos sem comer.
“Será que existe mesmo um contraste entre o que é primitivo e puro e o que é elaborado e sintético?”
Por outro lado, fontes bem menos exóticas podem fornecer substâncias potencialmente letais, a depender da dose. É o caso do cianeto, presente em sementes de algumas frutas. É claro que ninguém vai se intoxicar por mordiscar o caroço de um pêssego. Mas menciono esse fato como um lembrete de que nem tudo o que é natural é intrinsecamente bom.
Essa crença é muito arraigada e, com base nela, muitos defendem uma volta a práticas ancestrais de saúde e bem-estar. Embora várias delas de fato reflitam sabedorias valiosas, nem sempre “antigo” equivale a “melhor”. Vale lembrar que surgiram em contextos de vida e medicina muito precários, nos quais a explicação do mundo passava em grande medida pelo sobrenatural. É quase impensável (embora aconteça) defender hábitos vindos de tempos nos quais a expectativa de vida não se aproximava nem remotamente da nossa.
Muitos querem acreditar numa natureza intocada que nos dá tudo quanto precisamos. Quando lemos em um rótulo termos como “livre de química”, pensamos estar seguros e conectados outra vez a esse suposto estado essencial. Mas, pondo os fatos em perspectiva, fica bastante claro que os benefícios para a saúde não estão esperando para ser colhidos na floresta ou no pomar.
Talvez a ideia de uma natureza sempre boa venha do fato de ela não agir com segundas intenções — ela simplesmente é. Comparada às maquinações humanas, parece inocente. Esse é um falso contraste. Entendê-la, estudá-la, modificá-la e respeitá-la equivale a evolução. A natureza também se adapta e se defende, inclusive de nós.
Publicado em VEJA de 7 de março de 2025, edição nº 2934