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Ler uma poeta por dia é um excelente exercício mental

É o que recomendam as organizadoras da antologia 'Inesquecíveis', que reúne quatro séculos de produção de 30 autoras brasileiras

Por Diogo Sponchiato Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 6 mar 2026, 15h31 | Atualizado em 6 mar 2026, 18h23

Se não está fácil para os poetas hoje, imagine se você fosse mulher tentando publicar seus versos no patriarcal século XVIII. Pois no Brasil colônia havia damas costurando rimas e emendando sonetos, numa tradição antiga que, felizmente, as autoras brasileiras fizeram desabrochar ao lutar com a pena e o talento contra o preconceito e o machismo nas letras. Cedo ou tarde, elas furaram bolhas, cânones, movimentos… E chegaram às páginas encantando e provocando velhas e novas gerações.

É esse passeio histórico pela produção de poetas brasileiras que podemos realizar com a antologia Inesquecíveis, das também poetas e pesquisadoras Ana Rüsche e Lubi Prates. Publicada pela editora Bazar do Tempo, a obra reúne 30 nomes – da setecentista Ângela do Amaral Rangel à nossa contemporânea Micheliny Verunschk.

Dividido em quatro partes, do Brasil colônia à safra de autoras nascidas de 1940 a 1970, o livro traz um panorama de apresentações e contextualizações antes dos poemas selecionados por período. Seus versos percorrem do louvor da pátria e da educação cristã até a quebra de tabus e fronteiras (da métrica, do corpo…), passando pelo luto e pela luta – dos negros contra os grilhões, das mulheres contra as opressões. Trajeto que revela, nas (entre)linhas, as causas, as dores e os sonhos abraçados pelas poetas no decorrer do tempo.

Na leitura, conhecemos gente de nome obscuro, como as precursoras Ângela Rangel e Beatriz Brandão, revemos autoras hoje reverenciadas, como Pagu e Conceição Evaristo, e somos enredados nos versos de Eliane Potiguara e Micheliny Verunschk, premiada pernambucana que, julgo eu, fecha com potência e brilho a obra.

De novo fortes para a luta, evocando Narcisa Amália, outra integrante da antologia recitada pelas organizadoras do volume, as poetas se sucedem fazendo história, antes tarde do que nunca. E legando a oportunidade de nós, leitoras e leitores, realizarmos, poema a poema, um “excelente exercício mental”.

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Com a palavra, Ana Rüsche e Lubi Prates.

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Ana Rüsche, co-organizadora da antologia (Foto: Luiza Sigulem/Reprodução)

Há uma mensagem ou um tema de fundo a unir todos os poemas coligidos no livro? O tema de fundo do livro é a longevidade dessa tradição, a da poesia feita por mulheres. O senso comum indicaria que nem existiria essa produção toda, mas, se formos pesquisar, é uma produção antiga e consistente, dentro das especificidades de cada momento histórico.

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Como vocês mesmas observam, toda antologia é marcada também por suas ausências… Por que julgaram melhor não incluir autoras mais famosas, como Cecília Meireles e Adélia Prado? O livro divide-se em quatro partes. Na primeira, “Nascidas no Brasil Colônia”, incluímos as poetas que localizamos. Mas, quando nos aproximamos do presente, a partir do século XX, quando há um salto no número de publicações, preferimos escolher poetas cuja obra é menos referenciada em livros de história da literatura brasileira — como seria o caso das mais conhecidas Ana Cristina César, Adélia Prado, Cecília Meireles e Hilda Hilst. No caso das contemporaníssimas, como as premiadas Claudia Roquette-Pinto e Micheliny Verunschk, foram incluídas por terem conseguido furar as antologias de virada de século, com preponderância masculina, um fato notório da época.

Gostariam de ter incluído mais alguma na antologia? Nós fechamos o livro com um convite: se esquecemos alguma poeta, “por favor, celebre esse nome. Inesquecíveis são todas as mulheres que produzem poesia e fazem nosso coração vibrar”.

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Lubi Prates, que também assina a organização do livro (Foto: Douglas Santiago/Reprodução)
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Sabemos que há fatores subjetivos por trás das escolhas dos poemas – alguns “batem” mais fundo do que outros, não? Que elemento é esse que faz um poema nos fisgar? No caso das poetas mais antigas, incluímos os poemas que chegaram com melhor qualidade aos dias atuais — nem toda produção está organizada, devemos ao trabalho incansável de historiadoras e outras pesquisadoras de literatura essas reuniões. Assim, o critério foi relativamente objetivo. Particularmente nos fisgam poemas com ironia ou com imagens bem construídas. Há muitos no livro e esperamos que brilhem nos olhos de leitores.

Se tivessem que escolher um verso ou poema do livro para sintetizar a antologia, qual seria? “E eis-me de novo forte para a luta”, de Narcisa Amália. É um verso que traduz esse persistente trabalho, que vem de longe e aponta para o futuro.

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Levantamentos vêm mostrando que o desafio da leitura continua árduo no Brasil. Particularmente para a literatura… A poesia sofre mais com isso? Como as poetas podem virar o jogo? A poesia, por ser uma arte da contemplação do mundo e dos jogos de linguagem, talvez possa contribuir com as velhas promessas de ano novo, como “ficar longe das redes” ou “se afastar do celular”. Ler um poema por dia é um excelente exercício mental. Assim, quem sabe nossas escritoras, diretamente desse túnel do tempo, não ajudam em algo?

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