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Memórias que vêm e vão (e vão e vêm): uma neta, uma avó e o Alzheimer

Escritora e pesquisadora recria em livro relação com a avó diagnosticada com a doença, expondo feridas e afetos que migram entre o passado e o presente

Por Diogo Sponchiato Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO Atualizado em 14 ago 2025, 19h55 - Publicado em 14 ago 2025, 16h41

“Não me parece que estou narrando a perda da memória da avó, mas sim as minhas próprias memórias, exaltadas, iluminadas como se estivessem num palco, frente ao progressivo desaparecimento das delas”.

O fragmento, extraído do livro Coisas Presentes Demais, da mineira Flávia Péret, sintetiza bem a experiência de lidar com um familiar diagnosticado com Alzheimer – e seu próprio trabalho de transpor essa vivência para a literatura. A obra, recém-publicada pela Relicário Edições, retrata, na conversão de lembranças em palavras, o reencontro entre uma neta e sua avó.

Mas não espere um reencontro típico de contos de fadas, entoados no colo de matriarcas carinhosas. Nos capítulos-fragmentos, que espelham, de certo modo, a memória corroída e fracionada da avó, conhecemos uma mulher vaidosa e irredutível e a neta que não se enquadra no que ela espera. Uma relação que, por meio do fazer literário, ganha novos significados e afetos.

Coisas presentes demais

livro-coisas-presentes-demais

A escritora, pesquisadora e professora de escrita criativa perambula pelo corredor que a leva da vida adulta à infância – e, no sentido oposto, volta a ver a avó, em outro figurino e enquadramento, nas visitas a uma instituição de longa permanência. Não é a cuidadora, com uma (sobre)carga diferente de desafios, mas alguém que vê seu “desaparecimento” da mente da avó ao mesmo tempo em que sente emergir episódios, gestos, imagens, emoções que deixaram marcas em suas próprias conexões cerebrais.

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Entre a lembrança e o esquecimento – e entre o esquecimento e a lembrança -, há toda uma vida. Ou melhor, vidas.

Com a palavra, Flávia Péret.

Considera que o livro traz, de certa forma, um acerto de contas ou uma espécie de redenção entre a sua história e a de sua avó?Não sei se existe uma redenção ou um acerto de contas. O que acho que o livro produz – com sua narrativa fragmentada – é um encontro. O encontro entre essas duas mulheres, uma avó e uma neta. Mulheres que são muito diferentes em vários aspectos, alguns deles irreconciliáveis, e esse encontro, que parecia improvável, no entanto, acontece. A escrita, como uma doce armadilha, permite esse reencontro. Ela produz um lugar onde a neta pode, enfim, amar a avó.

Pela sua experiência, qual é o aspecto mais desafiador da doença de Alzheimer?
Para responder a sua pergunta, preciso antes fazer algumas ressalvas que considero importantes. A doença de Alzheimer apresenta muitos aspectos desafiadores para quem a vivencia e para a família. Posso falar um pouco sobre essa segunda parte, os familiares, e, mesmo assim, a minha experiência é a experiência de alguém que nunca viveu cotidianamente com a presença da doença. Acho muito importante marcar essa diferença, porque sei, por relatos de amigas que vivem na mesma casa com um familiar que tem Alzheimer, que existe uma série de complexidades e desafios que eu desconheço, porque nunca vivi isso tão de perto. Alguns tempo depois de receber o diagnóstico, minha avó materna mudou-se para uma casa de repouso e lá recebe um tratamento maravilhoso.

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Dito isso, para mim, neta, o mais difícil foi e ainda é experimentar o meu próprio desaparecimento. Quando parte da história e das memórias de uma pessoa começa a se desfazer, sentimos que algo da nossa própria história também se perde. Toda relação humana, por mais superficial e breve que seja ou profunda e longa, parte do encontro de dois seres e do reconhecimento mútuo desses rostos e logo de uma identidade e de uma história. Nos vemos refletidos nos olhos das pessoas porque de fato as pessoas nos reconhecem e interagem a partir desse reconhecimento. Quando uma pessoa te olha e não mais te enxerga ou não enxerga a história em comum, o que acontece? O que fazer disso que resta e está desaparecendo? O que fazer quando você também vai se desfazendo?

Chegou a uma resposta?
Acho que isso pode provocar muita angústia e sofrimento. Eu não tenho a resposta e o meu livro foi escrito justamente para sondar um pouco essa pergunta: como encarar o vazio que se apresenta? O que ele fala sobre cada um dos envolvidos, quem tem o Alzheimer e quem vive, cuida, ama esta pessoa? O que fui descobrindo ao escrever – e, como escritora, isso faz muito sentido para mim – é que o Alzheimer pode provocar uma espécie de luto antecipado ou luto em vida, uma sensação de perda, de perda desse lugar de encontro. E, como qualquer outro luto, precisamos fazer algo com ele, algo com a ausência. Eu escrevi, inventei uma história, narrada em pedaços e retalhos de memória, que é um pouco a minha avó e muito uma invenção desta mulher.

Você reflete que, enquanto a memória de sua avó vai se apagando, parece que a sua ganha novos e vivos contornos. A que atribui isso?
Sim, é verdade. Atribuo ao processo de escrever. A escrita é feita basicamente de dois processos: imaginação e memória. Essas duas habilidades humanas, a de lembrar e a de imaginar fazem uma espécie de cópula, em determinado momento se tornam indistinguíveis, não se sabe mais o que é memória e o que é imaginação, porque elas se contaminam o tempo todo. E esse processo todo pra mim funciona como uma espécie de catalisador. Ao começar a escrever, ao direcionar meu pensamento (e também meu inconsciente e meu afeto) para a história dessa mulher, sou invadida pelas memórias, mas essas memórias são atravessadas pela imaginação.

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Fico sempre querendo explicar este processo em termos de uma imagem, e acho que o fragmento “Em estado de memória” do livro explica isso bem. É como se minhas memórias estivessem no centro de um palco, iluminadas, exaltadas. Não é a primeira vez que isso acontece comigo. Às vezes, o simples gesto de pegar um caderno e escrever na primeira página, no centro da folha, a palavra “avó”, “pai”, “Buenos Aires” dispara a produção de memórias. O que posso dizer que nossa cabeça é uma usina e não sabemos muito bem como ela funciona, mas algo surge do simples gesto de dizer em voz alta “Vou escrever”.

Sob a sua perspectiva, estamos preparados como sociedade a acolher pacientes de Alzheimer e seus familiares?
Infelizmente, acho que ainda não. Antes de começar a escrever o livro, eu tinha um completo desconhecimento sobre o assunto. Não sabia, por exemplo, como o diagnóstico da doença é algo muito lento e, até mesmo, frágil. Cheguei a escrever num dos fragmentos a expressão “Mal de Alzheimer,” mas uma amiga que leu o texto me corrigiu, dizendo que não se usa mais há algum tempo a expressão. É uma expressão pejorativa. É de fato um absurdo associar a palavra “mal” a uma doença. Este é apenas um exemplo da minha própria ignorância em relação ao assunto. Sinto que precisamos ler mais, conversar mais, e não transformar o Alzheimer em tabu, em algo que nos dá vergonha e que precisa ser escondido. Precisamos lidar com o assunto coletivamente.

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