O curioso encontro de um ex-escravo com vitiligo e Charles Darwin
Romance cruza os destinos de dois personagens reais nas ilhas de Cabo Verde, suscitando reflexões sobre como o ser humano lida com o outro e o desconhecido

Uma das mágicas da literatura é promover encontros possíveis no tempo e no espaço, mas que a realidade teimou em não viabilizar. Junte duas figuras singulares – cada uma a seu modo; uma mais, outra bem menos conhecida – e o momento histórico que compartilharam (sem saber uma da outra) numa praia de Cabo Verde e você embarcará nas páginas de Siríaco e Mister Charles, romance do escritor Joaquim Arena que venceu o Prêmio Oceanos em 2023 e agora é publicado no Brasil pela Gryphus Editora.
Nascido no arquipélago lusófono na costa africana e radicado em Portugal, Arena cruzou o destino de um escravo liberto oriundo do Brasil colônia e o do famoso autor de A Origem das Espécies em sua ilha natal. Poderia ter ocorrido e, se não aconteceu, por que não imaginar assim?
De um lado, Siríaco, um negro com a pele tigrada pelo vitiligo que chegou a acompanhar a corte da rainha Dona Maria (a futura “Louca”) numa época em que os “diferentes” viravam criaturas de estimação ou atrações de circo. Do outro, o jovem Darwin dando a volta pelo mundo a bordo do Beagle.
Origens tão distintas que irão confluir nas mesmas trilhas, ao menos na Cabo Verde do século XIX projetada pelo escritor, cuja natureza – e isso é um fato – encantou o faro científico de Darwin e, vez ou outra, acalentou os sonhos e as angústias de Siríaco e outros homens e mulheres que se tornaram peças no tabuleiro colonial português.
Siríaco e Mister Charles é um livro que nos provoca a pensar no que temos de comum e diverso em relação ao outro – e no que o ser humano é capaz de fazer com essa percepção, para o bem e para o mal. E ainda nos instiga a refletir sobre essa ânsia profunda da nossa espécie em desvendar o desconhecido. Seja na investigação de uma rocha ou de um animal, seja na leitura de mãos que uma cigana pode oferecer.
Com a palavra, Joaquim Arena.
De onde veio o insight para escrever o livro, cruzando os destinos de Siríaco e Darwin?
No final dos anos 1990, vi um livro do escritor inglês Bruce Chatwin, O Vice-Rei de Ajudá, cuja capa era o quadro do pintor da corte de D. Maria de Portugal A Mascarada Nupcial, onde estão retratados uns negros anões que tinham vindo da África Portuguesa. Entre eles estava um garoto negro com a pele manchada de branco, como onça-pintada, de nome Siríaco. Fora enviado do Brasil como prenda do governador da Bahia para a corte portuguesa. Na época, a corte mantinha figuras estranhas, bufões, que entretinham os nobres portugueses e de outras casas reais europeias.
Essa imagem do garoto ficou na minha memória e pensei que um dia gostaria de escrever algo sobre ele. Sempre tive essa atração por figuras que existiram e desapareceram sem deixar rastro, perguntando-me como teria sido a vida deles, o que fizeram, como viveram, quem foram suas famílias etc.
Quanto a Darwin, eu era conselheiro do presidente de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca, com quem fui trabalhar em 2017, depois de aceitar seu convite e deixar Lisboa e me instalar na cidade da Praia, em Cabo Verde. Todos os dias tínhamos audiência que o presidente concedia a várias pessoas. Como conselheiro, eu estava sempre presente no salão. E, como chegava sempre primeiro, ficava olhando a baía e o ilhéu de Santa Maria com curiosidade.
Eu acabava de descobrir que o jovem Charles Darwin também havia passado por Cabo Verde, na ilha de Santiago, e a tripulação do Beagle montara acampamento nesse mesmo ilhéu. Então, eu ficava olhando e imaginando esse grupo lá, nas tendas, e ele, jovem naturalista, colhendo amostras de animais marinhos e rochas que já começara a estudar e desenhar. Também pensei que daria uma boa história: reconstituir essa sua passagem por ali, algo muito pouco conhecido ou pesquisado pelos especialistas.
E aí eles se encontraram…
Então, uma manhã se fez luz, com uma ideia que me atravessou. Se Siríaco cresceu e foi educado na corte portuguesa, quando esta se mudou para o Rio, em 1807, o mais normal era ele também viajar com a família real. E, como a frota real parou uns dias ali naquela baía, para conserto das velas, imaginei Siríaco vindo a terra e conhecendo uma mulher cabo-verdiana, por quem se apaixonou. Decidiu deixar a família real e ficar em Santiago.
E assim cheguei rapidamente à outra ideia: se ele ficou por lá desde 1807, quando o jovem Charles Darwin passou pela região, em 1832, Siríaco seria um homem de 60 anos. E por que não eles se cruzarem na minha ficção? Aí o desenvolvimento foi rápido: Siríaco iria ser seu ajudante, enquanto o inglês permanecesse em Santiago. Essa foi a base para todo o resto.

A obra trata, entre outras coisas, de um fenômeno tantas vezes condenado: o uso de seres humanos como criaturas de estimação a serem exibidas nas cortes coloniais. Até que ponto, com o circo das redes sociais, superamos essa forma de lidar com “o outro”?
Lidar com “o outro” é uma questão que esteve sempre diante de homens e mulheres, desde tempos imemoriais. Um adágio berbere, do Norte de África, diz o seguinte: “Eu contra o meu irmão; eu e o meu irmão contra nosso primo; eu, o meu irmão e o nosso primo contra o estrangeiro”. Creio que o olhar face ao outro e as suas formas mais perversas farão sempre parte de nós, visto ser um reflexo da condição humana. E os populismos, que voltaram de novo e com força em nossas sociedades, acabam por recorrer à diabolização do “outro” para justificarem suas posições políticas.
Assim como no século XIX, os negros foram esvaziados da sua humanidade pelos teóricos do racismo científico europeu e americano, tudo com o objetivo de justificar a obra “humanizadora” do homem branco e a sua missão “civilizadora” na África obscura. Agora temos as redes sociais, que no fundo são também o reflexo da nossa psique, onde ainda cabe esse “circo”, prolongamento da ideia-espetáculo, que, na realidade, é uma versão mais atualizada do reality show, do Big Brother, do voyeurismo, do local onde despejamos tudo que produzimos, de bom e de mal. É a praça pública virtual. Por isso, não poderá ser muito diferente daquela que acompanha a humanidade desde que caminhamos sobre a Terra.
A natureza (de Cabo Verde) seria o terceiro grande personagem do livro, além de um ponto de encontro entre os saberes de Siríaco e a nova ciência de Darwin?
Podemos dizer que sim. Mas foi o próprio jovem Charles que promoveu essa natureza árida, ventosa e abandonada a um cenário de realização de suas experiências, naturais e humanas. Ele não humanizou a natureza da ilha cabo-verdiana. Ele se incorporou nela. Ao mesmo tempo que descobria seus habitantes, sua fala estranha e costumes remotos, ele se apaixonou pela ilha escalavrada, pelos sedimentos da rocha, pelas suas várias camadas que podiam ser lidas, como num livro aberto. Como se pela primeira vez essas rochas vulcânicas milenares tivessem, finalmente, encontrado quem as pudesse compreender, decifrar todos os seus segredos e a sua história antiquíssima e o porquê de sua existência.
“O esquecimento é um desejo de futuro”, diz a cigana a Siríaco. Até que ponto precisamos conciliar o esquecimento com os legados do passado para construir um futuro melhor?
Eu aqui penso que a cigana empurra Siríaco para a reconstrução da sua vida, para o preenchimento desse futuro que lhe irá trazer o equilíbrio. Mas aqui é também como se a cigana antecipasse a Siríaco as perdas e dores que o aguardavam, na vida ainda por chegar. No seu caso, o passado ainda está em pousio, ou seja, está numa camada subterrânea latente, aguardando a hora de sua manifestação efetiva e consequente. Tudo isso irá acontecer quando Siríaco, já velho, faz as contas com a vida que lhe coube. Uma vida improvável para alguém da sua condição.
Nisso, seu passado na fazenda de Princeza da Mata, em Sergipe d’El Rey, região na época ainda pertencente à Bahia, a sua vida como “coisa” renegada e permanentemente violentada, o irmão indesejado, o filho animalizado, mas que o destino empurra num sentido inimaginável, ocupará muito da sua reflexão, sobretudo para tentar compreender a sua passagem pela vida. De resto, ele não consegue esquecer os maus-tratos e o sofrimento, porque tudo isso é também carne da sua carne.
Voltando à pergunta, não sei se essa conciliação nos garante a construção de “um futuro melhor”. Penso que, se conseguirmos a nossa paz, independentemente da sua forma ou conteúdo, isso já será uma vitória. E, muitas vezes, essa paz nos vem misturada com as suas próprias matizes, seus sabores e tonalidades. A paz possível. E é com ela que temos de aprender a viver e encontrar aquilo que desejamos na vida.