O homem que botou a China no mapa da literatura global
Brasileiros têm a oportunidade de conhecer o gigante asiático pelos contos de Lu Xun, o pai da literatura chinesa moderna, que ganha nova e esmerada edição
Se o Brasil tem Machado de Assis, a China tem Lu Xun. Escritores que, de certo modo, inseriram seus respectivos países no cânone literário universal. E eu diria que, em alguns trechos de Grito, a coletânea de histórias do autor asiático recém-publicada pela Editora 34, sentimos ecos machadianos nos textos vertidos ao português na nova e deliciosa tradução do sinólogo Giorgio Sinedino.
Lu Xun (1881-1936) é considerado o pai da literatura chinesa moderna. É o homem que promoveu o encontro – e o confronto – entre um passado milenar e uma era que será marcada pela transição de um regime imperial para uma república popular. E também conectou, através das letras e das ideias em circulação, sua pátria ao restante do mundo – começando pelo Japão, margeando a Rússia, desdobrando-se pela Europa…
Nos “contos” de Grito, o leitor brasileiro será levado à zona rural e aos aglomerados urbanos de uma China em transformação. E será convidado a encontrar camponeses pobres, senhorios falidos, aspirantes a cargos da burocracia estatal, beberrões, lunáticos, curandeiros e gente que quer sobreviver e encontrar seu quinhão de felicidade – nem que seja em uma birita após o expediente.
Lu Xun fustiga os costumes e tradições de seu povo – das convenções de classe às prescrições da medicina ancestral chinesa –, mas faz questão de empregá-los como a rica matéria-prima de sua obra, que conjuga crônica social, ironia, humor e caricatura. “Não sou um comerciante de sedas raras e preciosas, mas empurro meu carrinho de leite de soja escrevendo na língua do povo, pobre língua falada, e não no idioma clássico dos tempos gloriosos da China”, anota o homem que registra a “Crônica Autêntica de Quequéu, um Chinês”, um dos saborosos textos do livro.
Aí que está: Lu Xun faz a literatura sair do paraíso celestial e travar contato com a terra, um palco não tão iluminado em que os atores encenam, na carne e na alma, comédias, tragédias e óperas rústicas entre o sonho e a realidade.
E, se nós, leitores do século XXI, podemos desfrutar dessas peças, com o devido entendimento do contexto em que foram produzidas, é preciso ressaltar o esmerado trabalho de Giorgio Sinedino, esse brasileiro que fala 12 idiomas, vive na China desde 2005 e é professor da Universidade de Macau.
Não só pela tradução, mas pelos ensaios que enriquecem a nova edição de Grito: eles esclarecem quem é o autor e de que forma se entrelaçam sua vida e obra, bem como os bastidores da conversão desses textos forjados em ideogramas para o nosso bom, velho e por vezes surpreendente português.
Ouçamos o Grito de Lu Xun, essa espécie de Machado chinês, agora na língua que o Bruxo do Cosme Velho conjurou.
Com a palavra, Giorgio Sinedino.
Se pudesse sintetizar a relevância de Lu Xun para a literatura chinesa e universal, o que destacaria sobre a obra do autor? São duas questões distintas, mas complementares. Em casa, Lu Xun é visto como fundador da literatura chinesa moderna, pioneiro de um novo tipo de prosa, de novos gêneros literários, de um novo espírito crítico. Em certo ponto, foi honrado como “Alma da Nação”. Devido a isso, terminou oficializado sob a ideologia que fundou a República Popular da China. Por muitas décadas, o quadro geopolítico influenciou o posicionamento de Lu Xun na literatura universal e sua obra permaneceu adstrita a esse nicho. Um dos objetivos desta nova edição de Grito é o de demonstrar como o artista – a figura humana – é inseparável dos textos. Lu Xun tinha um pé fincado no passado e outro no presente da China; ele era, ao mesmo tempo, plenamente chinês e atento para o valor da cultura literária globalizada de sua época.
Daí seu valor universal? Sim, por conseguinte, ele deve ser encaixado na literatura universal do início do século XX, no entrechoque de estetismo e engajamento, da preocupação com o eu e com a sociedade. Tais contradições dão realce e urgência à sua preocupação com o individual, à sua sincera perscrutação íntima, ao marcado tom de malaise/noia/Unbehagen de seus melhores textos – trazendo-o para perto de nossa forma de ver o mundo e desvelando assim sua universalidade.
Em alguns momentos de Grito, Lu Xun me lembrou Machado de Assis… Haveria algum autor brasileiro que poderíamos comparar ao chinês – seja pela importância literária, seja pelas características de sua obra? Lu Xun poderia ser, digamos, o Machado chinês? É uma discussão interessante. Há algo na linguagem de Lu Xun que parece “clássico” aos olhos dos chineses, o sotaque oitocentista de sua sintaxe, donde a tradução tenta representar esse estilo com aquele que nos parece “clássico”, como Machado. Esteticamente, os dois veem o mundo com espécies comparáveis de galhofa, misantropia. Existe, ainda, uma afinidade intelectual entre ambos, em que Grito assimila o realismo literário de outras tradições nacionais. Porém, a obra de Lu Xun assinala o momento em que a China se conecta literariamente à literatura global, de modo que, enquanto a nossa literatura do século XIX tinha acompanhado pari passu as vogas europeias, Lu Xun comprimiu “clássico” e moderno de uma maneira difícil de classificar em nossos termos. Em Grito, encontramos elementos de modernismo e regionalismo presentes no longo arco que junge Lima Barreto, Lins do Rego, Ubaldo Ribeiro etc. Em Lu Xun, a representação do feio, do baixo, do grotesco, coisas ausentes no realismo de Machado, estão lado a lado do (ironicamente) castiço. Em suma, é bom buscarmos associações, mas Lu Xun talvez seja como Cervantes, Goethe, Balzac, Guimarães Rosa… – plenamente compreensível apenas em seu contexto pátrio.
Qual foi o maior desafio de verter este livro para o português? Para além da “tradução” dos ideogramas, há toda uma preocupação em trabalhar o vocabulário e as expressões da nossa língua, adequando-as ao seu tempo histórico, não? Sem dúvida. Além da conversão linguística, em sentido estrito, do chinês para o nosso idioma, há um esforço de acolher Lu Xun em nossa literatura, empregando uma linguagem autenticamente brasileira e a mais próxima possível da época de Grito. A linguagem da tradução media o peculiar à China de Lu Xun com a nossa própria experiência civilizacional. Em alguns pontos, é necessário aceitar calculadamente os riscos de distorcer o material-base, justificando-os pela resposta positiva do leitor em comparação com o que se tivéssemos meramente nos cingido a propiciar uma tradução interlinear do chinês.
E como se dá esse confronto – ou encontro – entre idiomas? No que se refere à substância, há uma coincidência feliz em termos de contexto histórico. Pelo início do século XX, também estávamos em busca de nossa identidade nacional; também desejávamos construir a nossa personalidade artística e também queríamos encontrar nosso caminho para o progresso e integração à Modernidade. Esse espírito anima as diversas gerações do Modernismo brasileiro… e da literatura chinesa moderna. Sob esse pressuposto, o maior desafio é o de lidar com as profundas diferenças culturais entre Brasil e China, evitando, por um lado, que o abrasileiramento de Lu Xun crie equivalências absolutas, e que, por outro, exageremos caricaturalmente os aspectos menos familiares.
Se tivesse que selecionar um dos “contos” desta coletânea como representante máximo da obra de Lu Xun, qual deles seria? Tematicamente, Grito reúne dois tipos de “contos”: Rurais e Urbanos. Nos países em que Lu Xun é um autor canônico (China, Coreia, Japão) e naqueles em que é mais bem conhecido (Leste Europeu e Rússia), há uma clara preferência pelos textos rurais. Deles, “Minha Terra” é venerado como uma obra-prima, dada a maneira como Lu Xun produz uma tensão amarga entre passado e futuro através de breves reencontros com conterrâneos que não via há décadas. Ele tinha ido vender o casarão da família, que se mudava, definitivamente, para a cidade grande. Há um leitmotiv de perda da inocência, de concluir, sem resignação, que chegar à maturidade é aceitar que a vida tem pouco sentido além das obrigações de sangue. Pessoalmente, eu recomendaria começar da última história, “Ópera Rústica”, por ser um ótimo exemplo do estilo narrativo e expositivo de Lu Xun, em que ele se deixa divagar livremente a partir de uma situação autobiográfica pontual. Na verdade, o enredo é muito menos importante do que a variada palheta de emoções suscitadas pelas lembranças vivas que borbotam, culminando numa daquelas aventuras de infância que muitos tivemos, as quais, com o passar dos anos, terminam se constituindo numa de nossas saudades mais indizivelmente agridoces.







