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Pequenos diálogos para desbravar grandes obras & ideias − e cuidar melhor de si e do mundo

O que Caetano Veloso e grande elenco aprenderam ao passar pelo divã

O psicanalista argentino Mariano Horenstein reúne, em livro, as conversas que manteve com artistas e escritores renomados - de Anish Kapoor a Javier Cercas

Por Diogo Sponchiato Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 29 jan 2026, 07h30 •
  • Já que o assunto envolve um tipo de terapia que desnuda a mente, vou me abrir logo de cara: quando peguei o livro Conversa Infinita, pensei em ler apenas os diálogos do psicanalista argentino Mariano Horenstein com autores e artistas pelos quais tenho algum apreço ou familiaridade. Não consegui. Esse é um livro que se devora – mesmo que você não tenha interesse por psicanálise.

    A obra, recém-publicada no Brasil pela Quina Editora, reúne 20 entrevistas realizadas por Horenstein dentro de um robusto projeto que busca trazer à tona a experiência e as visões de grandes nomes da arte, das letras e do pensamento ocidental sobre o divã, o inconsciente, os conflitos dentro e fora do aparelho psíquico.

    Em comum, as pessoas que soltam o verbo pelas páginas tiveram, direta ou indiretamente, algum contato com a psicanálise – como pacientes, estudiosos ou curiosos. No formato de perguntas e respostas, não há o tom de uma entrevista clássica. O que flui é aquele tipo de conversa que não parece se encerrar no ponto final…

    Conversa infinita

    conversa-infinita

    E é assim que conhecemos mais intimamente cantores e compositores como Jorge Drexler e Caetano Veloso (que se revela sem temor ou pudor), escritores como Juan Villoro e Javier Cercas (para quem a análise mudou tudo em sua trajetória pessoal e profissional), artistas como Anish Kapoor e Marina Abramovic (que traz à tona o poder oculto da performance) e pensadores como Julia Kristeva e Slavoj Zizek (uma figura sui generis que concorreu à presidência de seu país, a Eslovênia, e combina marxismo e psicanálise em suas obras).

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    No livro, traduzido por Julián Fuks, a psicanálise é o fio que conecta as viagens do psicanalista pelo mundo. Um fio que costura arte, ciência, ficção, verdade, angústia, alegria, perda, frustração, realização… Nesses papos infinitos sobre a vida (e as obras), o leitor também vai se colocar num divã imaginário – e, como reflete o autor na conversa a seguir, talvez saia dele uma versão melhor de si mesmo.

    Com a palavra, Mariano Horenstein.

    O psicanalista argentino Mariano Horenstein
    O psicanalista argentino Mariano Horenstein (Foto: Acervo do autor/Reprodução)
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    Gostaria de trazer algumas perguntas que você fez a seus entrevistados. Vou eleger uma: a psicanálise está mais próxima da arte ou da ciência? Essa resposta vai variar de acordo com o psicanalista que irá respondê-la. Para mim, claramente se aproxima mais da arte. A psicanálise é uma arte da escuta, uma arte da conversação. Até poderia ser definida como uma ciência do singular, não fosse o fato de que é também, fundamentalmente, uma prática extremamente rigorosa em suas concepções teóricas, bastante exigente quanto à formação do psicanalista, com critérios que vão além de muitas das ciências tradicionais, e sobretudo submetida a uma ética implacável. Quando se trata do adoecimento subjetivo, qualquer precaução é pouca, ainda mais em um país como o Brasil, onde alguns grupos oferecem uma “formação” em psicanálise de meses, precária, sem ética e nenhum tipo de regulação. 

    Há alguma lição ou mensagem que unifique todas as conversas que você reuniu no livro? Justamente por se tratar de algo tão singular como a psicanálise, tanto as conversas que aparecem no livro como as outras que tenho mantido – no total, já são umas 70 – carecem de um denominador comum. O que me interessa sobretudo, tanto no livro como em cada entrevista e em cada sessão com um analisante, é resgatar aquilo que faz alguém único, sua singularidade, seu estilo. Em boa parte das pessoas que entrevistei, o fato de elas cruzarem com a psicanálise de alguma forma em algum momento, seja na teoria, seja como experiência real, fez diferença em suas vidas. Talvez ela tenha permitido que cada um desses indivíduos pudesse encontrar a melhor versão de si mesmo.

    Entre conversas tão instigantes, qual delas mais o tocou? Muitas me tocaram, e por motivos distintos. A que mantive com Jorge Drexler foi uma delas, porque ele mesmo se comoveu de um jeito único na entrevista. A de Anish Kapoor também, porque, depois de esperar muito tempo para fazê-la e superar várias barreiras, encontrei uma pessoa de uma ternura inaudita, muito aberto ao inconsciente no diálogo. Também me tocou a entrevista com Slavoj Zizek, um homem cheio de tiques, que falava de forma apressada, antes mesmo que eu fizesse a primeira pergunta e, ao mesmo tempo, uma figura livre de qualquer posição arrogante, como boa parte dos outros entrevistados. Fiquei tocado, ainda, por Siri Husvedt, por encontrá-la em dois momentos diferentes, a segunda vez quando havia acabado sua análise e se encontrava muito mais segura e autoconfiante do que no princípio. E me comoveu estar com Caetano Veloso, porque o admiro e porque ele falou abertamente sobre sua vida íntima.

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    E alguma dessas conversas o decepcionou? Sim, uma em particular. De alguém que ganhou um Prêmio Nobel, mas esse diálogo não está no livro. Uma entrevista é um convite a um encontro, que pode ou não acontecer. Uma entrevista com um psicanalista é também uma grande aposta. Porque o inconsciente pode não aparecer. Mas, no geral, as conversas correram bem, e saí mais feliz delas do que esperava. Tive a sorte, na maioria dos casos, de encontrar a vanguarda de nossa espécie, sensibilidades e talentos únicos, que não viram nosso diálogo como um espaço para se exibir ou se gabar, mas como uma oportunidade para encontrar alguma verdade, alguma contradição ou ao menos alguma curiosidade.

    Quem é o escritor ou artista que gostaria de ter incluído no projeto, mas não foi possível até agora? Há várias categorias… Existem aqueles com quem mantive contato, mas não foi possível iniciar ou concluir a entrevista porque a doença ou a morte os levaram antes – ou simplesmente não concordaram em continuar. Foi o caso de Nanni Moretti, Ricardo Piglia, Bernardo Bertolucci e Abbas Kiarostami. Há também aqueles que concordaram em falar comigo, só que depois desapareceram. Ainda sonho em realizar entrevistas com Robert De Niro, Emmanuel Carrère ou Pascal Quignard.

    Mais alguém na lista? Gostaria muito de ter entrevistado o Papa Francisco, e cheguei muito perto disso, mas já não será mais possível. Também queria muito entrevistar Woody Allen e alguns atores e atrizes que admiro. Nem sempre consigo contatar essas pessoas, porque vou atrás delas por meio de uma rede de amigos e conhecidos, não por agentes, editoras ou assessorias de imprensa. Com Woody Allen, que passou a vida em análise, por exemplo, não pude estabelecer um contato capaz de me fazer alcançá-lo.

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