Quando o Brasil foi à guerra – e de um jeito que nunca se viu (e leu)
Ao entretecer escritos de testemunhas da Guerra do Paraguai, a escritora Beatriz Bracher monta um fascinante mosaico de visões e registros históricos

Existe a Guerra, esta com a inicial maiúscula, que vai ganhar os verbetes de enciclopédia e as apostilas escolares. E existem as guerras, estas em letras minúsculas, que refletem as experiências pessoais, dramáticas e intransferíveis de quem vivenciou um conflito armado. Pois o livro Guerra, da escritora Beatriz Bracher, costura o evento histórico com escritos e depoimentos dos protagonistas da Guerra do Paraguai (1864-1870), oferecendo um mosaico panorâmico (e humano, demasiado humano) de um episódio que marcou o país e a vizinhança sul-americana.
O romance – pois se trata de um romance baseado em fatos e pontos de vista reais – integra uma trilogia. O volume 1, recém-publicado pela Editora 34, cobre os primeiros ataques do Paraguai governado pelo ditador Solano López ao Mato Grosso e a reação do Brasil de Dom Pedro II e dos aliados Uruguai e Argentina.
Bracher nos conduz pelos bastidores da história. Pelas convocações aos voluntários da pátria, pelas operações de transporte e logística, pelos atendimentos aos doentes no caminho, pelas ofensivas e contra-ofensivas sobre as águas ou terra firme… Tudo por meio de cartas, relatórios e trechos de livros dos personagens e testemunhas da contenda.
Aí que está: não há palavras da autora (salvo os apontamentos dos donos dos excertos nas laterais das páginas), mas seu mérito reside justamente na garimpagem dos textos, no recorte esmerado, no entrelaçamento dos relatos e visões, que, seguindo em ordem cronológica, transformam-se, de repente, numa obra multifacetada e coesa, que traz os gritos de coragem e honra à pátria, mas também as misérias, as moléstias e os horrores da guerra.
Cartas de amor aos que deixaram a família, ordens de comando, documentos dos médicos que assistiram às vítimas das pestes e dos tiros de canhão, diários que descrevem o clima, a vegetação, a comida e as angústias, quadros das batalhas pintados com efusão em bom português… Textos burocráticos mesclando-se com aqueles de sensibilidade literária… E deixados por gente comum e ignorada pela História (a com H maiúsculo) ou por homens que viraram nomes de rua – do Engenheiro Rebouças ao Visconde de Taunay.
Guerra oferece um roteiro único e instigante para se embrenhar na(s) guerra(s) do Paraguai – a ponto de o leitor aguardar, ansioso, pelos desdobramentos que serão narrados nos próximos volumes. E a autora nos conta como concebeu e montou esse projeto, inclusive se encantando com ele durante o percurso. Com a palavra, Beatriz Bracher.

Como surgiu a ideia da trilogia? Houve um momento eureca?
Foram dois momentos eureca. No livro Memórias, do Visconde de Taunay, li descrições de sua participação na Guerra do Paraguai que me emocionaram e me deixaram com um gosto estranho na boca – com raiva, eu acho. Senti-me roubada. A guerra nos formou como povo, mas suas memórias não nos acompanham desde há muito tempo. É algo velado que está conosco, mas não o conhecemos.
Então resolvi ler outros livros de combatentes brasileiros. Li o livro de reminiscências de Dionísio Cerqueira e o diário de André Rebouças relativo a esse período. Me encantei com suas palavras. Não foi apenas um encantamento estético ou linguístico, mas um encantamento por esses homens, suas formas de entenderem o mundo, a maneira de expressarem, ou não expressarem, sua subjetividade e o jeito como suas palavras me levavam para dentro da guerra, de forma muito pessoal e, ao mesmo tempo, carregando todo um universo comum (honra, bandeira, amor…) a todos àqueles homens. Então veio a ideia de escrever o livro usando os fragmentos dos textos escritos por eles. Esse foi o primeiro momento eureca.
E o segundo?
Li, então, vários outros livros de combatentes brasileiros e de historiadores que compilaram correspondência, ordens do dia, relatórios e ofícios trocados entre militares durante a guerra. Ia lendo e selecionando os fragmentos. Antes de tudo, claro, logo que resolvi entrar no assunto, li o Maldita Guerra, do historiador Francisco Doratioto, para entender a Guerra em si. E segui com os combatentes para entender as guerras de cada um dentro do conflito maior.
Tentei criar um personagem que “contracenasse” com os escritos dos combatentes-autores. Não deu certo. Pensei em trabalhar apenas com os fragmentos agrupando-os por tema: mulheres; animais; cadáveres; bandeiras; paisagem. Não funcionou: essa arrumação dava um tom ensaístico ao trabalho, e eu queria um romance. Veio, então, o segundo momento eureca, o mais óbvio: o que iria unir os fragmentos seria o tempo da guerra. Eu os arrumaria em ordem cronológica.
Devo ter lido o romance de Taunay em 2015. Em 2016, já estava lendo outros livros de brasileiros que participaram da guerra. Apenas em 2021 eu descobri a forma como iria escrever esse livro.
Qual foi o maior desafio na garimpagem ou na montagem dos escritos que servem de base ao livro?
O maior desafio foi mesmo entender como eu escreveria o livro. A garimpagem foi acontecendo meio que naturalmente. Um livro citava outro, que puxava outro, e assim foi indo. Comprei a maior parte dos livros em sebos. Alguns eu peguei em edições de acervos digitais de arquivos públicos. A montagem é a minha escrita, é a parte mais gostosa da feitura do livro. Separo os trechos dos textos dos autores combatentes por mês e coloco os daquele mês em uma grande mesa.
E então eles, os pedaços de livros, começam a soar, eu me sinto o aprendiz de feiticeiro, da Disney, que vai convocando cada coisa para o seu lugar certo, como se este lugar já estivesse pré-determinado sabe-se lá por quem. Ou uma maestra combinando melodias e ritmos. A parte insuportável é catalogar cada um dos fragmentos: nome do autor, do livro, página, local e data da ação. Se não faço isso, não tenho como encontrar o fragmento depois para montar a história.

Guerra é um mosaico de versões e registros históricos… Por que optou por trabalhá-lo e classificá-lo como romance?
Optei por trabalhar os registros históricos para compor um romance porque essa foi a maneira de fazê-los falar o que tinham de mais denso e verdadeiro – e, para nós do século XXI, de mais surpreendente. Para que essa camada, que está por detrás daquilo que o texto relata, viesse à tona, era necessário que fizesse parte de uma história em que a coerência entre os fatos narrados ou a sua clareza não fosse importante, por vezes não fosse desejável.
Por exemplo, em um romance a frase “A afoiteza dos Paraguaios é quase loucura, brigam como desesperados, e só cedem se o ferro os prostra cadáveres”, de José Campello, traz, mais do que a constatação da valentia paraguaia, ou sua loucura, o estilo de seu autor, seu espanto e a forma imagética como descreve a única maneira de deter os inimigos. É emocionante. De que importaria essas informações do estilo de José Campello, de seu sentimento em relação aos paraguaios, a um livro de história? Sim, pode interessar como depoimento, para ilustrar sentimentos e a subjetividade dos combatentes, mas e os outros 200 fragmentos cujo interesse reside nessa mesma informação? Portanto, eu o classifico de romance porque ele é um romance.
Entre tantas vozes e autores que reuniu, quem seria seu personagem preferido no primeiro volume?
Difícil escolher entre meus quatro queridos: Dionísio Cerqueira, Taunay, Rebouças e Albuquerque Bello. Dionísio, juvenil, animado e observador. Taunay, sutil, irônico e com verve de naturalista. Rebouças, um chato exibido e adorável. Bello, engraçado, sagaz, crítico, cujo batalhão tem um destino trágico.
Em que medida avalia que sua obra pode contribuir para uma visão mais completa e complexa desse episódio histórico?
Como a maioria de nós não conhece quase nada da Guerra do Paraguai, acredito que, apesar de não ser a intenção do livro, ele vai, antes de tudo, informar a seus leitores que a guerra existiu e que houve tal e qual vila ocupada, batalha travada, dificuldade enfrentada… Depois acredito que a leitura de Guerra pode contribuir para uma visão menos ampla dessa e de outras guerras, uma visão do circunstancial, da instabilidade das narrativas históricas, da precariedade de absolutamente tudo: clima, marchas, uniformes, hospitais, armamento, amizades, hierarquia, solos. A visão mais completa passa a ser, me parece, a impossibilidade de se ter uma visão completa e complexa da guerra. Porque a visão complexa não consegue ser completa, e vice-versa.