Por que o bullying virou uma das maiores dores da adolescência
Na esteira da série 'Adolescência', pesquisadora britânica lança livro que examina os percalços da 'fase mais complexa da vida'. Leia trecho exclusivo

O romance Heaven [Paraíso], de Mieko Kawakami, é escrito da perspectiva de um garoto de 14 anos. Nunca ficamos sabendo seu nome, apenas que, por causa da ambliopia, os valentões da escola lhe deram o apelido de “Olhos”. A história é centrada na amizade secreta que ele desenvolve com uma garota de sua classe, que também é alvo dos colegas de turma.
Em certo ponto do romance, o narrador é arrastado para uma sala de aula vazia pelo valentão Ninomiya – um aluno inteligente e bonito com alto status social. Ninomiya e os amigos mandam o narrador enfiar um pedaço de giz no nariz e depois tirá-lo e desenhar algo no quadro-negro – “algo que os faça cagar nas calças”. O narrador fica paralisado, então Ninomiya muda de tática e lhe diz para comer três pedaços de giz, enquanto seus amigos assistem a tudo e riem. O narrador obedece à instrução.
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Muitas vezes, o termo “bullying” é desdenhado como algo leve ou brincalhão, ou como parte do inevitável e turbulento vale-tudo do crescimento, mas é muito mais do que isso. É abuso crônico e implacável: uma campanha de crueldade direcionada, exclusão e humilhação contra um indivíduo vulnerável. Para algumas pessoas, é a história que define sua adolescência.
Até mesmo uma experiência como a descrita no romance de Kawakami pode ser traumática o suficiente para aumentar o risco de uma pessoa ter problemas de saúde mental quer perduram por muitos anos depois. Vítimas de bullying, por definição, vivenciam esse abuso como uma ocorrência regular.
Na verdade, a constante expectativa da crueldade é parte do que torna o bullying tão nocivo. Em um estudo, um homem de 35 anos que sofreu bullying na escola resumiu assim o suplício: “Eu me lembro de um constante sentimento de desconfiança e expectativa em relação ao que aconteceria comigo naquele dia, de novo. Eu sabia que aconteceria e sabia que seria horrível, só não sabia exatamente o quê”.
Por que as pessoas se tornam agressores?
Para entender por que o bullying acontece, precisamos examiná-lo do ponto de vista de líderes de gangue como Ninomiya. O comportamento dessas pessoas é mais do que mera agressão ou violência.
Eles não estão apenas perdendo a calma por se sentirem ameaçados ou frustrados. É uma ação repetida e deliberada, o que indica que tem alguma consequência previsível e benéfica para o valentão intimidador. Pesquisas mostram que jovens que praticam bullying tendem a ter uma especial preocupação com status social: por exemplo, relatam que gostam de obrigar os outros fazerem o que eles mandam. Observe também que a maioria dos episódios de bullying na escola – cerca de 88% – acontece quando há uma plateia de outros pares.
O bullying, então, é um meio de ganhar, demonstrar e sustentar poder social. Por meio de atos públicos de intimidação física e, de maneira decisiva, humilhação psicológica, os praticantes de bullying anunciam que estão em um lugar mais acima na hierarquia social. Uma vez alcançado esse status, o valentão dá continuidade a seu comportamento como uma forma de manter sua posição.
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Claro, o bullying é apenas uma das formas de alcançar status social, então a questão se torna: por que alguns jovens acabam seguindo esse caminho específico? Uma das muitas explicações propostas é que alguns adolescentes aprendem a praticar bullying em casa. De acordo com a teoria dos sistemas familiares (ou teoria familiar sistêmica) do comportamento, introduzida pelo psiquiatra Murray Bowen em 1966, o comportamento de um indivíduo não pode ser compreendido isoladamente, e suas causas só se tornam evidentes no contexto de sua unidade familiar, a rede de interações e relacionamentos que vivenciam em casa.
Aplicada ao bullying, a teoria dos sistemas familiares sugere que ou o jovem que se torna um bully (o agressor que comete atos de bullying) tem pais ou irmãos que foram abusivos com ele, ou aprendeu em casa que se comportar como um agressor leva a benefícios (ou ambas as coisas). De qualquer forma, o ambiente doméstico ensinou à criança que atormentar física ou psicologicamente outras pessoas é uma maneira de obter resultados ou fazer com que se sinta segura, então leva essa postura para a escola e a aplica a seus pares.
De forma semelhante, alguns jovens se tornam agressores porque eles próprios foram vítimas de bullying na escola. Eles sentem na pele como é ser tratado como fraco e, então, aprendem a imitar as ações do seu próprio agressor com outras pessoas como uma forma de se elevar e se proteger. Talvez não seja surpresa que os jovens desse subgrupo não fazem a transição completa em que deixam de ser vítimas de bullying para se tornar praticantes; em vez disso, muitos caem em um papel em que são tanto agressores para alguns colegas quanto vítimas de outros – a chamada dinâmica “bully/vítima”.
Outras explicações se concentram mais na psicologia do indivíduo do que em seu ambiente. Uma teoria é que as pessoas que praticam bullying têm uma capacidade limitada para dois sentimentos-chave que ajudam a inibir o comportamento violento na maioria das pessoas: empatia e culpa. Há evidências de que, mesmo em crianças de apenas 3 anos, aquelas que mostram níveis especialmente baixos de empatia e culpa têm mais propensão a acabar praticando atos de bullying quando forem mais velhas.
Talvez não seja surpreendente que esses jovens quase sempre tenham pais e mães que mostram características semelhantes. Isso significa que o jovem pode ter herdado geneticamente essas predisposições, mas também que provavelmente seja alvo de tratamento cruel em casa e talvez aprenda isso como uma estratégia social viável.
Mas entender por que um jovem pode acabar se tornando um bully não explica por que o bullying é uma prática tão preponderante e tão difícil de controlar. Para entender isso, precisamos ampliar nossa perspectiva além do agressor e sua vítima, porque pensar no bullying como um relacionamento entre duas pessoas é negligenciar sua característica mais importante.
Como destaca a cena no romance Heaven, o bullying é uma atividade de grupo. Não envolve apenas uma vítima e um agressor; quase sempre há uma plateia. Na verdade, a dinâmica de grupo do bullying é tão bem estabelecida que as pesquisas identificaram uma série de papéis, uma série de personagens, que aparecem de maneira recorrente e consistente. Há sempre um líder como Ninomiya, mas há vários outros papéis-chave, e eles abrangem cada uma das pessoas na sala de aula – todos desempenham um papel relevante no bullying.
A maioria permite que o bullying aconteça: eles o incentivam diretamente ou dele participam (são os reforçadores ou apoiadores ativos) ou se desvinculam do ato, permitindo passivamente que aconteça (os indiferentes). O último e decisivo grupo – os defensores – são os adolescentes que intervêm para impedir o bullying e prestar apoio à vítima. O comportamento de cada personagem é moldado pelo comportamento de outras pessoas na classe.
* Lucy Foukles é psicóloga e pesquisadora da Universidade Oxford, na Inglaterra, além de autora de Que Saco – As Dores da Adolescência, a ser publicado pela Editora Autêntica