‘Adolescência’: a série que expõe os danos ocultos à saúde dos mais jovens
Produção da Netflix tem protagonista em tratamento psicológico e aborda perigos da internet nessa fase da vida

Adolescência. Que fase desafiadora! Todos nós passamos ou passaremos por essa enorme transformação, quando hormônios comandarão uma profunda mudança física, mental e emocional em nossos corpos.
É um período estranho. Meninas viram mulheres, em geral antes dos meninos. Meninos crescem mais rapidamente que outros, ficando mais fortes e demarcando seus territórios. É a época das descobertas e da cobrança pelo corpo perfeito e pela pele bonita – e tem coisa que acontece muito antes do que deveria acontecer.
É o período da dificuldade de conversar e se expressar com os pais, de nutrir o sonho da independência e, nos nossos dias, de ouvir o maior “conselheiro” oculto, a internet.
A espetacular série de TV Adolescência nos leva a uma reflexão imediata e perturbadora sobre a influência da vida digital e do perigo que os nossos filhos correm dentro de casa, dentro de seus quartos. Uma influência aliada a padrões pré-estabelecidos para que adolescentes se sintam aceitos pela sociedade e pelos seus próprios amigos. Os pais não têm outra opção a não ser redobrar o alerta.
É um assunto que se cruza com a obesidade, que também pode dar as caras na infância ou adolescência. Ela cresce vertiginosamente ao redor do mundo, tornando mais precoce o diagnóstico de condições como diabetes e hipertensão. Torna-se um confronto emocional desleal nesse contexto de transformações rumo à fase adulta com um estado psicológico ainda imaturo.
Trata-se de uma pandemia, que hoje não poupa nem China, nem Índia, tampouco o continente africano, expondo a nova geração a consequências no presente e no futuro.
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Então acompanhe comigo um curta-metragem da vida quando a obesidade vira parte do enredo na adolescência.
Quando temos filhos, desejamos antes de tudo saúde. Como dizia um velho amigo, beleza é brinde. O período da infância é parecido para quase todos: são saudáveis, se alimentam bem, se socializam, se divertem. Até que algumas crianças ou adolescentes começam a engordar.
Às vezes demoramos ou não queremos enxergar que há algo diferente do script esperado acontecendo. É difícil para os pais. No entanto, o risco é esquecer que esses jovens já sentem na pele os efeitos da obesidade. Não conseguem acompanhar os colegas nas aulas de educação física, têm vergonha de se despir na frente deles, ficam retraídos no convívio social.
Nessas circunstâncias, eles deixam de jogar bola (quem vai escolhê-los para o time?) e comprar as roupas da moda que tanto queriam. Não surfam, não andam de skate, penam no transporte público. Estão vulneráveis ao bullying e ao preconceito.
Ah, dirão, mas por vezes nosso personagem atua muito bem, parece feliz e integrado. Será?
Diversos estudos vêm demonstrando maior incidência de depressão grave e até suicídio em adolescentes com obesidade. Por outro lado, pesquisas recentes indicam que, ao tratar a doença com o novo arsenal de medicações para perda de peso e outras opções terapêuticas, diminuímos significativamente essa loucura de tirar a própria vida.
Como pais presentes e próximos, estamos certos de que os filhos estão sendo cuidados e principalmente protegidos. Mas é dentro de casa que, hoje, eles correm mais riscos. É dentro de seus quartos, escondidos atrás de telas e inteligências artificiais que tudo pode acontecer. Ali, os adolescentes estão com suas vidas ocultas, ninguém os enxerga verdadeiramente.
E é de suas próprias casas que eles saem pelo mundo dos sonhos através da internet e acham que podem alcançar coisas que jamais viverão na vida real. Esse mundo virtual os expõe a conteúdos inapropriados e inalcançáveis, afetando negativamente seus comportamentos e até a vontade de viver. Se já é um desafio para jovens com o peso adequado, que dirá para aqueles com obesidade?
Na série da Netflix, apesar de os pais estarem por perto, demoram a perceber a doença do filho, que esteve oculta na web o tempo todo. No personagem desta crônica, porém, a doença é visível e, se tentarmos ocultá-la, bem como seu tratamento, ele poderá navegar por caminhos dos quais não poderá voltar.