Na Mega-Sena e na saúde, é preciso escolher o jogo de forma inteligente
Estatísticas de diabetes são de fazer inveja aos números mais exorbitantes das loterias

828 milhões de reais. É provável que o próximo prêmio da Mega da Virada alcance esse valor. O deste ano chegou a marca de 635 milhões, número altíssimo se comparado ao ano de 2008, quando a bolada era de “somente” de 37 milhões. O motivo óbvio do aumento dos prêmios ano a ano se dá pelo fracasso da economia familiar, levando milhões de pessoas a tentarem a sorte como solução para todos os problemas.
As cifras impressionam, mas uma doença já ultrapassou esse número inimaginável: a diabetes. Ao redor do mundo, já são quase 1 bilhão de pessoas com essa grave condição.
A famosa revista médica Lancet realizou uma avaliação em mais de 200 países e observou que em pouco mais de 30 anos, aumentamos em 630 milhões o número de portadores dessa doença pelo mundo. Um valor de Mega da Virada, mas que não traz felicidade para ninguém.
Assim como os jogos da sorte, a percepção de aumento se deu em países pobres ou em desenvolvimento – inclusive no Brasil – e como no jogo, a falta de educação e orientação adequadas fazem com que as pessoas de baixa renda errem mais e percam mais saúde e dinheiro. Países com maior poder financeiro, por outro lado, acabam tendo populações com melhor acesso à prevenção, à boa alimentação e às opções de tratamento. Trata-se de um jogo bem diferente.
Quando falamos em diabetes, estamos errando as apostas desde o início. Cerca de 450 milhões de pessoas não estão recebendo tratamento e, com isso, a doença e suas complicações evoluem e encarecem todo o sistema. Isso para uma condição que é de fácil diagnóstico, mesmo em postos simples, e que se logo tratada evita a perda de dinheiro e, essencialmente, de vidas.
Um dos fatores principais para o aumento do diabetes é a obesidade. O tecido gorduroso, sobretudo o de dentro do abdômen, chamado de visceral, produz substâncias inflamatórias que bloqueiam a reação química promovida na célula pela insulina para que o açúcar entre. Com o alto índice de açúcar no sangue, o pâncreas acha que tem que aumentar a produção de insulina, já com resistência em atuar. Com o tempo, as células do pâncreas começam a cansar, como a bateria de um carro cujas luzes ficam acesas o tempo todo.
Vale o paralelo: se logo tratada com perda de peso, medicamentos e atividade física, a nossa bateria figurativa pode ser recuperada. Se não, talvez só volte a funcionar dando uma “chupeta” – que nesse caso seria a insulina injetável.
Ao não tratamento, acompanham complicações como cegueira, impotência, insuficiência renal, amputações e infartos. Em todos os casos, é uma aposta trágica e , portanto, tanto a sociedade quanto o Governo deveriam estar engajados no tratamento de quem está doente e na prevenção de novos casos. Essa virada depende de todos nós.
E é importante notar que os números são favoráveis para a saúde. Existem cerca de 25 mil casas lotéricas no Brasil e 42 mil postos de saúde. Cabe ao paciente decidir em qual das duas é mais importante entrar, até porque de nada vale ganhar um prêmio milionário se não tiver saúde para desfrutá-lo.