O tempo dirá: um dia deixaremos de fazer cirurgia bariátrica?
Um olhar histórico sobre o surgimento das operações que tratam a obesidade e um vislumbre do que pode mudar com a nova geração de remédios para esse fim

Na minha infância, lembro-me de uma vez ter confrontado o meu pai e dizer a ele: “isso não é do seu tempo!” Imediatamente, ele retrucou: “como não é do meu tempo? O seu tempo é também o meu tempo. O MEU tempo é que nunca será o seu.”
Hoje, tantos anos depois, ao analisar essa conversa, tenho certeza de que ele estava com a razão. Vivíamos o mesmo tempo, mas eu jamais viveria o que meu pai tinha passado antes de mim e da minha geração. O aprendizado que ficou desse diálogo é que preciso estar permanentemente atualizado no tempo para saber viver e entender o tempo dos que convivem comigo.
E isso me remete à história da cirurgia bariátrica, que começa nos na década de 1950. Naquela época, era insuficiente o conhecimento sobre a origem e o tratamento da obesidade. Por que pessoas ficavam tão obesas… e como ajudá-las? Os primeiros procedimentos foram desastrosos, pois os efeitos colaterais levavam os pacientes a graves episódios de diarreia e desnutrição. As cirurgias tiveram de ser reparadas e chegaram a ser proibidas.
Nos anos 1960, Edward Mason, conhecido como o pai da cirurgia bariátrica, inventou o procedimento de by-pass após observar que pacientes que operavam de úlceras estomacais ficavam magros. Antigamente, sem remédios para tratar a gastrite e sua evolução para úlcera, a saída era operar o estômago.
Uma das técnicas mais utilizadas na época consistia em retirar parte do estômago e fazer um desvio (o by-pass) para o intestino. Tínhamos, sem saber, os mecanismos de funcionamento de uma cirurgia bariátrica. Com o advento das medicações antiácidas, essa cirurgia praticamente desapareceu dos centros cirúrgicos.
Nas décadas seguintes, foram propostas outras técnicas para tratar a obesidade e algumas foram abandonadas devido ao pouco efeito na perda de peso ou aos distúrbios graves para o paciente. Assim evolui a medicina.
Em 1991, por meio de um consenso médico, foram criadas as primeiras normas oficiais para cirurgia bariátrica. Levaram-se 40 anos para comprovar que as cirurgias poderiam beneficiar pessoas acima do peso.
Mesmo assim, naquele tempo ainda não se conheciam todos os mecanismos fisiológicos em jogo. Achávamos que a perda de peso se dava pela diminuição física do estômago e o desvio do aparelho digestivo para o intestino. Os pacientes passavam a comer e absorver menos. Simples assim. Isso acontece, mas, com o passar dos anos, descobrimos outros processos, inclusive hormonais, envolvidos.
Em 1995, um cirurgião americano chamado Walter Pories percebeu que pessoas com obesidade e diabetes submetidas à cirurgia de by-pass apresentavam uma melhora significativa da glicemia antes mesmo de perder peso. Isso chamou a atenção da comunidade médica e viria a estender o campo de ação da bariátrica.
Passados mais de 30 anos da legítima aprovação dessa cirurgia, diversos protocolos e técnicas foram propostos, testados e realizados. Participei de quase todos eles aqui no Brasil. Entre pontos e contrapontos, milhões de pacientes se beneficiaram do tratamento ao redor do mundo.
Contudo, novos tempos chegaram. Vivemos um momento em que crescem as evidências científicas a favor das novas medicações para obesidade. Será que elas um dia substituirão a bariátrica?, questionam por aí. Nós, cirurgiões, mais do que nunca temos que ter o dever e o cuidado de não errar, inclusive nas indicações, fazendo jus aos ensinamentos que adquirimos operando e acolhendo pacientes.
Mesmo com o avanço nos procedimentos cirúrgicos, o momento é de refletir a quem e como estamos prescrevendo uma operação que pode ser definitiva. Os critérios não mudaram até o momento e sabemos que, para os portadores de obesidade grave, a cirurgia ainda é a melhor opção para perda de peso e manutenção dos resultados, além dos ganhos metabólicos e diante das comorbidades.
Cabe a reflexão, porém: a principal técnica de cirurgia bariátrica foi baseada em uma prática que se extinguiu com a chegada de medicações para tratar gastrite e úlcera no estômago. Me parece irônica e inevitável a comparação com a nova geração de remédios para obesidade.
Que o tempo nos ensine o que pode ou deve ser transformado em prol dos pacientes. Afinal, a magia da medicina sempre será cuidar das pessoas da melhor forma possível.