Que país é esse… em que não param de abrir cursos de medicina?
Colunista questiona movimento de criação de faculdades de medicina que, na sua visão, não poderão formar bons profissionais e colaborar com a sociedade

Nos últimos anos, têm sido criadas centenas de novas escolas e cursos de medicina pelo Brasil. No Amazonas, no Araguaia, no Mato Grosso, na Baixada Fluminense, em Minas Gerais… Só no Ceará mais 25 faculdades estão buscando entrar nesse mercado.
Pois aí me pergunto: qual é a real necessidade de tantos médicos no país? Será que eles atenderão nos lugares que realmente precisam? Como será a formação desses profissionais? Será que estarão capazes de assistir à população como prestam em seu juramento? A que riscos a medicina e os pacientes estão expostos com cursos de má qualidade?
Uma faculdade de medicina exige centenas de professores com uma formação acadêmica sólida, a maioria com mestrado e doutorado. Além disso, laboratórios, centros de pesquisa, hospitais e uma gama de ferramentas para acesso à literatura mundial têm que estar disponíveis para compor uma boa formação. Como cidades com uma pequena população podem ter permanentemente essa estrutura?
Veja que paradoxo: teremos mais faculdades de medicina ao mesmo tempo em que não tratamos do básico – inclusive de saneamento e acesso à atenção primária para boa parte da população.
Como não há restrição na Constituição, muita gente acha que é um bom negócio abrir mais escolas para o futuro da nação. Mas a criação indiscriminada de cursos médicos, sem o mínimo de condição, nos tornará apenas um país de formados em medicina, não de MÉDICOS.
Hoje o Brasil dispõe de 390 faculdades autorizadas na área. Se todos os novos e lucrativos pedidos de abertura forem atendidos, passaremos para quase 700. É um número maior que o da Índia, país com uma população sete vezes maior que a nossa. Faz sentido?
Existirão mais médicos, sim. Mas isso não significa que mais problemas serão resolvidos. Aliás, novos problemas podem surgir devido à má formação e à falta de aptidão dos profissionais. Os diplomas serão manchados. Perderemos a confiança na classe.
Somos um país de terceiro mundo, mas, há anos, diversos médicos tentam mostrar uma medicina de qualidade dentro e fora do Brasil. Fazemos bonito nas áreas clínica, cirúrgica e científica, mesmo com inúmeros desafios. O crescente número de faculdades e profissionais com formação inadequada poderá nos colocar em um cenário de risco – e botará a perder nossas conquistas.
Quem vai ganhar com isso? Os donos e acionistas das faculdades. Mas e os pacientes? E a sociedade? Me pergunto: que país é esse?