‘Togo’ e a verdade incômoda sobre nossa relação com os animais
No filme estrelado pelo ator Willem Dafoe, um husky é responsável por salvar um povoado isolado, mas sua contribuição quase foi esquecida
Estar viajando pelo Círculo Polar Ártico me inspirou a escrever sobre o filme “Togo”, uma brilhante e verídica história de um husky siberiano, um herói esquecido, mas que foi corrigida a tempo. Estrelado pelo espetacular ator Willem Dafoe, esse filme nos ensina muito sobre como os animais são importantes na sobrevivência de nós humanos.
Na viagem, tive a oportunidade de conhecer e conduzir um trenó com alguns Togos. A temperatura era de -35 graus Celsius. A trilha, no meio das montanhas geladas da Finlândia, era sinuosa e com muitas subidas e foi inacreditável sentir a força e a disposição desses magníficos cães. Imaginem a fabulosa engenharia genética que têm esses animais, capazes de não sentir frio, mesmo em baixíssimas temperaturas, e ainda serem mais fortes nessas condições nas quais nós morreríamos em horas.
Na dramática película (contém spoiler), um povoado isolado do século 19 no Alasca enfrenta uma epidemia de difteria e a única esperança era transportar um soro salvador puxado por cães, num arriscado trajeto pelas condições climáticas extremas para salvar vidas humanas. Togo lidera o trenó que vence essa adversidade e salva as vidas, mas perde a sua. Não só na medicina, mas em qualquer segmento da evolução humana, os animais sempre foram fundamentais para nossa sobrevivência. Milhões de cavalos morreram nos conduzindo a guerras, milhões de animais nos alimentam, nos transportam, nos dão leite, ovos, roupas e afeto.
Na área médica, a indústria farmacêutica inevitavelmente conduz pesquisas em animais. Hoje, um pouco menos, mas ainda eles são muito necessários na produção de soros e vacinas e nos testes de laboratório. A pirâmide alimentar proposta pelo governo americano se inverteu e, assim como na história do filme, corrigiu um erro e a proteína animal foi colocada em seu devido lugar. Só estou escrevendo e conduzindo um racional pensamento para escrever essa crônica graças a essa proteína.
Na era pré-histórica, éramos limitados intelectualmente, pois começamos nos alimentando de folhas, raízes e insetos. Quando aprendemos a caçar e aumentamos a oferta de proteína em nossa dieta, nos tornamos mais fortes, nosso cérebro cresceu, ficamos mais inteligentes e fomos cada vez mais melhorando geneticamente. Até hoje, povos com pouca oferta de proteína em sua dieta, principalmente na infância, têm dificuldade para desenvolver o intelecto e isso não só os mantém no passado, como infelizmente os torna manipuláveis. Se essa proteína estiver associada a outros benefícios de vitaminas e radicais livres ainda teremos o benefício da longevidade saudável, como acontece com os japoneses e povos do Mediterrâneo. Mantemos nossa massa muscular na velhice com as proteínas.
Não estamos aqui para discussões filosóficas, mas o ser humano necessita da proteína animal e, mais uma vez, os Togos (animais) estão salvando vidas. Precisamos consumir ovos, peixes, porcos, patos, frangos, vacas e outros tantos animais. É a natureza, mas essa proteína nos dá o bem maior, o intelecto, e é nossa obrigação saber respeitar como cuidaremos desse consumo. Não se pode aceitar os maus-tratos, condições inadequadas de transporte, métodos cruéis de abate, tortura ou desprezo. São animais que estão aqui para nos ajudar a sobreviver e devem ser respeitados. Pouco se fala sobre isso, mas em muitos países, inclusive no Brasil, essa proteína que hoje ocupa o topo da pirâmide segue um longo trajeto antes de chegar à nossa mesa. Golfinhos, tartarugas e outros animais que não serão consumidos são mortos em redes ilegais de arrasto, frangos morrem por calor ou sede em aviários e caminhões inadequados, vacas e porcos são abatidos de forma criminosa, sofrendo dor e estresse extremo. Togo viveu livre, era um líder, admirado por todos e morreu para salvar vidas humanas. Milhões de animais estão confinados e nem um pouco admirados, mas também morrerão para salvar vidas.
A desenfreada busca pela proteína começou, mas esses confinados animais não têm trenós, não tem como correr, nem se esconder. Cabe aos que foram beneficiados pela proteína da racionalidade saberem cuidar desse inevitável destino de forma respeitosa e adequada pois eles morrerão para nós, diferentemente do Togo que morreu por nós.







