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Kevin Warsh pode ser o Gabriel Galípolo de Trump?

Algumas ideias defendidas pelo escolhido de Trump para o Fed são contracionistas e podem não levar a uma redução na taxa de juros

Por Diogo Schelp Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 30 jan 2026, 10h44 •
  • O presidente americano Donald Trump anunciou nesta sexta-feira, 30, que indicará Kevin Warsh para ser o próximo presidente do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos. O mandato do atual ocupante do cargo, Jerome Powell, termina em maio. Trump não vê a hora de fazer a troca. Ele vem exercendo grande pressão sobre a atual gestão do Fed com o intuito de conseguir uma redução significativa na taxa de juros oficial. O anúncio vem um dia depois do Fed anunciar a manutenção dos juros entre 3,50% e 3,75% ao ano, um patamar alto para os padrões americanos, apesar de recentes cortes.

    Warsh tem experiência para exercer a função. Além de professor e pesquisador de Economia em instituições de ponta, ele fez parte do Conselho de Governadores do Fed de 2006 a 2011, exercendo um papel semelhante ao dos diretores do Banco Central brasileiro. Ou seja, o escolhido de Trump participou da implementação da política monetária americana no auge da crise do Subprime de 2008, um colapso financeiro global causado pelo estouro da bolha imobiliária nos Estados Unidos.

    Na ocasião, o Fed se viu obrigado a reduzir a taxa de juros para praticamente zero (de 0% a 0,25%) e a partir daí ficou sem instrumentos convencionais para estimular a economia. O duplo mandato do Fed consiste em olhar tanto para a inflação quanto para o nível de desemprego. O banco central americano também precisou intervir para garantir liquidez para os bancos comerciais.

    Trump disse, em seu anúncio nas redes sociais, que Warsh pode vir a ser o melhor presidente que o Fed já teve, o que para ele significa reduzir drasticamente os juros. Mas será que sua expectativa será mesmo atendida? Warsh já fez algumas declarações recentes que sugerem uma tendência de adotar uma política mais contracionista do que frouxa, como quer Trump.

    Em um artigo publicado em julho do ano passado, Warsh criticou o balanço do Fed, ou seja, o volume de ativos, como títulos do Tesouro e hipotecários, mantidos pela instituição. O balanço está inchado, afirmou o economista, condizente apenas com períodos de crise, e aproxima demais a atuação do Fed da política fiscal. Segundo ele, o balanço do Fed “pode ser reduzido significativamente”. Se o balanço permanecer como está, continuará servindo, na visão de Warsh, para incentivar um comportamento fiscal irresponsável do congresso americano. Para o escolhido de Trump, portanto, reduzir o balanço do Fed permitiria aliviar a pressão inflacionária e obter taxas de juros nominais mais baixas. Isso pode ser feito de duas formas: 1) o Fed deixa os títulos vencerem e não emite novos ativos; 2) O Fed vende os títulos antecipadamente.

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    Há uma linha de interpretação sobre o efeito da redução do balanço que difere daquela apresentada por Warsh. O argumento é o de que, ao esvaziar seu balanço, o Fed reduz a liquidez no sistema financeiro, o que eleva os custos de financiamento no mercado no médio e longo prazo. Ou seja, é uma política contracionista, que incentiva uma alta nos juros.

    Warsh também já criticou diretamente a demora da gestão do Fed atual de cortar os juros. Mas seu histórico na instituição diz o contrário. Não foram poucas as vezes em que acompanhou os seus pares em decisões de elevar a taxa de juros.

    Assim como Trump, o presidente Lula também encasquetou com o chefe do banco central indicado por seu antecessor. Quem não se lembra das inúmeras acusações lançadas pelo presidente brasileiro a Roberto Campos Neto, quando este comandava o BC? Para ele, Campos Neto era um “cidadão que teve um comportamento anti-Brasil no Banco Central”. Já o substituto que ele indicou para o seu lugar, Gabriel Galípolo, ia “consertar a taxa de juros nesse país”. Não foi o que aconteceu. Na gestão de Galípolo, a Selic chegou a 15% ao ano. E só deve voltar a cair a partir de março, se as condições permanecerem propícias para isso.

    Kevin Warsh vai ser para Donald Trump o que Gabriel Galípolo está sendo para Lula?

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