Bateau Mouche: documentário investiga naufrágio que abalou o Brasil
Produção expõe mazelas que até hoje assombram o país

Na noite de 31 de dezembro de 1988, a embarcação Bateau Mouche IV zarpou da praia de Botafogo em direção a Copacabana com mais de 140 pessoas a bordo. A ideia era levar os passageiros para ver os fogos do Réveillon em alto-mar, com ceia e música ao vivo. O barco, no entanto, foi parado pela Capitania dos Portos e teve de retornar ao cais sob suspeita de superlotação. Pouco depois, acabou liberado para seguir viagem — mas nunca chegou a seu destino. Às 23h50, naufragou, logo após deixar a Baía de Guanabara rumo ao mar aberto, matando 55 pessoas, entre elas a atriz Yara Amaral, que acabara de estrear a novela Fera Radical, da Globo.
Passados 36 anos, os detalhes daquela noite e da investigação são dissecados na série documental Bateau Mouche: o Naufrágio da Justiça, que estreia o primeiro de três episódios nesta terça-feira, 18, na Max. O programa se vale de depoimentos, ampla pesquisa documental e reconstituições impactantes para relembrar o triste episódio. “São décadas de impunidade. Inúmeros crimes aconteceram sucessivamente nessa história, que, infelizmente, não ficou no passado”, explica a diretora Tatiana Issa. Seu lamento alude a tragédias como Brumadinho, Mariana e a Boate Kiss. Assim como o desastre do Bateau Mouche, elas foram causadas por negligência e ganância — e os familiares das vítimas e sobreviventes encararam batalhas inglórias por reparação.

No caso do Bateau Mouche, dois laudos da Marinha e da Polícia Civil apontaram que o barco estava superlotado e com uma série de irregularidades que levaram ao naufrágio, incluindo furos no casco, escotilhas abertas e coletes precários. Sócios da empresa Bateau Mouche Rio Turismo, os espanhóis Faustino Puertas Vidal e Avelino Rivera e o português Álvaro Costa foram condenados em 1993 por homicídio culposo, sonegação e formação de quadrilha. A sentença era de quatro anos em semiaberto, mas eles fugiram para a Europa em 1994 e nunca cumpriram a pena.
A produção, contudo, é eloquente ao apontar outros culpados que, por interesse ou omissão, permitem a repetição de horrores assim, da fiscalização falha à morosidade judicial. “Por décadas, muitas pessoas buscaram justiça, e isso não aconteceu”, diz o diretor Guto Barra. Uma delas é Bernardo Amaral. Filho da atriz Yara, ele perdeu mãe e avó no episódio aos 15 anos e criou, aos 18, uma instituição para ajudar os familiares das vítimas. Hoje aos 52, espera que o documentário sirva a propósitos mais amplos. “A série vai ser uma ferramenta para discutir o Judiciário e o processo de responsabilização”, diz. Um naufrágio moral não pode ficar impune.
Publicado em VEJA de 14 de março de 2025, edição nº 2935