Com ‘Maré Alta’, Marco Pigossi exorciza de vez a aura de galã
Em sua estreia em Hollywood, ator interpreta papel quase autobiográfico de imigrante gay nos Estados Unidos

Em 2017, após emendar cinco mocinhos de novelas na Globo, Marco Pigossi decidiu não renovar seu contrato com a emissora. A razão é que ele desejava migrar para o streaming — só que num momento em que isso ainda parecia uma escolha arriscada. A saída não foi exatamente a manjada “busca por novos desafios”, e sim a necessidade do ator de poder se assumir gay — rótulo que por muito tempo minou a carreira de galãs que precisavam manter a pose de machos alfa na frente e atrás das câmeras para não desagradar às donas de casa que assistiam às novelas. “Eu queria viver o mundo, experimentar coisas novas”, admitiu ele a VEJA. Após revelar ao público sua orientação sexual e assumir o relacionamento com o diretor italiano Marco Galvani — com quem se casou no ano passado —, Pigossi se liberta de vez do figurino de mocinho das novelas, aos 36 anos, com o filme Maré Alta (High Tide, Estados Unidos, 2024), já em cartaz no país.
No longa, dirigido pelo marido, de 44 anos, o brasileiro interpreta Lourenço, um contador de Itu (SP) que se muda para Provincetown, cidade costeira de Massachusetts que se tornou um lugar acolhedor para homossexuais desde a década de 1920. Com um visto de turista, o personagem vai para os Estados Unidos junto com um namorado, mas este lhe dá um fora e não retorna seus milhares de ligações. Resta a Lourenço, então, fazer bicos de faxineiro e pintor para sobreviver, enquanto luta por um visto permanente e aproveita a cena queer da cidade. O paralelo com a vida real de seu intérprete não é mera coincidência. Apesar de ter se mudado para Los Angeles já com um visto de trabalho para atuar na série australiana Tidelands (2018), da Netflix, foi somente em terras estrangeiras que Pigossi conseguiu abraçar sua verdadeira essência, sem medo das fofocas.

O filme passa longe de ser uma obra-prima. Com personagens que não são bem desenvolvidos, diálogos clichês e várias pontas soltas, Maré Alta cumpre, no entanto, sua função principal: narrar um romance de verão entre dois homens, Lourenço e o turista nova-iorquino Maurice (James Bland), que navegam por um roteiro característico do meio gay: parecem buscar apenas sexo casual, baladas e drogas, mas têm de lidar com a solidão e falta de amor.
Bem longe das amarras de galã da Globo e sem a mínima pretensão de voltar às novelas, Pigossi tem quatro filmes em produção, incluindo o remake nacional de Quarto do Pânico, estrelado originalmente por Jodie Foster, e repete a parceria com o marido e a oscarizada Marisa Tomei (também presente em Maré Alta) no americano You’re Dating a Narcissist! — ambos sem previsão de estreia. O mocinho está mais soltinho que nunca.
Publicado em VEJA de 21 de março de 2025, edição nº 2936