Documentário premiado em Berlim encontra talentos ocultos na Rocinha
'Hora do Recreio', de Lucia Murat, adiciona arte ao dia a dia escolar de adolescentes e crianças na comunidade carioca

“Oooh, mãe, olha como me olham.” A canção A Música da Mãe, de Djonga, embala as primeiras cenas de Hora do Recreio. Na tela, as pinturas do artista plástico Maxwell Alexandre – nascido e criado na Rocinha – retratam crianças de mochila e uniforme escolar. Aos poucos, as imagens estáticas dão lugar a vídeos reais: meninos e meninas de mãos dadas com adultos, caminhando rumo à escola. Ou talvez não – porque só se vai à escola quando não há batida policial na favela. A mistura de narrativas artísticas é uma das forças do documentário semi-ficcional, escrito, produzido e dirigido pela cineasta brasileira Lucia Murat. O filme recebeu uma Menção Especial do Júri Jovem na mostra Generation 14plus, da 75ª edição da Berlinale – como é conhecido o Festival de Cinema de Berlim – e também concorreu aos prêmios de Melhor Documentário e Anistia Internacional do evento.
Em entrevista a VEJA, a diretora, que acumula mais de quarenta anos de carreira, revelou que a ideia original era produzir um documentário tradicional, mostrando de outra forma esses meninos que tantas vezes eram representados como bandidos nos seus filmes. “Comecei a pesquisa junto às escolas públicas e fiquei impressionada com a dedicação dos professores, apesar dos salários baixíssimos. Entendi que havia ali a possibilidade de os alunos se apresentarem no que têm de mais bonito – no palco, no teatro.”
Uma das primeiras cenas mostra alunos do Ensino Médio em sala de aula, quando uma professora anuncia: “Hoje vamos falar sobre violência de gênero”. Depoimentos de meninos e meninas se intercalam, abordando a violência contra a mãe que, muitas vezes, começa antes mesmo do nascimento. Ainda que a escola retratada não seja real – por conta das dificuldades de filmagem em instituições de Ensino Fundamental e Médio –, a atmosfera remete à experiência escolar: o professor está presente, e os adolescentes estão sentados em carteiras enfileiradas. “Isso é um documentário ou uma ficção?”, questiona a professora. Um dos alunos responde: “Documentário. Porque estamos falando a verdade”.
Além dos relatos em sala de aula, o filme traz uma performance dos estudantes sobre a sensação de viver uma operação policial na Rocinha. Os corpos se paralisam, como se não pudessem avançar. “Os alunos foram divididos de acordo com quem tinha mais perfil para performance ou para teatro”, explica Murat.
Um dos pontos altos do filme é a dramatização de Clara dos Anjos, de Lima Barreto. “Na primeira vez em que fiz a leitura com eles na produtora quase desisti. Todos ficaram sérios e em silêncio. Em minha visão de socióloga branca, achei que iríamos ler o livro e discutir. Só que eles começaram a desconstruir o texto, a brincar”. Quando leem uma palavra que não conhecem, os atores pegam o dicionário e leem o seu significado, muitas vezes entendendo o racismo que também está na linguagem. Barreto, que era negro, usa diversas vezes a palavra mulatinha, o que faz uma das meninas dizer: “Mulatinha de novo, Lima Barreto?”. “Isso foi tudo improviso, claro. Eu não poderia brincar com o texto dele”, conta Murat.
Com o Brasil concorrendo a três categorias no Oscar que acontece no próximo domingo, pergunto à cineasta o que mudou nesse mercado nesses últimos anos. “Comecei a fazer cinema há quase 50 anos. É sempre assim. Eles tentam nos destruir, mas a gente vai lá e se recupera. Hoje estamos vivendo um novo ciclo de recuperação. Do ponto de vista da política cinematográfica, a questão mais importante é a regularização do streaming.” Hora do Recreio será distribuído pela Imovision no Brasil e conta com o patrocínio da Riofilme, BRDE, FSA Ancine e Embaixada do Brasil em Berlim. O filme ainda não tem data de estreia no país.