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Meu Nome É Maria: o drama da estrela abusada em filmagem de clássico

Cinebiografia se baseia na história real da atriz que passou por traumas na filmagem de Último Tango em Paris e virou símbolo da luta feminista

Por Thiago Gelli Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 30 mar 2025, 08h00

“Mais intenso”, pediu o cineasta italiano Bernardo Bertolucci à precoce Maria Schneider, de 19 anos, após a filmagem de uma tentativa de estupro, nos bastidores de Último Tango em Paris (1972). Ao lado de Marlon Brando, 28 anos mais velho, a jovem encenava um momento no qual a protagonista negava as investidas do par romântico, o xingava e deixava o recinto. Para o diretor, o resultado ainda era artificial — e a solução seria surpreendê-la. Sem aviso, ele ordenou que Brando não cedesse, abaixasse as calças da colega e lubrificasse seu derrière com manteiga para simular uma agressão sexual de fato. Schneider não saiu da personagem. Em vez disso, a humilhação que sentia se tornou parte da ficção, em um dos causos mais infames da história do cinema erótico — que a fez se sentir “um pouco estuprada pelos dois”, nas próprias palavras.

Mais de cinquenta anos depois, a cena se repete na cinebiografia Meu Nome É Maria, já em cartaz nos cinemas. Agora, contudo, Anamaria Vartolomei vive Schneider, Matt Dillon faz Brando e a diretora do filme vem a ser a francesa Jessica Palud. É um detalhe emblemático que, ao refazer a famosa sequência, a jovem cineasta tenha recrutado uma coordenadora de intimidade, como se chamam as profissionais que hoje monitoram as cenas de sexo para evitar constrangimentos às mulheres no set. Busca demonstrar, assim, que se poderia alcançar o mesmo resultado sem ludibriar a estrela do filme de modo traumático. Desde a eclosão do movimento #MeToo, no final da década passada, Último Tango em Paris passou de clássico cult a exemplo de práticas abusivas que devem ser condenadas (e canceladas). Com razão, a cena é hoje execrada como uma violência contra a atriz — fato que o novo filme expõe com olhar francamente feminista.

CLÁSSICO - O par de atores no original: “cena da manteiga” é famosa — e infame
CLÁSSICO - O par de atores no original: “cena da manteiga” é famosa — e infame (ChristopheL/AFP)

Na vida real, Schneider nunca recebeu qualquer pedido de desculpas. Após o lançamento, Último Tango foi tachado de “pornográfico” devido à nudez farta e chegou a ser banido na Itália por obscenidade, em sentença que exigia a prisão da atriz por dois meses. Abandonada pelos colegas, Schneider também se sentia rejeitada pelo público, que a objetificava ou considerava uma vergonha para as mulheres. Dentro da indústria, a atriz era procurada para papéis similares àquele ou de moças desajustadas. Em 1983, ela se queixou: “Só me chamam para fazer esquizofrênicas, lésbicas, assassinas e coisas do tipo”.

As frustrações acumuladas levaram a atriz ao vício em heroína — que, por sua vez, rendeu-lhe a reputação de ter memória fraca e ser difícil em sets. Ao longo de toda a vida, Schneider sofreu as consequências da irresponsabilidade de um cineasta. E não viveu o suficiente para ver a indústria mudar: morreu em 2011 de câncer, aos 58, seis anos antes do surgimento do #MeToo. Desde então, suas queixas são levadas a sério e seu caso é um exemplo a evitar no cinema. Dirigir sem coordenadoras de intimidade agora é impensável para Hollywood. Para a diretora de Meu Nome É Maria, a moral aí é simples: “Bertolucci filmou um abuso — e isso não é cinema”. Schneider já não é mais aquela estrela profanada, mas um símbolo poderoso.

Publicado em VEJA de 28 de março de 2025, edição nº 2937

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