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Fernando Schüler

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Os limites e a civilização

Nenhum avanço civilizatório resolverá nosso problema existencial

Por Fernando Schüler Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 4 jan 2025, 08h00

“A ideia de que vivemos num período semelhante à decadência romana é amplamente reconhecida no mundo intelectual”, leio em um texto do meu amigo Luiz Felipe Pondé, por estes dias. Pondé é um provocador. Ele traz ao debate um tipo neoconservador chamado Rod Dreher, cuja tese pode ser resumida da seguinte maneira: andamos em meio a uma crise ética, política e espiritual. Nosso império romano declinando seriam os Estados Unidos, e estaríamos vivendo o “fim da ordem global construída no pós-Segunda Guerra”. A saída sugerida por Dreher: deveríamos redescobrir São Bento, o monge que, no século VI, pregou a vida monástica e criou o que viriam a ser as ordens beneditinas.

Tese excelente. Diante do caos, o recuo. O livro-sensação de 2024, A Geração Ansiosa, de Jonathan Haidt, sob certo aspecto propõe o mesmo movimento. Seu caos é outro. É o bombardeio de informação, o elemento perverso das redes e tudo o mais. E o que fazer? Proteger, em especial nossos mais jovens, do inferno digital. Haidt não é um conservador, diz coisas com base na ciência, e seu diagnóstico é oposto ao de Dreher. Algo como: nosso problema não é a decadência, mas o sucesso. Mas também diante dele é preciso alguma sabedoria. O argumento vai em linha com a ideia do “paradoxo da abundância”, que escutei da doutora Anna Lembke, meses atrás. A autora de Nação Dopamina bate na tecla: nosso problema é o excesso. Criamos uma civilização que nos oferece doses infinitas de tentações a baixo custo, por todos os lados. E o risco é você simplesmente perder o controle.

As teses de que vivemos uma época de decadência (seja isto o que for) me parecem falsas. O pessimismo, como nota Pondé, é uma mania dos intelectuais. Ainda por estas semanas lia um artigo de John Gray assegurando que a eleição de Trump era “a derrota final do liberalismo”. Achei graça, contando quantas vezes o liberalismo já foi “definitivamente” derrotado. Se você lê os últimos livros de Yuval Harari, tratando dos incríveis riscos da IA, o primeiro impulso é construir um abrigo subterrâneo, no quintal, para se proteger do ataque de alguma inteligência robótica maligna, além de se precaver contra o iminente fim dos empregos. Em parte, isso se dá porque a especulação é livre. É sempre possível juntar pedaços da realidade e achar que tudo vai mal. Ou reunir pedaços distintos e concluir o oposto. Na década passada, Vargas Llosa escreveu um livro melancólico, A Civilização do Espetáculo, lamentando que a tecnologia e a cultura de massa disseminaram a superficialidade mundo afora. Karl Popper enxergou o oposto. Em seu discurso no Festival de Salzburgo, em 1979, fez troça das teorias sobre a “decadência estética”, da “moda pessimista da intelligentsia”, celebrando que a tecnologia havia “tornado Mozart e Beethoven acessíveis às pessoas comuns”.

Vale o mesmo para os tais sinais de decadência que nossos intelectuais enxergam nos Estados Unidos. O.k., há uma guerra comercial com a China. E não seria por isso que surgiu o Doge, o novíssimo Departamento de Eficiência Governamental, órgão encarregado de uma reforma radical que Musk e Vivek prometem, dando um choque de eficiência na máquina estatal americana? Nossos intelectuais ficam irritadíssimos com isso. Fazer o quê? Os Estados Unidos acabaram de produzir Sam Altman e sua IA; acabaram de fazer um foguete dar marcha a ré; migraram a corrida espacial para o setor privado, e logo teremos humanoides a baixo custo fazendo o trabalho que não desejamos fazer. “Ah! Mas tem o Trump!”. Pois é.

Há dois grandes grupos de pessimistas. Um deles é o pessimismo civilizatório. Oswald Spengler, por exemplo. Haveria ciclos civilizacionais, e estaríamos, aqui no Ocidente, na curva descendente. Detalhe: Spengler escreveu isso há pouco mais de 100 anos. Cada um pode julgar. O segundo tipo é o pessimismo existencial. Emil Cioran seria seu patrono. Ele e seu niilismo radical. Sobre o “não nascer como o melhor plano”, e tudo que sabemos. De minha parte, digo que nenhum dos dois tipos para de pé. O pessimismo civilizatório, porque é mentiroso; o pessimismo existencial, porque é inútil. E, em regra, de mentirinha. O próprio Cioran demonstrou isso, com seu apuro estético, sua recusa em gastar a vida trabalhando, a crença na escrita como forma de redenção. A ideia de que até se pode dar um tiro na cabeça, mas o universo prosseguirá perfeitamente indiferente, de modo que o melhor é evitar tanto drama.

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“O viés de negatividade não foi inventado pela internet”

O que se pode dizer é que andamos em meio a um mal-estar generalizado. A revolução tecnológica criou um mundo que convida ao descentramento. Se você vai ler um bom artigo na internet, termina capturado pelas besteiras do dia; se você leva o celular no fim de semana, termina em uma discussão inútil em um grupo do Whats­App. O problema parece prosaico, mas não é. A perda da atenção, a procrastinação e a permanente comparação com a vida dos outros são males universais de nossa época. Outro traço é o viés de negatividade. Claire Robertson, psicóloga da NYU, e um time de pesquisadores analisaram uma enorme quantidade de notícias on-line, com uma base de 5,7 milhões de cliques em 370 milhões de visualizações. Resultado: a cada palavra negativa a mais, como “raiva” e “medo”, os cliques aumentavam em 2,3%. Já palavras positivas, como “alegria” ou “progresso”, geravam o efeito inverso. A negatividade aumenta o engajamento. O viés de negatividade não foi inventado pela internet. É uma propensão humana. A geringonça digital apenas acelerou o processo, dada a uma simples equação de mercado. Não por acaso, um estranho pânico em torno de temas de “justiça social”, em regra associados a gênero e raça, explodiu em algum momento na virada para a segunda década do século. Vamos convir que não foi o mundo que subitamente começou a piorar por volta de 2010. Foi nossa percepção, afetada por uma mecânica difusa e impessoal. E é prudente ficar atento a isso.

A melhor leitura de nossa época nos fala do excesso e das dores da abundância, mais do que da decadência. O mundo segue violento e injusto, mas a mortalidade infantil caiu 60% e a extrema pobreza foi de 35% a menos de 10%, desde os anos 90. Intelectuais não gostam desses números, pois eles não têm charme. Mas eles sugerem que, em vez de entrar em uma nova idade média, nossa maior probabilidade é cumprirmos a profecia de Keynes em “Possibilidades econômicas para nossos netos”. Sua tese, de 1930, diz que, com o avanço da renda, em questão de um século terminaríamos livres do “problema econômico”. E com isso nos voltaríamos às coisas que realmente importam, como humanos. Keynes pode ter errado no prazo, em especial se colocarmos o planeta todo na equação. Mas não diria que errou na tendência.

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No fim, o mais provável é que terminaremos todos em cidades limpas e bem-organizadas. Vamos lembrar que Freud associou a civilização exatamente a essas coisas. A beleza, a ordem e a limpeza. Vai levar um bom tempo, e até lá vamos continuar resmungando. E, quando chegarmos lá, seguiremos assim, pois nenhum avanço civilizatório resolverá nosso problema existencial. Vai aí, quem sabe, a função dos intelectuais, inclusive de tipos como Cioran. Nos lembrar que podemos ter de tudo por aqui, mas o absurdo da condição humana permanece. Felizmente, diga-­se de passagem.

Fernando Schüler é cientista político e professor do Insper

Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA

Publicado em VEJA de 3 de janeiro de 2025, edição nº 2925

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