O que a Coreia deseja transmitir ao Brasil às vésperas da COP30
Artigo escrito por Yeonghan Choi, embaixador da República da Coreia
A 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), organizada com grande empenho pelo Brasil, será realizada em novembro na cidade portuária amazônica de Belém. Como embaixador da Coreia no Brasil, conheço como ninguém os enormes esforços que o país tem feito, mesmo diante de condições desafiadoras, para garantir o sucesso desse evento global.
Assim, publiquei, em 29 de outubro, um artigo na imprensa coreana sob o título “Por que a COP30 será realizada na cidade amazônica”, para apresentar ao público coreano o significado e a importância da conferência a ser sediada pelo Brasil.
No artigo, destaquei a liderança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na restauração do multilateralismo em prol da cooperação climática. Pontuei também que a escolha da Amazônia como sede da COP30 reflete a intenção de enfatizar a responsabilidade e a cooperação da humanidade na preservação das florestas e na resposta global à crise climática. Em especial, mencionei no artigo o que ouvi pessoalmente durante minha visita a Belém e em conversas com autoridades oriundas da região – que a preservação da floresta amazônica bem como a sobrevivência e os meios de subsistência dos cerca de 30 milhões de habitantes locais necessitam da atenção e cooperação da comunidade internacional.
A Coreia é o único país do mundo que passou da condição de receptor dos benefícios da Ajuda Oficial ao Desenvolvimento (AOD) para país doador. Com base nessa experiência, tem atuado como uma ponte entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, participando ativamente na cooperação multilateral em prol do clima. Nesse contexto, o governo da Coreia também está implementando projetos de AOD Verde, bem como ampliando suas contribuições voluntárias para o financiamento climático, com um total acumulado de 600 milhões de dólares para o GCF (Fundo Verde para o Clima) e 7 milhões de dólares para o fundo de perdas e danos. E a Coreia continuará desempenhando seu papel em apoiar a transição verde das nações do Sul Global.
A COP30 também é particularmente significativa por ser a primeira Conferência das Partes do clima com a participação do novo governo coreano, que assumiu a crise climática como tema de alta prioridade na sua agenda. Após superar a crise da decretação da Lei Marcial em dezembro do ano passado, a Coreia elegeu seu novo presidente Lee Jae-myung em junho recente, através de processo eleitoral. O presidente Lee Jae-myung estabeleceu como eixo central de sua administração o enfrentamento da crise climática e a transição energética sustentável, atuando ativamente na agenda da mudança climática, defendendo que é necessário transformar essa crise em uma agenda de novas oportunidades de crescimento.
Nesse contexto, o governo coreano vem cumprindo com responsabilidade as metas de redução de emissões de gases de efeito estufa (NDC – Contribuição Nacionalmente Determinada) para 2030, ampliando a infraestrutura de energia renovável e reformando sua governança ambiental. Como parte dessas medidas, o país transferiu o setor de energia, antes subordinado ao Ministério da Indústria, para o novo Ministério do Clima, Energia e Meio Ambiente, oficialmente criado em 1º de outubro, demonstrando a determinação do governo em acelerar a expansão das energias limpas.
Especialmente, às vésperas da COP30, a Coreia encontra-se em fase final de consultas públicas junto a setores industriais, sociedade civil e cidadãos para apresentar o seu plano nacional de redução de emissões até 2035 (NDC 2035) com base em um consenso social.
O enfrentamento climático e descarbonização, além de envolverem a cooperação multilateral, também são áreas muito promissoras para uma cooperação bilateral de mútuo benefício entre a Coreia e o Brasil.
O Brasil, por exemplo, aprovou, em 2024, a Lei Mover (lei que institui o Programa de Inovação em Mobilidade Verde), que incentiva manifestamente o uso de veículos sustentáveis. O país também vem explorando alternativas para combustíveis e transportes aéreos e marítimos limpos, além de enfrentar o desafio de suprir a demanda crescente por Sistemas de Armazenamento de Energia (ESS). Há ainda interesse crescente no desenvolvimento de Reatores Nucleares Modulares Pequenos (SMR), capazes de complementar as deficiências das redes elétricas em regiões amplas e remotas.
A Coreia possui tecnologia de ponta não apenas em indústrias tradicionais como automóveis e construção naval, mas também em energia do hidrogênio, baterias de segunda geração e SMR, entre outros. Em fevereiro do ano passado, o presidente do grupo Hyundai Chung Eui-sun visitou o Brasil e se reuniu com o presidente Lula, anunciando um investimento de US$ 1,1 bilhão até 2032, em sintonia com a Lei Mover e demais políticas verdes do Brasil. O foco do investimento é o desenvolvimento de veículos sustentáveis, incluindo carros a hidrogênio, mas também acordaram em aprofundar a cooperação em tecnologias emergentes como os SMR.
Com a Hyundai à frente, uma parceria público-privada entre os dois países em tecnologias limpas e cooperação industrial poderá gerar contribuições conjuntas significativas no enfrentamento climático, além de aprofundar e ampliar a parceria bilateral em setores de alta tecnologia e valor agregado.
Durante meu trabalho no Brasil, tenho compreendido de forma mais aprofundada o dilema enfrentado pelo governo brasileiro entre preservar e desenvolver a Amazônia e tenho buscado transmitir essa realidade à Coreia.
Quando as delegações internacionais visitarem Belém durante a COP30, terão a oportunidade de ver de perto que a Amazônia não é apenas um patrimônio natural da humanidade, mas também o lar de milhões de pessoas que dela dependem para viver. Essa experiência direta ajudará a fazer com que as vozes das populações afetadas pela crise climática sejam ouvidas de perto como também a promover uma reflexão conjunta sobre como tornar efetivas a justiça climática e o apoio aos países em desenvolvimento.
Sob a liderança do Brasil, que sediou sucessivamente o G20, o BRICS e, agora, a COP30, espera-se que esta conferência marque a restauração da confiança no multilateralismo. E que o espírito de “mutirão”– símbolo da cultura comunitária indígena brasileira baseada na cooperação – se transforme em um verdadeiro “espírito de mutirão global”.
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