Brasil está sem rumo e sem diálogo nas relações com os EUA
Governo brasileiro não tem “canais abertos” em Washington, restringe-se à rotina diplomática. Há empresários tentando aproximação, ainda incerta

À pergunta sobre como pretende reagir a Donald Trump, o presidente francês Emmanuel Macron tem repetido a mesma receita: “Boa relação e diálogo franco, temos canais abertos.”
“A União Europeia é o principal problema dos Estados Unidos?”, divagou Macron no fim de semana em conversa com o jornalista Richard Quest, da CNN. “Eu não acho. Seu primeiro desafio é a China, e é nisso que deveriam focar. Se querem aumentar investimentos em segurança e defesa, não deveriam prejudicar as economias europeias ameaçando a integração entre os dois blocos. Isso só aumentaria custos e criaria inflação nos EUA. É isso que o povo americano quer? Não tenho certeza.”
Lula escolheu um roteiro praticamente oposto ao de Macron. “O presidente Trump fez a campanha (eleitoral) com base em bravatas”, criticou dias atrás. Depois, acenou com a sua receita guerreira: “É simples: se ele taxar os produtos brasileiros, haverá reciprocidade do Brasil. É muito simples, não tem nenhuma dificuldade.”
Não há simplicidade alguma. Muito ao contrário, sobra complexidade para o Brasil de Lula no novo mapa-múndi.
Trump ensaia uma guinada radical dos Estados Unidos a partir do funeral de uma era de capitalismo liberal, que foi liderada por Washington desde a Segunda Guerra.
De um lado, seu projeto depende da construção de uma “Internacional reacionária”, como define Macron.
De outro, está limitado pela natureza das relações com a China. E esse “é um jogo de bola totalmente diferente”, observou na semana passada Ian Bremmer, da consultoria Eurasia. “Ela tem tamanho e influência para revidar contra os Estados Unidos de maneiras que outros países não conseguem. E vai revidar.”
Esta semana começou com Trump decretando sobretaxa (de 25%) nas importações de produtos de aço e de alumínio. O efeito no Brasil é a desorganização da produção e do mercado desses insumos industriais, empregadores e contribuintes urbanos relevantes.
Há meses, as siderúrgicas nacionais alegam concorrência desleal e tentam convencer o governo a aumentar tarifas sobre as importações chinesas. Industriais do aço entendem que taxas maiores sobre o produto da China poderiam vir a ser um trunfo para Brasília nas relações com Washington. É uma perspectiva restrita aos interesses específicos de um segmento empresarial.
Até agora, o Brasil de Lula se mostra sem rumo e sem diálogo nas relações com os EUA. O governo transparece falta de preparação para reagir, por exemplo, ao cenário provável das “tarifas recíprocas” — plano anunciado por Trump na campanha eleitoral, repetido nesta segunda-feira aos jornalistas na Casa Branca e, também, em entrevista à Fox News.
A tarifa média dos EUA sobre suas importações é quase um terço da brasileira. Reciprocidade, no caso, teria efeitos negativos diretos sobre fatia expressiva (quase um quarto) de todas as exportações do Brasil.
Brasília não é relevante em Washington, mas o país mantém com os Estados Unidos a mais decisiva das suas relações externas. Lula resolveu fazer uma aposta pública contra Trump às vésperas da eleição de novembro passado (“É o nazismo e o fascismo voltando a funcionar com outra cara”.)
Na sequência, nem se preocupou em deixar portas abertas à conversa, essência da política, como fizeram os presidentes da França, do Canadá e do México, igualmente críticos do projeto de poder que Trump desenha.
Pela primeira vez desde a redemocratização, o governo brasileiro não tem “canais abertos” em Washington. Por decisão própria, restringe-se à rotina diplomática. Há empresários tentando uma aproximação, ainda incerta.
Trump pode ser “bravateiro”, como acha Lula. Mas a opção pelo monólogo contém riscos. Entre outros, está o de uma eventual escalada na desconfiança entre os governos do Brasil e dos Estados Unidos, já estão em rota de colisão. É jogo com um único vencedor: a China, que não é um tigre de papel.