Efeitos da crise são visíveis nas cidades e no campo. Na semana passada, Salvador assistiu a protestos de motoristas contra o aumento (cerca de 18%) nos preços dos combustíveis. Em São Paulo, Goiás e Rio Grande do Sul, agricultores se queixam não apenas da alta nos custos, mas também da queda no abastecimento de diesel em plena colheita.
É parte da onda de choque da guerra no Oriente Médio, que se espraia com rapidez neste pedaço das Américas, obriga governos à revisão de orçamentos e impõe aos partidos mudanças de rumo na disputa pela Presidência.
Existem algumas semelhanças com a emergência de quatro anos atrás, quando a Rússia invadiu a Ucrânia. Mas é notável uma trapaça da história: a agonia com os bombardeios naquela temporada eleitoral foi ruminada por Jair Bolsonaro; agora é Lula, principal adversário e beneficiário de 2022, quem mastiga aflição com as incertezas sobre os ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã.
Entre guerras ficaram expostas as crescentes vulnerabilidades brasileiras. Exemplo: o país enfrenta, pela primeira vez, aumento simultâneo dos custos de combustíveis e de fertilizantes em plena colheita.
É paradoxal, mas a potência agrícola que “alimenta o mundo” permanece fragilizada em relação aos efeitos dos conflitos geopolíticos e está cada vez mais dependente das importações de insumos básicos, principalmente combustíveis e fertilizantes.
O país é um dos maiores exportadores de petróleo, porém, precisa comprar no exterior um terço do diesel que consome nas fazendas e no transporte da produção agrícola. Abalos no mercado mundial de petróleo se espraiam rapidamente pela economia, com impacto relevante nos transportes e nos alimentos.
Isso acontece porque a capacidade nacional de refino é inferior à necessidade — e o país ainda não conseguiu sair do atoleiro de velhos e caríssimos projetos estatais comprometidos por má gerência e corrupção. Caso exemplar é o da refinaria da Petrobras, em Pernambuco. Custava 2,5 bilhões de dólares no orçamento original, duas décadas atrás. Já consumiu mais de 20 bilhões de dólares e continua longe do resultado previsto.
É notável, também, como a elite deixou a potência agrícola chegar à absoluta dependência externa de outro insumo essencial, os fertilizantes. No ano passado, o país importou nove em cada dez toneladas de fertilizantes que usou em adubação. Significa que o agronegócio brasileiro planta e colhe em escala recorde se não enfrentar restrição significativa de custo e de fluxo das matérias-primas fornecidas, basicamente, pela China, Rússia, Ucrânia e Irã.
“É paradoxal, mas a potência agrícola está dependente e mais vulnerável”
O “boom” no campo nas últimas três décadas deve muito à expansão no consumo de adubos como fósforo e potássio nas fazendas, até duas vezes maior por hectare plantado. Não à toa, a produção de soja no Brasil subiu de 23 milhões de toneladas para 152 milhões de toneladas no período de 1993 a 2023, mostra pesquisa realizada pelos institutos Escolhas e Folio, em parceria com a Itaúsa. Foi essa aditivação contínua nas áreas de plantio que permitiu ao país ultrapassar os Estados Unidos na produção de soja em 2019.
Lula parece estar apreensivo com os efeitos da guerra. Em campanha, há duas semanas começou um ritual diário de múltiplas acusações pelos danos colaterais da guerra no bolso dos eleitores. Culpa os governos dos Estados Unidos, da China, da França, da Inglaterra, da Rússia e de Israel pelas sequelas das guerras na Ucrânia e no Irã. Culpa comerciantes pela alta de preços dos combustíveis. E culpa o sistema financeiro (Banco Central incluído) pelos juros mais altos do planeta e por incertezas sobre o endividamento dos consumidores que vão às urnas em outubro — metade está inadimplente há mais de três meses, na medição feita em fevereiro por entidades do comércio.
É uma forma de evitar explicações sobre o que deu errado. Podia ser diferente? Claro, se o governo tivesse se preparado para essa guerra, que foi anunciada nos bombardeios ao Irã em meados do ano passado.
A ameaça ao bolso e ao humor dos eleitores também incomoda a oposição, que escolheu seguir idêntico roteiro: culpa os outros — no caso, o governo Lula. Nessa ciranda de autoisenção fica claro que os candidatos não sabem ou não querem dizer o que pretendem fazer.
A onda de choque da guerra está demonstrando a utilidade de um velho truque retórico em temporadas eleitorais, que assim foi resumido por Homer Jay Simpson, personagem do cartunista Matt Groening: “Se a culpa é minha, eu coloco ela em quem eu quiser”.
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Publicado em VEJA de 27 de março de 2026, edição nº 2988





