O caso do papa: bronquite pode ser porta de entrada para complicações
Problema de saúde resultou na hospitalização do Papa Francisco. Saiba o que está por trás do quadro e o que pode ser feito para flagrá-lo e preveni-lo

A bronquite, condição que desencadeou a internação do Papa Francisco, é a inflamação dos brônquios, as vias aéreas responsáveis por conduzir o ar até os pulmões. Essa inflamação pode ser aguda ou crônica. A primeira é geralmente causada por infecções virais, como gripes e resfriados, e tende a se resolver em algumas semanas. Já a crônica está associada à exposição prolongada a irritantes pulmonares, como tabagismo, poluição e poeira, sendo uma das formas da doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC).
Os riscos e complicações da bronquite dependem do tipo e da gravidade da inflamação. A bronquite aguda, embora comum, pode evoluir para infecções secundárias, como a pneumonia, especialmente em idosos, crianças e imunossuprimidos. Já a crônica compromete a função pulmonar progressivamente, podendo levar à insuficiência respiratória, com maior risco de exacerbações frequentes que reduzem significativamente a qualidade de vida.
O diagnóstico da bronquite é geralmente clínico, baseado na avaliação dos sintomas e no histórico do paciente. No entanto, em casos de suspeita de infecção bacteriana ou viral, exames laboratoriais e de imagem podem ser solicitados para um diagnóstico mais preciso.
A radiografia de tórax é útil para descartar complicações como pneumonia ou outras doenças pulmonares. Em casos mais graves ou persistentes, a tomografia computadorizada de tórax pode ser indicada, especialmente quando há suspeita de doenças pulmonares relacionadas, como pneumonia de difícil diagnóstico, bronquiectasias ou até mesmo tumores que possam estar causando sintomas respiratórios crônicos.
A espirometria é especialmente indicada a pacientes com bronquite crônica, pois avalia a função pulmonar e auxilia no diagnóstico de DPOC. Já a oximetria de pulso e a gasometria arterial medem os níveis de oxigenação do sangue e são indicadas para casos graves com sinais de insuficiência respiratória.
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Além dos exames, testes moleculares de diagnóstico rápido têm se tornado cada vez mais importantes na identificação de agentes infecciosos. Hoje contamos com painéis que detectam rapidamente a presença de vírus e bactérias em amostras de secreção respiratória, analisando mais de 20 patógenos simultaneamente, incluindo vírus influenza, sincicial respiratório (VSR), SARS-CoV-2, adenovírus e parainfluenza, além de bactérias como Bordetella pertussis, causadora da coqueluche.
Esse exame é extremamente útil para diferenciar bronquite viral de infecções bacterianas, evitando o uso desnecessário de antibióticos. Existem também painéis moleculares ainda mais detalhados, geralmente usados em pacientes com suspeita de pneumonia associada à bronquite ou casos mais graves: eles são capazes de identificar mais de 30 patógenos, além de fornecer informações sobre genes de resistência a antibióticos, ajudando na escolha do tratamento.
A prevenção da bronquite envolve a adoção de medidas que minimizem a exposição a agentes irritantes e fortaleçam a imunidade. Evitar o tabagismo e a exposição à fumaça passiva é fundamental, assim como reduzir o contato com poluentes e alérgenos. Além disso, a vacinação é uma estratégia essencial para prevenir infecções respiratórias que podem desencadear ou agravar a bronquite.
Entre as vacinas mais indicadas estão a da gripe, que reduz o risco de infecções sazonais que podem levar à bronquite aguda e agravar quadros crônicos, e a pneumocócica, disponível nas versões Pneumo13, Pneumo23 e Pneumo20, que protege contra a Streptococcus pneumoniae, uma das principais bactérias causadoras de pneumonia. A vacina pneumocócica 20-valente oferece cobertura mais ampla, protegendo contra um maior número de sorotipos da bactéria, sendo indicada a adultos e idosos com doenças pulmonares crônicas e outras comorbidades.
Outras vacinas importantes são a da coqueluche, que previne infecção por Bordetella pertussis, causadora de tosse persistente e inflamação brônquica, e a contra o vírus sincicial respiratório, recomendada principalmente para lactentes e grupos de risco, protegendo contra um vírus que pode causar bronquiolite e exacerbações de doenças respiratórias crônicas.
Além da vacinação, manter uma boa hidratação, praticar atividades físicas regularmente e adotar uma alimentação equilibrada também contribuem para a saúde pulmonar. E, diante de suspeitas ou sintomas, é imprescindível procurar um serviço médico para o diagnóstico e tratamento adequado.
* Hélio Magarinos Torres Filho é patologista e diretor médico do Richet Medicina & Diagnóstico, da Rede D’Or