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Cigarros eletrônicos e saúde reprodutiva: questão que merece foco

Consumo crescente por população jovem, ainda sem filhos, é preocupante; presença de metais nos componentes pode ter consequências para ambos os sexos

Por Maria do Carmo Borges de Souza*
20 jan 2026, 08h00 •
  • O fumo é claramente associado a riscos à saúde com dados já consolidados na década de 1950. Daí as intensas campanhas antifumo, desde informações contidas nas próprias cartelas de cigarro sobre malefícios diretos — como o câncer do pulmão — até a proibição de fumar em restaurantes e em ambientes fechados em geral.

    A partir de 2004, uma nova sensação foi introduzida na forma de cigarros eletrônicos, também chamados de vapes ou pods. Ao gerar vapor ao invés da fumaça, foram apresentados como uma alternativa para os fumantes crônicos, que estariam distantes das condições que resultam em malefícios. Seria possível, assim, manter o hábito sem os riscos tóxicos dos cigarros tradicionais que fazem a combustão de papel e tabaco para gerar fumaça, responsável por transportar alcatrão, nicotina, monóxido de carbono e outras substâncias nocivas para os pulmões.

    O mercado dos vapes vem crescendo e a premissa de segurança tem atraído muitos, inclusive a população jovem. Mas, estamos seguros nessa utilização? O uso dos vapes exclui problemas à saúde em geral? Para os especialistas em reprodução, ao lado da exposição, a questão se volta sobre possíveis interferências também na fertilidade.

    Nestes anos de adesão ao dispositivo, as evidências têm se apresentado. São muito trabalhos em animais, mas já temos dados em humanos, que estão se somando às informações sobre os aparelhos eletrônicos e suas atualizações, inicialmente de uso único e agora já reutilizáveis.

    As composições nem sempre estão claramente definidas, há variedade entre marcas com mais de 80 componentes detectados entre líquidos e aerossóis, com adição de aromas e sabores que também aumentam a toxicidade. O calor gerado leva à oxidação e decomposição dos componentes, com efeitos danosos na inalação destas mais de 500 marcas e mais de 8 000 aromas ou sabores.

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    Ao lado de evidências aparentemente positivas de que diminuiriam os riscos para os fumantes crônicos ou para quem tem dificuldade com as terapias anti-nicotínicas, quando avaliados em indivíduos saudáveis há aumento do ritmo cardíaco, da pressão arterial média, do estresse oxidativo, alteração do epitélio respiratório e aumento da resistência ao fluxo de ar para os pulmões.

    O consumo crescente por população jovem, ainda sem filhos, é preocupante, pois até a questão da exclusão da nicotina é questionável. Pesquisadores apontam que alguns podem ter concentrações de nicotina tão altas que podem atingir até 1 500 tragadas, por exemplo. Isso significa que um cigarro eletrônico pode ter um total de tragadas equivalente a cinco maços de cigarro convencional! Ou seja, ele seria pior que o cigarro tradicional.

    Desta forma, já há trabalhos mostrando, por exemplo, motilidade de espermatozoides diminuída em consumidores de cigarros eletrônicos com sabor de canela e chiclete, “sem nicotina”. A presença de metais nos componentes pode ter consequências para ambos os sexos.

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    Nas mulheres, índices de chumbo podem, por exemplo, ser responsáveis por abortos espontâneos e malformações congênitas. O vapor de cigarros eletrônicos é uma mistura de diversos componentes, incluindo entre outros o formaldeído, amplamente estudado em modelos animais e potencialmente tóxico na espermatogênese humana, na maturação folicular nas mulheres, na implantação e no desenvolvimento embrionário.

    Pode-se admitir, portanto, que o vape está longe de ser uma alternativa segura ao fumo convencional de cigarros. As pessoas que estão tentando engravidar devem estar cientes de seu potencial impacto na saúde reprodutiva. Além disso, mesmo os pacientes passando por tratamentos de reprodução assistida devem ser alertados sobre o possível impacto do uso de cigarros eletrônicos nos resultados do tratamento e, possivelmente, na saúde de seus filhos.

    *Maria do Carmo Borges de Souza é diretora da clínica de reprodução humana Fertipraxis (RJ), membro do Conselho Consultivo da Associação Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA) e da Rede Latino-Americana de Reprodução Assistida (REDLARA), das quais já foi presidente

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